Friday, October 10, 2025

Manhã Orvalhada (de Lucia Welt para a amada Alma)

Nesta manhã orvalhada caminhei pela campina como outrora quando tudo parecia mais autêntico e vivo pois a Alma estava entre nós e eu podia segurar a sua mão ao caminhar. Ainda ouvi sua respiração arfante não tanto pelo andadura como pelas emoções de seu olhar sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu que me passavam despercebidos. Senti novamente seu perfume de mulher jovem inconcebivelmente linda que só por isso já nos comovia tanto quanto aos peões que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho e tiravam o chapéu ao seu riso cristalino. Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma que agora nos falta! Tu, o elo de ligação entre este pampa e nossas vidas entre a paisagem e nosso alento que todavia persiste sem teu respiro mais amplo em teu voo a um tempo gracioso e sobranceiro, de branca garça pampiana guria de cabelos flamejantes, de pele alva de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo... Esta foi, além de teus poemas tua prenda maior mas tua desgraça, pois também os maus te viram e cobiçaram... Mas não quero pensar senão em ti, na tua caminhada, quando rindo de alegria te afastavas de súbito virando-te para mim para logo me estenderes as duas mãos para rodopiarmos na campina por puro prazer de viver. Ah! Como eras preciosa, meu amor, minha irmã! Que poema posso eu te escrever senão evocar-te tal qual eras em tua beleza cheia de secretos encantos que no entanto prodigalizavas? Quanto te desnudavas em tua generosidade, pois bem sabias que o olhar do povo, deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo, como não seria com nenhuma outra prenda! Quem, entre os mortais que te viram nua (e talvez alguns deuses) não sonhou secretamente ter-te nos braços para sugar-te o hálito divino e fruir de tua pele de seda de impossível brancura sob este sol do Pampa, ou mais amiúde sob a lua e as estrelas peregrinas do teu negrinho padroeiro? (Ai! Na grande cidade também foste amada, mas também violada em tua comovente vulnerabilidade, criatura exótica perdida no caos.) Ah! Não poder nunca defender-te, preservar-te do mal e dos maus, cobrir teu corpo de ninfa com meu corpo maternal e nunca mais deixar-te ir-se!... Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada e por um segundo tu, Alma, tocaste a minha mão, senti teu beijo em meus lábios, o hálito fresco da pradaria e soube que continuas por aqui. E chorei consolada... (Lucia Welt) 28/05/2008

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