Wednesday, March 31, 2021

DIÁRIO DA QUARENTENA III (crônica de Guilherme de Faria)

Um parênteses neste meu diário: Querem saber a razão de eu ter feito tanta litografia dentro da mesma fase, quase mil imagens (com tiragem média de 150 exemplares por imagem) ao longo de vinte anos (de 1974 a1995)? Não é um exagero? Uma obsessão? Não... simples necessidade de sobreviver e sustentar família. Minhas litos de mulheres tinham caído no gosto do público e contendo meu traço já consagrado no desenho por uma elite nas galerias, vendiam feito pãozinho quente na padaria. Enquanto houve mercado eu fui fazendo e enriquecendo meu editor, e, como editado eu ia pegando as sobras fartas do banquete de sua mesa. Deu pra criar os filhos até a pré-adolescência, quando então a fonte do mercado secou e a santa pobreza voltou. Minhas gravuras e as de outros artistas não valorizaram no mercado brasileiro e cheguei intima e vergonhosamente a me arrepender de ter dedicado duas décadas à litografia, um verdadeiro tiro no pé, uma atividade e uma fase prolífera que mercadologicamente deu com os burros n'água...
Quase cuspi no prato que comi. Fiquei com uma grande antipatia pelas minhas litos e queimei literalmente na churrasqueira do meu sítio grande parte da minha coleção pessoal. Fiquei com menos de cinquenta peças, as menos comerciais, em preto e branco, que não me envergonhavam.
Entretanto, passadas duas décadas, com o advento das redes sociais, verifico que as pessoas que as adquiriram, se apegaram afetivamente e mantiveram minhas litos em suas paredes e só agora estão se desfazendo delas em leilões da internet, acredito que por necessidade, já que quem as apreciava era a classe-média (os ricos raramente compram gravuras, a não ser as já supervalorizadas).
Minhas litos, que estavam "fora de moda", começam a ser readquiridas, arrematadas a preços módicos nos leilões e a serem elogiadíssimas nas minhas postagens delas aqui na minha página do facebook. Quase chego a me reconciliar com elas, apesar das nítidas concessões, que vejo nelas, a um gosto mais fácil, mais popular, ao contrário, por exemplo, da minha "fase baconiana" na pintura a óleo sobre tela.
Bem... o tempo dirá se minhas litos terão uma posteridade honrosa ou se desaparecerão na voragem do Tempo. Mas, afinal, também pessoalmente não somos todos assim? Sobreviveremos por quanto tempo na memória dos outros, mesmo na dos amigos (a mais duradora)? "Vanitas vanitatis, omnia vanitas", diz o Eclesiastes, e passamos como passa o vento, e nem os furacões perduram muito tempo na memória coletiva.
Bem... a Arte perdura muito mais, talvez até o fim dos tempos do homem na terra. Essa é, pelo menos, a nossa aposta...
24/03/2021

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