Tuesday, March 5, 2019

Das Cronicas da Minha Oscar Freire

Uma vez que já posso me considerar um idoso ao mesmo tempo que me sinto criativo e na melhor fase da minha pintura que flui com facilidade e beleza, às vezes me pergunto como se manifestará a minha decadência. Será obrigatória? Tornar-me-ei um ancião patético e triste? Há uma certa beleza subjetiva na decadência, que implica no fato de que já estivemos no alto, e guardamos uma bela bagagem de memórias e algumas conquistas apreciáveis por outros, pelo menos pelos nossos contemporâneos. Quero dizer, não estamos sozinhos... Sei que a tendência é cairmos nalguma espécie de rotina diária, já que na velhice parece não nos acontecer muita coisa, e que os acontecimentos relevantes e transformadores ficaram todos no passado, na nossa desassossegada juventude. Entretanto sempre percebi que um homem sensível, se for um verdadeiro escritor pode produzir um crônica fecunda sobre a queda de um palito de fósforo ou o cumprimento casual de um vizinho no elevador. E se for um pintor figurativo, pode continuar pintando belos nus de belas mulheres, imaginárias ou não. Ou flores, como eu recentemente, que nunca as tive em casa e nem mesmo tenho um vaso, nem para os pincéis, que os coloco em prosaicas latas de alumínio. Resta-me talvez comprar pela primeira vez na vida uma solitária rosa e oferecê-la à minha mulher. Sua surpresa certamente deflagraria um crônica e todo um universo de possibilidades novas, desconhecidas por mim.

Há dois dias, esperando na calçada em frente ao meu prédio sob a garoa, um amigo que viria de carro me buscar para uma visita, aproximou-se de mim um segurança de loja da minha rua, homem de meia idade carrancudo de terno preto (provavelmente com uma arma sob o paletó) por quem passo todos os dias sem cumprimentar para evitar a repetição, embora ele me seja familiar por estar ali há mais de trinta anos. Este homem, meio gaguejante, denunciando timidez ou insegurança social, me disse: "O senhor é pintor, não é? Olha, aqui nesta loja que hoje está fechada está havendo uma exposição de quadros. Achei que o senhor gostaria de saber, e mostrar também seu quadros."

Surpreso, agradeci e aproveitei para dizer: "Olha, senhor... não se importe com o fato de eu nunca cumprimentá-lo já que passo na sua frente quase diariamente há quarenta anos. Aproveito agora para lhe presentear com uma lembrança de minha apreciação pelo seu trabalho: este CD dos meus cordéis. O senhor tem um CD player em casa?"

O bom homem, sempre de cara fechada por dever de ofício, fez que sim com a cabeça, surpreso, mas sem qualquer expressão no rosto. E nesse momento chegou o meu amigo e eu entrei no carro sem olhar para trás.

Será isto uma crônica? Terá algum significado? Serei obrigado a daqui por diante cumprimentar aquele homem diariamente, na ida e na volta? Assim é a vida... Talvez algum dia um de nós notará a ausência do outro, no vai e vem desta rua monótona, e um de nós comentará com um terceiro, na esperança de uma notícia, um esclarecimento, ou mesmo uma fofoca: "Você soube? Aquele senhor, o pintor? Morreu... Há anos não vendia um quadro..." Ou : " Sabe aquele senhor... o velho segurança? Morreu agradecendo a Deus nunca ter dado um tiro, na vida...

FIM

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