Me lembro que, quando muito jovem, uma vez li na biografia de um artista, que, jovem pintor iniciante, procurou um grande Mestre de sua admiração para aconselhar-se numa nascente carreira. O Mestre apenas disse: "Se quer se tornar um bom artista, comece por endividar-se."
Confesso que fiquei perplexo com o cinismo do conselho do Mestre, que implicava em adquirir uma angústia material que obrigasse o jovem a trabalhar e superar o hedonismo próprio da juventude, e produzir muito para pagar as dívidas e sobreviver. Mas não segui o conselho do mestre, pois como jovem artista, paupérrimo, eu não tinha crédito nem para adquirir dívidas.
Entretanto não precisei endividar-me para produzir, pois descobri um expediente (que não aconselho a ninguém) para suportar a fome e a angústia material, e criar. Eu fiz o que, por exemplo, Modigliani fazia: eu bebia muito.
Naturalmente se tratava sobretudo de uma maneira, talvez covarde, de amortecer o sofrimento e tornar possível entregar-me à Arte, dividindo os parcos proventos das vendas eventuais de algum desenho ou pintura, entre o custo das tintas mais vagabundas e dos fracos papéis nacionais, e o de um grande garrafão de vinho Sangue de Boi (que descia rascante) e saquinhos de sopa miojo, que eu preparava numa espiriteira de álcool, no meu porão embolorado.
Perdi vinte quilos. Foi um dos períodos mais produtivos e criativos da minha vida...
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16/03/2025
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