Me meti numa encrenca... Como se fosse um jornalista contratado por um periódico, praticamente me comprometi a escrever uma crônica diária para entreter os leitores. Na verdade, eterno desempregado, desvinculado, o fiz a mim mesmo e talvez aos meus amigos aqui do face, que imagino esperem uma nova crônica diária, nestes tempos de ociosidade forçada, de tédio e desfastios...
Mas como escrever uma crônica diária quando nada acontece de relevante, ou de minimamente interessante, sem transformar a coisa num caderno de memórias, saudosas ou não, mas sempre recorrendo a um rico passado que em todos nós o é simplesmente pela generosa pátina do Tempo? Eu me lembrei agora de uma oportuna fala daquele caipira no maravilhoso filme brasileiro "A Marvada Carne" (do diretor André Klotzel): "Naquele tempo acontecia muita coisa..."Agora, que aparentemente nada acontece, nestes monótonos dias caseiros, a não ser uma ou outra discussão com minha mulher por ninharias, irritadiços mas depressa reconciliados por amor, talvez também porque só podemos contar um com o outro, envelhecendo juntos às vezes com momentos de rabugice, logo superados quando no meio de uma discussão eu cito minha sábia mãe que interrompia nossas pequenas turras infantis na mesa, dizendo: "Vamos parar! Isso não dá assunto!..."
Bem.. eu vejo que ainda estou falando sobre nada, e então me lembro do pobre Mercuttio do Romeu e Julieta, que na noite do baile de Julieta, no bando, na rua junto com seu sonhador amigo, a caminho daquela aventura, começa a divagar delirantemente sobre uma "féerie" acerca de Queen Mab, a pequena parteira das fadas, na sua carruagem de casca de noz atravessando com sortilégios o sono dos dorminhocos importantes da cidade, Romeu depois de um vertiginoso e aflitivo minuto o interrompe, dizendo: "Quieto, quieto, Mercuttio! Você está falando de nada!"
Romeu era romântico mas não delirante, o que faria o seu amor mais palpável e eterno, que o reconhecemos no fundo de nós mesmos ainda hoje, passados tantos séculos...
Mas o que me resta se não ir recolhendo as pastas que saltam do arquivo da memória literária, que pelo menos em mim sempre representou mais da metade das minhas vivências, já que nunca diferenciei literatura da realidade? Bem... por outro lado sempre percebi que as melhores crônicas sempre se beneficiaram da falta de assunto, quando a mente ociosa divaga, liberando nossas memórias, e às vezes nossa verdadeira face embora filtrada pela nossa autoestima, quando não pela nossa vaidade...
A propósito, sei que sou um escritor que abusa das reticências, mas não consigo me livrar delas, pois tudo em mim são divagações episódicas e "flash backs", e construo meu rosto como aquele resultante do mapa de retalhos do mundo, do mini conto de Jorge Luiz Borges.
Sim, por que no fundo só sei falar de mim mesmo o tempo todo, embora justificado pela Arte, que, afinal, me universaliza e permite que alguns leitores pelo menos se identifiquem um pouco ou se reconheçam. Assim o espero...
23/03/2021
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