Wednesday, March 31, 2021

SOBRE AS MINHAS LITOS E O MERCADO (crônica de Guilherme de Faria)

Como os amigos puderam perceber pelas constantes postagens de minha litografias, nos últimos anos eu me reconciliei com parte delas, embora esconda as que me envergonham por excesso de concessão comercial. Quando acabou o grande "mercado" de gravuras após o plano Collor, eu fiquei desgostoso o suficiente para queimar milhares de exemplares delas na churrasqueira de um sítio que eu tinha, e que logo tive que trocar por um kitinete para abrigar um filho meu ator de teatro. Como eu era excessivamente prolífico, por ser um desenhista gestual zen e sem modelo, fiz mais de dez imagens e edições por mês, ininterruptamente por 20 anos, e faria muito mais se não as tivesse que assinar a lápis, datá-las, intitulá-las e numerá-las a lápis uma por uma, o que me tomava mais tempo que desenhá-las na pedra da Bavária, já que minhas imagens são quase instantâneas e as mais elaboradas exigiam apenas alguns minutos (acreditem se quiserem). Meu editor, o Elsio Motta, gostava de me exibir nessa performance na frente de visitantes da gráfica, a que eu acedia com prazer porque me divertia e resultava nas minhas mais rápidas e melhores imagens, e que mereciam as palmas dos presentes, como se tivesse sido um balé. Não, não posso me queixar, a gente se divertia e eu gostava do senso empresarial do Elsio Motta que apesar de seu interesse comercial, parecia gostar sinceramente de mim e admirar-me como artista, e que me tratava não somente como um rei mas carinhosamente e me trazia cafezinhos pessoalmente enquanto eu desenhava nas pedras, e me convidava para jantar e beber seu uísque doze anos em seu belo apartamento com alguns dos meus óleos em suas paredes. Eu ficava na gráfica por um máximo de três horas por dia em média e deixando prontas umas quatro ou cinco imagens. E a camaradagem com os outros artistas e os impressores eram também rica e compensadora. Eu teria sido muito mais solitário se não tivesse essa espécie de emprego por vinte anos...

Não, não há nada a lamentar nem sequer a me arrepender, não por isso. Constato que a minhas litos, relançadas na Internet em leilões e sites de vendas com constância cada vez maior, estão sendo arrematadas por uma nova geração, embora ainda com preços módicos. Elas continuam agradando a muita gente. Sei que isso é duvidoso, pois o verdadeiro mercado de arte é o de altos preços, quando os investidores adquirem a obra não porque gostem mas porque é um investimento, está valorizada financeiramente e promete valorizar muito mais. Enfim, para ser um pouco cínico: a glória de um artista é quando passa a ser adquirido avidamente por pessoas que detestam a sua obra. Não é ainda meu caso, continuo sendo adquirido por pessoas que adoram as minhas obras. Ai de mim! rrrrrrrsss
27/03/2021

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