Tuesday, October 21, 2025

PREFÁCIO ao romance A IDADE DA ALMA, de Alma Welt (Por Guilherme de Faria)

Existem coisas curiosas na Literatura clássica, quase idiossincrasias, como a de Os Três Mosqueteiros (de Alexandre Dumas) que eram quatro (!): Athos, Porthos, Aramis, e... D’ Artagnan. Assim também a Trilogia A HERANÇA, de Alma Welt: O Sangue da Terra; Vinha de Dioniso, A Ara dos Pampas, comportaria perfeitamente este quarto volume, A IDADE DA ALMA, que é uma nítida e digna continuação da saga de família da autora protagonista no seu Pampa real e Mítico, como ela mesma, na sua dimensão arquetípica, que confere tanta beleza e profundidade à sua linguagem expressiva, que se, situa, às vezes, numa fronteira tênue entre o coloquial e o lírico, ou entre a prosa e a poesia. Também ela aborda, com propriedade, simbólica e com legitimidade, sem abuso, com moderação, momentos de “realismo fantástico” sul americano, como (com algum “spoiler”) cito a sua sobrevivência muito natural e contínua, em uma dimensão quântica paralela, após a trágica e chocante descrição de sua própria morte assassinada. Mas, neste romance realista, nada de fantasmagoria espectral como, por exemplo, o encontro finalmente em espírito de Cathy Earnshaw e Heathclift. após a morte de ambos, vagando na charneca amada no Morro dos Ventos Uivantes, a obra prima de Emily Brönte, romance que percebemos que Alma Welt tanto ama, como ama a sua campanha gaúcha, das coxilhas e também de um uivante vento Minuano. A continuação plácida e, insisto: realista, após a descrição tão chocante de violência brutal de seu assassinato, confere uma originalidade magistral ao sentido geral deste novo romance da gaúcha. O realismo de sua descrição dos acontecimentos, segue sempre um encadeamento lógico que guia a narrativa, sempre com um sabor, não de fantasia, mas de memória e confissão, que é a característica peculiar, geral, de seus textos, em todas as suas obras. No entanto, literariamente, ela não se assemelha ao naturalismo de um Zola, mas ao realismo lírico de um Flaubert, que ela parece amar. Nesta obra, ainda fazendo parte da saga familiar A Herança, vemos ainda um original atrativo: a autora apresenta uma extraordinária inovação no gênero romance: duas grandes coleções temáticas de sonetos integrados aos enredos desenvolvidos: sobre o Tempo e sobre Amigos. São sonetos belíssimos que exibem a riqueza e a profundidade de suas variações sobre os temas. Eu diria que Alma Welt é especialmente magistral neste gênero poético nascido na Idade Média e que ela cultiva de maneira idiossincrática a ponto de ter produzido incríveis 5.000 sonetos dodecassílabos originais, e quase sempre confessionais . Como vêm, eu saúdo esta escritora gaúcha, excepcional, que tive o privilégio, em 2001 de descobrir em seu “auto-exilio” paulistano, e lançar seu primeiro livro de contos em 2004, os Contos da Alma, de Alma Welt, uma coletânea de obras primas do gênero, a maioria de contos urbanos de sua experiência existencial na capital paulista, ela que veio do meio rural gaúcho, tão diferente da “Paulicéia desvairada” do nosso Mario de Andrade. Sim, eu diria que esta Alma carrega consigo o seu Pampa, como aquela inglesa rural carrega até os nossos dias a sua charneca. Ambas nos encantam de maneira semelhante e nostálgica, num mesmo “realismo romântico”, que preservam e perpetuam gloriosamente, numa época de realismo sórdido como o destes nossos tempos. Guilherme de Faria 10/10/2025

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