Vou lhes contar, amigos, uma curiosidade a meu próprio respeito como artista. Apenas 30% das minhas obras do passado eu assinaria novamente em baixo, hoje em dia. Pior, tenho uma secreta e incômoda vergonha delas. Algumas se me voltassem às mãos eu as queimaria. Eu as vendia muito rapidamente pela necessidade de sobreviver, embora na época acreditasse na qualidade delas, o que me absolve pelo menos de prostituição. A vergonha vem por conta do meu perfeccionismo e vaidade artística, reconheço. Devido ao sucesso precoce do meu desenho e gravura, não me empenhei, senão na velhice, em aperfeiçoar a minha técnica pictórica a óleo. Agora sim, nos últimos cinco anos, e sobretudo com as fases "paisagens imaginárias", "Alma Welt", e "floral", começo a me orgulhar também das minhas pinturas, mas reconhecendo que elas me são "enviadas" e que o mérito da grande arte nunca é verdadeiramente nosso. Tornamo-nos merecedores de recebê-las do plano divino (Deus mesmo) a duras penas, nunca sem sofrimento e trabalho duro. Mas sobretudo com o amadurecimento, que consiste no abandono das veleidades...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
No comments:
Post a Comment