Monday, August 26, 2019
Primeiras identificações
Quando eu tinha treze anos li o maravilhoso romance biográfico A Vida de Michelangelo, de Romain Rolland (1866 — 1944) que começava assim: "Era um burguês florentino.." Em seguida, na mesma época, li O Romance de Leonardo da Vinci, de Dimitri Merejkowski (1865-1941). Minha identificação com estes dois "personagens artistas" foi tão intensa e misteriosa que eu senti que esses livros falavam de mim mesmo de maneira profunda e absoluta. Tais leituras fizeram completar-se meu processo de inadaptação ao contexto social provinciano e inculto do bairro paulistano em que eu vivia. Dali por diante eu não conseguia mais me conformar com a pobreza cultural, e o que bem mais tarde eu consideraria a "breguice" brasileira, daqueles anos 50. Dotado naturalmente para o desenho, eu me identificara de tal maneira com Miguel Angelo e Leonardo da Vinci, descritos naquelas páginas que recriavam vividamente aquela maravilhosa época de uma Florença no auge do seu esplendor cultural, de modo que eu precisaria de muitos anos para me sentir novamente brasileiro e de certa forma reintegrado no meu país. Isso somente se daria durante minha viagem ao sertão de Pernambuco e Paraíba em 1972, aventura que daria nascimento trinta anos mais tarde (2001) à minha inusitada fase de cordelista sertanejo, fase essa que se deu paralelamente à continuidade de minha carreira de pintor e desenhista...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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