Tuesday, April 15, 2025
STRANGE FRUITS (crônica de Guilherme de Faria)
Há uns quinze anos atrás eu deixei este meu cordel na loja de artezanato popular brasileiro (chamada, se me lembro, "Mercearia Brasil") de um casal amigo meu (o ator e cineasta Juarez Malavazzi e linda esposa Daniella) na Galeria Vitrine na rua Augusta. Este cordel específico estava dependurado num varal, à maneira da apresentação dos cordéis nas feiras populares do Nordeste. Eu estava lá conversando com o dono, meu amigo, quando entrou um turista americano branco, típico, e ficou olhando os objetos em silêncio. Avistando meu folheto de cordel com esta ilustração na capa, ele murmurou suficientemente alto para ouvirmos: "Strange Fruits...". Meu amigo apesar de também falar inglês não percebeu a referência oculta na exclamação do americano, mas eu atinei imediatamente: por causa do preto e branco da xilo, o velho enforcado na jaqueira pareceu-lhe um negro velho (coisa que não o é na estória que inventei, pois os cabelos da filha são longos e lisos para poderem fazer uma corda). Então, imediatamente percebi a associação poética feita na cabeça do americano, com a famosa e trágica canção "Strange Fruits" da maravilhosa cantora negra da década de trinta, Billie Holliday, cuja imagem de " estranhos frutos", na canção se referia veladamente aos negros linchados pela KU KLUX KLAN, pendidos das grandes árvores do Mississipi... Tive um arrepio, cochichei a minha ilação para o meu amigo, mas, perplexos, talvez consternados pela lembrança, não abordamos o cliente, que circulou pouco e logo deixou a loja.
Guilherme de Faria
15/04/2025
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