
A comungante do Rodrigo de Haro antes do restauro

A comungante (Jomara) - acrílica s/ duratex de Rodrigo de Haro
Resolvi revelar o fato dramático, doloroso mesmo, que está por trás da minha restauração deste quadro do Rodrigo de Haro que retrata a Jomara, minha primeira musa (de 1964 a 1968) como menina comungante de Primeira Comunhão, e pertencente ao meu amigo Flavio, que viveu décadas com ela e foi seu viúvo. Jomara, antes de seus cinquenta anos por mais que fosse obcecada com saúde, vegetarianismo e florais de Bach, desenvolveu câncer no seio, e recusando a medicina alopática, operações e quimioterapia, resolveu tratar-se com seus florais. Com o desenvolvimento descontrolado da doença, desenvolveu uma paranoia persecutória, atribuindo sua doença a feitiçarias e trabalhos de inimigos imaginários, e estava assombrada pelos seus retratos feitos no seu auge por amigos pintores, obras nas quais ela avistava sinais premonitórios, aziagos ou prenunciadores de sua doença, fixados em certos elementos dessas pinturas e vistos por ela como verdadeiros malefícios deliberados por parte dos pintores. Foi assim por isso que chegou a me pedir que reformasse um retrato que pintei dela nos anos 60 para que mudasse a cor de uma faixa negra de pintura no vestido que cobria seus seios, e também que eu acrescentasse um brilho nos grandes olhos que pintei como manchas totalmente negras de maneira modiglianesca. Já muito doente pediu-me isso por telefone e enviou-me o quadro por um portador. Eu atendi ao seu pedido e fiz as mudanças que ela me pediu, e pronta a reforma da pintura telefonei para combinar levar o quadro para ela. Jomara então me pediu que conservasse o quadro comigo, porque ela não queria que eu a visse como no estado em que se achava. Queria que eu me lembrasse dela sempre no auge de sua beleza, como a conhecera e amara. Isso aconteceu há mais de dez anos atrás.
Há três anos atrás, visitando o Flavio, ele me mostrou o retrato da Jomara como menina comungante pintado pelo nosso amigo poeta e pintor catarinense Rodrigo de Haro. O quadro pintado a acrílica sobre duratex, estava em estado lamentável, praticamente destruído, com quatro rachaduras longitudinais de lado a lado como se partido deliberadamente, com graves esfolados e fendas abertas. Vendo meu espanto diante do estado da bela obra do Rodrigo, Flavio me perguntou se eu poderia restaurá-lo. Aceitei imediatamente fazê-lo e o trouxe para o meu ateliê.
Entretanto não me entreguei imediatamente ao trabalho, e senti uma espécie de bloqueio para tal tarefa. Escondi o quadro no chão contra a parede, atrás de telas virgens e evitei a missão a que me comprometera, por longos três anos enquanto me dedicava à pintura de novas fases de minha pintura, que me foram surgindo e das quais fiz exposições. Entretanto a promessa me assombrava e estava sempre presente, e me incomodava como uma falta ou mesmo como uma culpa.
Finalmente, no final de maio deste ano, há pouco mais de uma semana atrás, O Flavio me telefonou, e depois de declarar seu afeto, apreço por nossa amizade e até suas saudades, me cobrou gentilmente a obra restaurada. Envergonhado revelei o meu bloqueio, e prometi que começaria o restauro assim que desligasse o telefone. Assim o fiz.
Agora quero revelar ao mundo, como um desabafo, o diagnóstico que fiz assim do estado da pintura em questão assim que comecei a examiná-la bem de perto para começar o restauro. Pasmem: como um verdadeiro legista percebi imediatamente que o quadro tinha sido atacado com espantosa violência destruidora, deliberada e mesmo cheia de visível ódio. Havia inclusive marcas de solas de sapatos: depois de partida em quatro pontos a resistente folha de duratex fora pisoteada!
Cheguei à imediata conclusão (o Flavio nada me informou), de minha percepção mesmo, de que a própria Jomara, diante dos vários e evidentes signos da Morte presentes no seu retrato, provavelmente produzidos de maneira intuitiva pela sensibilidade extrema do pintor poeta que a retratara, atacara violentamente a pintura que a transfigurava de maneira premonitória: a pele escura amartelada, que não era a sua, uma longa vela de comungante com um laço azul de fita, mas apagada, soltando um fio de fumo; o longo vestido branco com laço azul claro na cintura e tendo aos pés um cranio humano acinzentado e um gato que parece uma coruja com longas garras sobre um pássaro azul morto e ensanguentado.
Pobre e bela Jomara, que tendo sido musa de vários pintores, sofrera tanto na sua doença, e na destruição de sua decantada beleza, que, como uma Dorian Grey de saias, e às avessas, atacara a pintura que a retratava como a menina morta na única verdadeira comunhão, cruel e definitiva de nossas vidas...
(Guilherme de Faria)
(Guilherme de Faria)
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