Quando eu era menino, ouvi minha mãe, a respeito de um incidente de que não me lembro, repetindo um ditado popular cujo sentido ainda era ligeiramente obscuro para mim: "NINGUÉM É PROFETA EM SUA PRÓPRIA TERRA." Curioso sobre tudo, como eu era, perguntei a ela o significado ou a origem daquele ditado. Minha mãe então me contou esta estorinha, que vou tentar recontar aqui com o máximo de aproximação das palavras dela, tal como me lembro:
" Quando Jesus estava no auge de sua missão em Jerusalém, um discípulo periférico, daqueles curiosos e observadores, que testemunhara deslumbrado alguns milagres do Mestre e sua fama crescente como "o Messias", resolveu solucionar o enigma das origens daquele que se revelava, no mínimo, um grande profeta. Sabendo que o Mestre era também chamado "O Nazareno", viajou até a cidade de Nazaré para ver se encontrava familiares ou vizinhos da família de Jesus que ele pudesse entrevistar para saber detalhes da infância de Jesus, de seus pais e de sua criação. Entretanto teve dificuldades de obter informações pois as pessoas não sabiam quem era esse tal "Jesus" ou não se lembravam de quase nada. Afinal encontrou umas pessoas que puderam dar a ele algumas respostas. Um homem de meia idade disse, olhando ao mesmo tempo para sua mulher:
"Ah! O Jesus, aquele molequinho? Sim, a gente se lembra, sim, não é Mariah? Um garotinho catarrento, até bonitinho, de pés descalços, perambulando à toa, muito quieto, com um olhar meio estatelado para tudo. A gente achava o garoto muito ingênuo, na melhor das hipóteses. Era filho do carpinteiro, o José que tinha a casa e oficina ali no fim desta rua. A família se mudou faz tempo. Agora tá tudo vazio e em ruínas ali. Mas ninguém dava nada por aquele menino... Por que pergunta? O garoto cresceu e se deu mal, certamente, não?... "
Ouvindo esta estória, eu, que era talvez tão ingênuo quanto aquele menino, me lembro de ter rido muito (Deus me perdoe) e nunca mais ter esquecido. Minha mãe era assim: apesar de católica devota, tinha muito senso de humor...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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