Sunday, February 20, 2022

NOSSA DUPLA VIDA (crônica de Guilherme de Faria)

Ocorreu-me a ideia de que a criação de uma realidade de um mundo virtual paralelo, antes do advento da Internet e das redes sociais, era quase exclusiva atribuição dos artistas, se não também dos sonhadores, esquizofrênicos e estelionatários quando talentosos, mas principalmente dos escritores ficcionistas, pintores, cineastas e poetas, a quem cabia esse papel de mediadores ou reveladores de uma realidade expandida e mais rica, em que todas as possibilidades eram concomitantes e accessíveis a qualquer leitor apaixonado pela leitura ou expectador fisgado pelo telão.
Esse tempo, parece, foi superado: já vivemos todos numa triunfante virtualidade, ou na fronteira tênue e borrada de dois mundos paralelos em que os reflexos da realidade social e até da Natureza selvagem, chegam com igual teor e intensidade dos dois lados da fronteira, ou desse novo Espelho de Alice. *
Quanto a mim, que como artista plástico fecundo já convivia com essa dupla realidade desde sempre, primeiramente com o modelo nu, a ruiva muito branca, anônima e misteriosa dos meus desenhos e gravuras a partir de 1964, e depois ao descobrir também dentro de mim, como minha simultânea anima, musa e obra literária a partir de 2002, a poetisa gaúcho-germânica pampiana ALMA WELT... venho vivendo intensamente essa vida virtual verdadeira e legítima, mesmo antes de introduzi-la e fazê-la desabrochar na Internet a partir de 2006, e aqui no facebook a partir de 2010.
Entretanto, como já sugeri, é verdade que quase toda a humanidade atual vive essa dupla existência em dois mundo paralelos em que a realidade virtual cada dia mais prepondera e acabará por rebaixar a antiga ao nível quase da extinção ou, pasmem, do descrédito. Estou ciente, é claro, de que essa ideia já foi desenvolvida no confuso e prolixo filme americano "Matrix", quando na verdade poderia ser feita de modo bem mais poético, sem aqueles efeitos especiais violentos, redundantes e inúteis. Esta ideia ou interpretação da atual realidade do mundo, como já mais virtual do que portanto real, não sendo nova, mas gradativamente mais comprovada na última década, não deve, a rigor, alarmar ninguém. Eu mesmo a acalento, como vêm, de maneira bastante fecunda e até redentora com a Alma Welt, meu belo heterônimo feminino, que a esta altura avalio como já bem mais "real" que este velho artista que, lentamente, diante do cavalete e do teclado do computador, derrete, se esvai ou esvanece o seu "Ser" puramente real, nessa velhice que nos espera, infelizmente, a quase todos...
Guilherme de Faria e Alma Welt
19/02/2022
Nota
*...Espelho de Alice - alusão ao livro de Lewis Carrol, "Alice no País do Espelho", continuação de "Alice no País das Maravilhas", que já no século XIX explorava de maneira fantástica e nonsense essa ideia de virtualidade ou de mundos paralelos.

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