Durante esta quarentena em que os dias dentro de casa se sucedem estranhamente iguais, monótonos e voláteis, mais percebo a rapidez do fluir do Tempo, como uma insólita corredeira lisa, sem rumores e sem pedras... monstruosa e inexorável.
Fui um pouco pedante nesta introdução? Na verdade busquei ser fiel à minha atual sensação cotidiana da vertigem do Tempo, que me parece mais fugaz que nunca... Entretanto, tenho um banal e comezinho instrumento de comparação para esta sensação da fugacidade das horas neste retiro forçado. Trata-se do meu aparelho de ginástica, um "pedalinho" com alavancas, que entope o já exíguo espaço do meu ateliê, instalado bem no meio dele, e que em seu uso estranhamente denuncia a relatividade desconcertante do Tempo: um minuto pedalando nele parece uma penosa eternidade...
Sempre fui, na verdade, um hedonista, vivendo minha vida toda pelo princípio do prazer, o que me fez na juventude ter ido "com muita sede ao pote", gastando minha quota de luxuria muito cedo, esgotando-a com apenas 38 anos, com uma recaída na "idade do lobo", aos 51. Nem por isso passei a ter uma vida espartana, como minha mãe preconizava... Desde aquela idade, em que podia ter morrido, "estou no lucro" (como se diz)...
Nos últimos dez anos vivo uma vida quase que inteiramente virtual, alternando entre tela, telinha e telão, isto é, minhas pinturas de telas no cavalete, o computador na internet, e a TV a cabo num televisor de bom tamanho. Agora, nesta quarentena, essa forma de viver apenas se acentuou, e como todo mundo, anseio por uma mobilidade e liberdade que eu já quase desprezava.
Bem... na verdade estou velho, e como tal, tenho momentos de exasperação, ou talvez daquela fantasia tardia que fez o velho Liev Tolstói, com sua comprida e ilustre barba branca, fugir de casa, de suas terras que ele não podia mais dispor para distribuir, e acabar morrendo sentado, numa noite gelada, no banco de madeira de uma deserta estaçãozinha, esperando o que seria o último trem de sua maravilhosa e produtiva vida de magistral escritor, que virtualmente captara a essência da vida e do mundo...
20/03/2021
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