Monday, March 17, 2025

PEQUENO ENSAIO SOBRE AS FRUSTRAÇÕES (de Guilherme de Faria)

 

Cheguei à conclusão de que, em síntese, toda sabedoria de vida consiste tão somente em contornar, superar ou suportar as pequenas e grandes frustações que nos acompanham na vida. A propósito, raras vezes as confessamos, como algo vergonhoso num mundo de vencedores alardeados. Eu mesmo não o farei, nem mesmo neste depoimento que posso camuflar como um pequeno ensaio genérico, teórico...
Por quê? Porque creio que nossas frustações, ou sonhos irrealizados, nos revelam mais que nossas pequenas vitórias. Sim, nos põe nus e sem uma folha de parreira sequer. Aliás, começaram com Adão e Eva as frustrações a que fomos condenados. E reside nessa frustração básica e primordial o patético da condição humana na Terra, uma vez que até os vencedores acabam mal.
Como artista, vocês podem imaginar, tive inúmeras frustrações que "nem às paredes confesso", como canta o famoso fado da Amália.
Entretanto, o resultado final, ou o saldo (como se diz) foi positivo, pois também, como diz o povo, de um modo geral "não fiquei mal na fita", conquanto na minha juventude, com minha mentalidade tão à margem, a tendência de andar a contrapelo, e para, falar a verdade, um recurso contumaz à embriaguês compensatória... eu tinha tudo para dar errado.
Já há algum tempo, como perceberam, na verdade um tanto tardiamente, eu me decidi a dedicar-me à Literatura através de um heterônimo feminino que me surgiu expontânea e repentinamente, não para camuflar-me, mas para revelar-me, uma vez que foi minha própria "anima" ( no sentido Junguiano do termo), até então encerrada no meu inconsciente profundo, que assim manifestou-se.
"Então", Guilherme (alguém poderia perguntar) -"a Alma Welt é o seu lado feminino frustrado na vida real, já que você "não desmunheca nem no traço?" Risos, risos e risos...
Na verdade (eu respondo), minha admiração pelas mulheres parte do meu olhar masculino, e contém também meu enorme desejo, tantas vêzes frustrado... Devo lembrar também que a minha Alma Welt , em vários momentos de sua literatura evoca o Hermafrodita do mito primordial grego, como o Ser perfeito, ideal, perdido para sempre, rachado ao meio por um anátema divino enfurecido...
Bem.. quantos às outras frustrações, profissionais, cotidianas, ou de relacionamentos conjugais... essas são irrelevantes, acabam não contando no fundo da alma de um artista, embora possam ser suficientemente vergonhosas ou patéticas para serem ocultadas da platéia...
Não sei se me fiz entender ou os frustrei também sobre esse terreno pantanoso dos fracassos, que contém no fundo, e por definição, uma ambigüidade, já que o nosso verdadeiro SONHO permanece sempre, oculto, e o levamos inalterado, conosco, para o último sono...
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Guiherme de Faria
13/03/2025





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