Sunday, March 17, 2019

A mentalidade socialista

Nunca tive, por natureza, uma mentalidade socialista, nem sequer socializante. Hoje até me orgulho disso, vendo as desgraças que os socialistas/comunistas fizeram ao mundo. Quando jovem, saído de uma família de classe média culta mas empobrecida, eu lutei muitos anos pela mera sobrevivência, insistindo na arte como profissão. "Gramei" muito. Nunca me passou pela cabeça a tal "função social da arte". Tudo o que eu queria é que os ricos colecionadores percebessem a beleza e qualidade das minhas obras, e me dessem por elas um dinheirinho para comer, pagar aluguel e comprar tintas, papel e telas. Só isso! Acreditem! Não estou me fazendo de naïf. Eu só esperava não ser incompreendido em vida como Van Gogh, Gauguin e Modigliani. O povo para mim não entrava em linha de conta, pois ele era eu mesmo tentando deixar de sê-lo, e ao mesmo tempo algo distante e anódino, de que eu ouvia falar de vez em quando sem me identificar. Sim, um paradoxo. Eu não podia me dar ao luxo de pensar no tal "povo", pois a fome me rondava pessoalmente. Individualista que sempre fui, nunca me ocorreria me unir ao povo para tentar sobreviver "coletivamente" e muito menos me vingar dos ricos, pois não me sentia sua vítima, mas via neles uma espécie rara que eu precisa de algum modo seduzir com minhas obras, pois eles sim é que historicamente consagravam os artistas. Eu compreendi desde o princípio que as obras de arte devem fazer um longo percurso de valorização financeira e prestígio para ter direito de entrar nos Museus e afinal voltar ao povo. Uma lógica, uma lei natural, uma "meritocracia" corroborada pela História, que essa, sim, eu conseguia compreender...
(das Memórias de Guilherme de Faria)

No comments:

Post a Comment