![]() |
Apocalipse- óleo s/t de Guilherme de Faria, 1964, 175x200cm
Capítulo 1Amigos, a pedidos vou lhes contar a saga do meu quadro Apocalipse desde a sua feitura em 1964, quando eu tinha 22 anos e saído da casa materna aos 20 vivia sozinho no meu primeiro ateliê, um porão infecto num cortiço que havia na rua Mato Grosso, atrás do Cemitério da Consolação. Eu vivia em absoluta pobreza , mas saído de um casamento precoce, adolescente (embora por amor), eu me sentia livre no meu pequeno atelier mofado, numa espécie de "Bateau Lavoir" * naquela primeira fase heroica e boêmia tipica dos pintores de vocação. Ali era visitado por meus amigos pintores e poetas* jovens, pobres como eu mesmo. Ali pintei numa só tarde o imenso quadro que ocupava a minúscula cozinha triangular em que o quadro se encaixava na base do triângulo, inclusive na altura de 175cm (eu tenho 172 (!!!) e cuja única fonte de luz era um inaudito vitral, resquício das origens art nouveaux daquele cortiço degradado, a julgar também pelo belo portão de ferro da sua entrada. Existirá ainda esse cortiço e meu porão? Nunca mais voltei lá depois de 1965.
Tendo nascido assim, de jato, sem premeditação numa espécie de automatismo desesperado e faminto, o quadro que tinha uma força espetacular e escatológica à base de um garrafão de vinho tinto vagabundo, sangue de boi, anunciava bem os tempos difíceis que se seguiriam a Março de 1964. Os amigos artistas vinham vê-lo e assoviavam, admirados.
O quadro permaneceu comigo apenas um ano, pois em 1965, eu frequentando a casa do meu primeiro marchand, o grande Giuseppe Baccaro, italiano atuando em São Paulo, que me descobriu naquele ano, me lançando em seus espetaculares leilões, uma noite numa conversa regada a vinho com o poeta, pintor e desenhista catarinense de Florianópolis Rodrigo de Haro, quase dez anos mais velho do que eu, culto, sofisticado, cinéfilo, eu citei um filme "cult" americano que me deslumbrara: Desire under de Elms, baseado numa peça teatral do grande dramaturgo Eugene O' Neil (pai da Oona O'Neil, esposa do Charles Chaplin). O filme era em preto e branco, com Antony Perkins, uma Sofia Loren jovem e deslumbrante e um velho gordo que eu, já bastante bebido, teimei que era o Orson Welles.
- "Não Guilherme, não era o Orson Welles, era o Burl Ives" - me corrigiu o Rodrigo de Haro, e desfiou a ficha técnica do filme de cór, como bom cinéfilo..
Eu continuei teimando que era o Orson Welles até que, impaciente, o Rodrigo disse: "Então vamos apostar, Guilherme". Eu aceitei e disse: "Pois vamos. O que você quer apostar?" Ele respondeu de imediato: "O seu Apocalipse". Eu nem titubeei e retruquei: "Está bem, e de sua parte?" Rodrigo respondeu: "Eu lhe dou um torso grego antigo de mármore, autêntico, que eu tenho na minha coleção". "Fechado!" eu respondi. Sacramentamos nossa aposta com um aperto de mão e continuamos a noitada de bebedeira e conversas sem fim sobre Arte e cinema da Era de Ouro de Hollywood, sobre a qual Rodrigo era um especialista.
Notas
*amigos pintores e poetas - refiro-me a amigos artistas que apareciam no meu ateliê, como Naun Alves de Souza (mais tarde grande dramaturgo e diretor de teatro) Claudio Kupermann (pintor), Maninha (pintora), Ralph Camargo (depois marchand), Roberto Piva (poeta), Bri Fiocca (atriz), Regastein Rocha, (mais tarde editor de livros de arte dono da Gráfica Raízes, onde meu quadro Apocalipse se perdeu) e muitos outros...
*Bateau Lavoir - era um cortiço onde Picasso e outros artistas fizeram seu primeiro ateliê em Paris, no início paupérrimo de suas carreiras, no começo de século XX.
Vocês podem imaginar o resultado dessa aposta, não? No dia seguinte, o Rodrigo me apresentou uma antologia de cinema da Era de Ouro de Hollywood, em que constava aquele filme com sua ficha técnica e comentários. Era mesmo Burl Yves e não Orson Welles. Mesmo sendo fruto de uma teimosia de bêbado, dívida de jogo é sagrada, e eu fui buscar meu Apocalipse, fretei um pequeno caminhão mambembe e deixei-o na casa do Bacccaro onde o Rodrigo estava hospedado enquanto o Baccaro se encontrava na Europa. Foi assim que perdi pela primeira vez o meu grande quadro. Mas a saga dessa obra haveria de continuar, como vocês verão...
Pois bem, o quadro, enorme, ficou de pé no chão no meio da sala do Baccaro e quando este dali a poucos dias voltou da Europa, espantado, perguntou ao Rodrigo: De quem é isso? Quem pintou? O Rodrigo respondeu: "O Guilherme. Ele pintou. É o Apocalipse... Louco, não? Eu o ganhei dele numa aposta mas não tenho onde o colocar, nem como o levar para Floripa..."
Baccaro, que já era meu marchand e trabalhava com desenhos e gravuras minhas em metal mas não conhecia minha pintura, era muito generoso e imediatamente propôs: "Quer trocar por um quadro à sua escolha?
Rodrigo escolheu uma grande tela, belíssima, da Escola de Cuzco, autêntica do século XVII que representava um enorme Arcanjo São Gabriel, barroco, de grandes asas, cheio de laços e fitas com uma espada na mão para expulsar os anjos caídos, circundado de flores. Os "cuzquenhos" estavam em alta no mercado, naqueles dias.
Baccaro topou e o Rodrigo voltou para Florianópolis com o seu belo cuzquenho enrolado e logo o vendeu para um grande colecionador que ele já tinha em vista, por uma pequena fortuna. Com o dinheiro correu a comprar uma casa velha que estava à venda, arruinada, na beira da Lagoa da Conceição, lugar privilegiado em Floripa onde, reformando e deixando a casa maravilhosa fez dela sua residência e atelier definitivo para o resto da vida. Rodrigo se tornou o pintor e poeta mais famoso e aclamado de Florianópolis, substituindo seu pai, Martinho de Haro que o era antes. O poeta pintor, meu amigo de juventude, na sua bela casa, local de peregrinação cultural, agora idoso mas sempre produtivo realizou naquela cidade inclusive grande murais públicos em mosaico, técnica que desenvolveu brilhantemente. E eu fiquei feliz em saber, anos depois, do resultado auspicioso da minha perda...
Entretanto ninguém poderia prever que o Apocalipse voltaria um dia às minhas mãos e eu o perderia de novo...
O quadro, verdadeiro elefante branco, pertencia agora ao Baccaro que o pendurou no mezanino de sua bela e famosa Casa dos Leilões, na rua Marquês de Paranaguá, uma travessa da Augusta. Ali ficou alguns anos sendo vista, mas não sei se foi a leilão, nunca ninguém o comprou.
Então o Baccaro, tendo tido percalços com a polícia da ditadura, desgostoso do ambiente paulistano e da hipocrisia dos ricos compradores que se afastaram dele, profundo cristão que era, até por sua origem rural italiana de pastores de montanha do Abruzzo, mudou-se para Olinda, PE, onde construiu a sua grande obra filantrópica, a Casa das Crianças de Olinda, que durou três décadas e que dava alimentação e ensino de artes e ofícios artesanais, inclusive cordel e xilogravura, às crianças dos mocambos miseráveis dos arredores daquela cidade colonial, tombada pelo Patrimônio Histórico.
Ao mudar-se definitivamente para Olinda, o Baccaro pediu ao Hector Babenco, o cineasta que era nosso amigo e que estava casado com a Raquel Arnaud, marchand, que guardasse para ele um quadro grande e pesado que estava embrulhado em cobertores, na sua garagem da casa da Raquel no Jardim Europa, que havia sido a casa onde ela vivera com seu primeiro marido Oscar Klabin Segall, filho do grande Lazar Segall. O quadro ficou naquela garagem por meses até que um dia, por curiosidade, Raquel e Hector resolveram desembrulhar para ver o que era aquilo e deram com o meu Apocalipse. Encantados telefonaram para o Baccaro e propuseram comprá-lo. Baccaro sempre generoso e desprendido, imediatamente fez presente da obra ao casal amigo. O quadro agora pertencia ao casal Babenco, que com o sucesso de seus filmes construiu uma casa bem moderna de concreto aparente no Morumbi. onde o meu quadro ficava numa parede de concreto que emergia isolada de dentro de um gramado de um jardinzinho interno que era visível de todos os ângulos e até do alto dos mezaninos que circundavam o salão espetacular da casa, e que apareceu numa famosa revista de decoração (eu tenho esse número e preciso procurá-lo nas minhas montanhas de tralhas).
A casa era frequentada inclusive em grandes festas pela sociedade exclusiva do cinema nacional e portanto minha tela era muito vista, não sei se apreciada. Entretanto, haveria de ocorrer um percalço na vida do casal Babenco relacionado a consequências imprevistas do seu filme "Lúcio Flavio, o Passageiro da Agonia", apesar ou até por seu sucesso de público...
Em 1974 com a minha volta a morar em São Paulo, depois de quatro anos em Olinda a convite do Baccaro, na minha Exposição em Julho daquele ano na Galeria Arte Global (da rede Globo de Televisão) de óleos da minha fase 'baconiana" (influência de Francis Bacon), a Raquel Babenco, que organizou e fez a curadoria da minha exposição, aproveitou e incluiu nela a minha tela Apocalipse de sua co-propriedade com o marido, embora já destoasse em estilo do resto da exposição (eu tinha mudado de fase).
Anos depois tendo sido lançado o filme "Lúcio Flávio... " do Hector Babenco em 1977, baseado na história real do bandido carioca (papel do Reginaldo Farias), tinha um personagem delegado chamado Dr. Moretti (encarnado pelo Pereio), calcado num policial corrupto e assassino que comandava um Esquadrão da Morte e que chantageava os assaltantes arrancando dinheiro deles e eventualmente os assassinando, como acabou acontecendo com o Lúcio Flávio, cuja única frase real imortalizada foi "Policial é policial, bandido é bandido" (dizem que morreu por isso) . Acontece que o verdadeiro Moretti na vida real era o temido policial Mariel Mariscot, que por sua vez acabou mais tarde assassinado. Pois bem, Mariscot não gostando da maneira que se viu retratado no filme embora com outro nome para disfarçar, após a estréia do filme Babenco começou a fazer ao cineasta ameaças de morte por telefone por causa do tal personagem, que era o verdadeiro vilão da história. Apavorados com razão, Babenco e Raquel resolveram se mudar, pois sua grande casa era isolada no Morumbi daquela época, e vulnerável. Mudaram-se para um apartamento no final da Avenida Nove de Julho, no Jardim Europa. Resultado, o meu Apocalipse não cabia no elevador e não dobrava as escadas. Babenco então pediu para o nosso amigo em comum Regastein Rocha, mineiro de Passaquatro, que era proprietário da Raízes Artes Gráficas e editor de inúmeros livros maravilhosos de Arte Brasileira (em que o programador visual era o Emanoel Araújo, depois fundador do Museu Afro-Brasil), que guardasse o quadro na casa da rua Quatá 373, na Vila Olímpia que era onde funcionava a Gráfica, e que seria também toda decorada, em volta até das máquinas off-set, com desenhos meus enormes emoldurados, da série "Retratos Imaginários", que eu não tinha espaço para guardar depois que foram expostos na Galeria Cosme Velho em 1980.
O quadrão ficou ali muito bem exposto no refeitório dos funcionários que parecia uma sala de convento colonial com grande e bela mesa rústica antiga, com compridos bancos de fazenda dos dois lados da mesa, num ambiente perfeito para o quadro. Eu estava satisfeito. Não me importava que o quadro já não me pertencia há muito tempo. Mas então houve outra reviravolta...
O quadro ficou alguns anos ali na Gráfica Raízes até que em 1978 eu fui convidado pela Maria Bonomi, que era da comissão, a participar da I Bienal Latino Americana de São Paulo, que versava sobre Mito e Magia, e me deram Sala Especial, e eu a enchi com mais de cinquenta obras. Foi sucesso.
Após essa Exposição, o Apocalipse voltou para a Gráfica e ali ficou por muitos anos, até que o Regastein, suficientemente rico e cansado vendeu a Gráfica de porteira fechada e foi embora com a família para a sua terra natal, Passaquatro MG. Eu imerso na minha longa fase de litografias sobre pedras da Bavária, na Glatt -Ymagos, já não mantinha contato com ele e só fiquei sabendo tempos depois. Meu quadro e desenhos caíram nas mãos do comprador do imóvel, que era o Sindicato dos Comerciários de São Paulo. Há cinco anos atrás eu telefonei para o Babenco, perguntei pela saúde dele e conversamos muito lembrando os velhos tempos, do Baccaro e tudo mais... e ele me perguntou: "E o Apocalipse, você sabe dele?" Ele mesmo não sabia. Contei a ele que eu descobrira que estava com o Sindicato dos Comerciários. Ele então me disse: "Guilherme, eu estou doente, como você sabe, não tenho forças nem tempo para me ocupar disso. Eu te devolvo o quadro. Sempre foi seu. Vai atrás dele, recupere-o para o seu acervo, ele é importante."
Pouco anos depois de muita luta contra uma leucemia, o grande cineasta viria a morrer.
Fui à casa da rua Quatá 373, na Vila Olímpia, depois de tantos anos, e descobri que tinha se transformado num mero depósito, o almoxarifado do Sindicato dos Comerciários. Consegui entrar, guiado entre centenas de prateleiras com milhares de caixas de papelão contendo a papelada do sindicato, verdadeiro labirinto kafkiano, por um simpático senhor de meia idade, técnico em informática que fora contratado por aquele órgão para afinal informatizá-lo e que levou-me primeiro a um nicho, um canto onde meus desenhos estavam no chão, empilhados contra a parede. Depois me levou a um minúscula cozinha onde numa mesinha com toalha os funcionários tomavam café. O teto era baixo e meu Apocalipse ali estava encaixado, sua parte superior encostada no teto, todo embaçado, o verniz escurecido pela fumaça e poeira de décadas.
O senhor, muito gentil, acreditou no meu direito à minha obra e em toda história que lhe contei, mas era um mero profissional terceirizado, e disse-me que para eu retirar o quadro eu deveria pedir permissão para o presidente do Sindicato, o senhor Ricardo Patah.
Não tendo espaço no meu minúsculo ateliê abarrotado de outras obras minhas, livros e materiais de trabalho, "a parte que me coube neste latifúndio", e não tendo nenhum documento que comprove a minha propriedade e a minha conversa por telefone com o Babenco, estou até hoje pensando se devo ou não deixar o Apocalipse seguir seu curso, ou sua inércia, sem a minha inepta interferência. O curioso é que o meu Apocalipse começou numa cozinha humilde e acabou noutra, igualmente humilde.
As obras de arte têm vida e destino histórico próprio, frequentemente irônico e patético como o nosso destino humano...
FIM
________________________________________________


No comments:
Post a Comment