Entretanto à medida que envelheço me vejo chorando mais amiúde. Na verdade... como se tudo me soasse como uma despedida muito lenta, gradativa... Mas não é a velhice, de modo geral, senão isso?
Apegamo-nos à vida, ela é, pelo menos em seus termos normais, uma dádiva. Em seus termos ideais éla é sublime. Mas choramos sempre nossos mortos...
Nunca fui, nem na juventude, um sujeito muito sociável, que cultivasse os amigos, procurando-os ou esperando-os e acolhendo-os com disponibilidade. Mas cheguei a ser muito procurado por uma variada fauna humana no começo de uma fase "maldita", inicial, da minha carreira de artista. Talvez como um pequeno enigma a ser desvendado, talvez pela minha natureza ostensiva de jovem artista dotado de talentos vizíveis: eu me expressava bem com palavras, era bonito e desenhava de maneira excepcional desde a infância. E se era reservado como se me pusesse num pequeno pedestal, era na verdade por uma grande timidez social, que só pude camuflar pelo alcoolismo.
Vocês podem imaginar como eu era na Era do sexo, (álcool) e Rock'nRoll dos anos 60 e 70 em São Paulo. Eu nunca consumi drogas, fora o álcool e o tabaco que eram minhas drogas de escolha, até atingir o meu "fundo de poço" na década de 80. Já contei aqui no face, anos atrás, a minha trajetória até a minha libertação do alcool em 1981 e do cigarro um ano depois, em 1982. Uma verdadeira saga, com um final feliz "par la grâce de Dieu" como dizia do meu autodidatismo o meu amigo idoso Eduardo Mercier, que tinha sido, na Paris dos anos 30, um "amigo de Modigliani', outro brilhante" maldito' somente pelo alcoolismo, pois era extremamente apreciado já em vida, e vendia seus maravilhos quadros, sim, vendia e recebia encomendas de retratos, como eu também com desenhos e retratos a óleo de esposas-musas de homens ricos...
Mas a verdade é que o dinheiro se funde como água nas mãos dos alcoólatras, e logo nos vemos nos debatendo para manter o queixo de fora.
Tudo isso são "águas passadas", um tanto turvas, esclarecidas a mim mesmo pelo Tempo. As coisas são como foram, e tudo se transforma em histórias, se não História.
A esta altura da vida, não preciso mais me arrepender de nada...
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Guilherme de Faria
05/02/2025
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