Thursday, June 12, 2025
O QUARTO (Conto de Guilherme de Faria, de 1962)
O QUARTO
(Conto de Guilherme de Faria, de 1962)
Devo agora abrir a porta. Ela deverá sair. Não nos é mais possível permanecer no quarto que, subitamente, se tornou nítido, cujos contornos precisos nos expulsam ou simplesmente nos fazem ver outras necessidades. O mundo lá fora... Mas, o Mundo? Ele deixara de existir durante esta eternidade.
Aqui nos encerramos, quase sem perceber. Estamos na cama há um século. Sobre esta cama nos abismamos um no outro, ininterruptamente. Os lençóis rescendem a nossos corpos e suores. Aqui nos possuímos um milhar de vezes, quem sabe... E choramos abraçados. E rimos. Dançamos horas enlaçados, lentamente, ao redor da cama numa música mental. Nossos olhos não desgrudaram um minuto uns dos outros.
Esquecemos de comer, de beber, não abrimos a porta, não abrimos sequer as janelas. Durante quanto tempo? Me é difícil saber.
Esta pequena mulher que deve me deixar, eu a absorveria em mim ainda agora. Mas devo abrir a porta e esse gesto me faz olhar em torno a nós. E olhá-la, de repente, como num limiar que não existia antes. É uma menina! Dezesseis anos – ela diz –ai de nós!... Voltemos para a cama! Não, não podemos. Acordados!
Estranho... não me ocorreu perguntar-lhe quase nada. E o nosso passado era tácito e comum. E nos afundamos nele como na alma, somente. Nossas lágrimas foram, certamente, pela alegria do nosso encontro e pelo que deveremos perder.
Estranho... Agora nos vejo neste mesmo espelho em que nos contemplamos abraçados e nus. E nos reconheço ainda, é claro, mas com um afastamento, em nitidez. E a barba me cresceu durante estes quatro dias... Maldição! Sei muito bem o que vai acontecer. Por que não pensar nisso desde já? Eles nos cobrarão. Muito nos vai ser cobrado, tenho certeza. Por que negar, sei tudo, essa é a verdade. Haverá inquisições à sua espera, à nossa espera. Posso prever-lhes os mínimos gestos e as palavras e as lamentações...
Não nos darão tréguas. Vão nos cobrar cada centímetro quadrado desta cama, destes lençóis encharcados e sagrados, do aroma que rescendem para as minhas narinas de agora e de sempre. Mas não me entregarei. Não nos entregaremos, eles verão. Olho mais uma vez para ela, e sei disso, e quereria poupá-la. Quereria poupar-me também, por que não? Eu poderia trancar a porta novamente e morreríamos lenta e docemente sobre esta cama... Mas algo se quebrou. Tarde demais! Devo abrir a porta porque olhei a porta de repente e essa pequena mulher teve um laivo de susto que captei em seus olhos. Ela sabe. Ela pensa, talvez, numa grande mesa cercada de cadeiras altas e olhares severos. Está previsto... Deve ser sempre assim. Não somos certamente os primeiros (por que agora penso nisto?). Uma pequena distância interpôs- se, mas que me permite olhá-la e reconhecê-la. Ela é bela, meu Deus, não me enganei! E é uma menina, vejam só! E eu a amo, é evidente. Vamos lá, saiamos.
Tudo está bem. Agora é o segundo círculo*, e o que nos cabe, nos cabe.
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Guilherme de Faria - 1962
Nota
* segundo círculo - alusão ao segundo círculo do Inferno na Divina Comédia de Dante Alighieri, onde o Poeta encontra as almas de Paolo Malatesta e Francesca da Rimini, e todos os amantes clandestinos que têm a punição de ali viverem eternamente abraçados, sem pouso, num turbilhão sem fim.
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