Sunday, March 21, 2021

CONSIDERAÇÕES OCIOSAS DE UM DOMINGO DE QUARENTENA (crônica de Guilherme de Faria)

Mais um domingo... (o último me parece que foi ontem). A passagem das horas, vertiginosas apesar de silenciosas como um filme mudo de Carlitos, também me parecem igualmente em preto e branco. Tento colori-las atirando tintas em minhas telas para depois descobrir nas manchas algum sentido, figuras paisagens ou flores, puro vício, como se isso fosse obrigatório, já que reconheço que pintura é algo essencialmente abstrato, puro ato de pintar, com ou sem alguma fantasia na cabeça...
Por quê razão de modo geral sou considerado um bom pintor por um público mais ou menos leigo? Desconfio que seja pelo fácil reconhecimento imediato do meu encanzinado figurativismo... Sim, porque não sou reconhecido pelos especialistas, críticos ou curadores contemporâneos, e por isso permaneço fora do "Mercado", vivendo apenas de dois ou três colecionadores fiéis. É verdade que isso aconteceu com muitos pintores que se consagraram postumamente, meta que todos os pintores sinceros acalentam mesmo quando ateus, já que a posteridade perseguida é mesmo deste mundo que nós pintores cultuamos apaixonadamente, essa é que é a verdade...
Não há pintores nihilistas ou desencantados... Para pintar bem é preciso amar o mundo, a natureza e se possível Deus, seus anjos e seus santos, que por sinal inspiraram algumas das melhores pinturas do mundo.
A propósito, não sou religioso, mas sim temeroso e desconfiado. Por exemplo: desconfio que haja mesmo Deus, e o Paraíso, já que tantos homens inteligentíssimos e geniais acreditavam e tinha verdadeira fé. Quem sou eu para desacreditar de Michelangelo e Leonardo Da Vinci, por exemplo? E até do maravilhoso Caravaggio, fervoroso apesar de delinquente e violento?
"Pobre pintor, a quem falta a Fé verdadeira, e que blasfema sem perceber com sua atitude às vezes irônica e complacente"... (imagino alguém pensando isso de mim).
Mas devo dizer que quero crer. Ah! Como desejo acreditar, ter fé, embora o mundo me pareça um tão belo Vale de Lágrimas, onde a felicidade é até permitida a quem dela fizer muita questão...
Enquanto isso ("enquanto Seu Mestre não vem, manda o tiro tiro lá"), pinto e escrevo sob a inspiração de minha própria "anima", coisa que por si só já deveria me convencer da existência de Deus e de seus anjos, embora também, infelizmente, de seus incontáveis demônios... *
21/03/2021
Nota
* ...seus incontáveis demônios- Com isso quero dizer que se acredito na existência da "anima" como um arquétipo feminino existente no inconsciente profundo (ou alma) das pessoas, segundo Carl Jung, então creio igualmente nos outros arquétipos que o grande psicanalista descobriu: o "animus" (arquétipo da masculinidade)", o "velho sábio", "a criança" e "a Sombra". Esta última é que é o problema da humanidade, responsável pelo que denominei "seus incontáveis demônios"...

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