Wednesday, November 13, 2019

UMA VIAGEM INFERNAL QUE NÃO FIZ

Quando eu era um pré-adolescente, um dia, meu pai que era médico (e um cientista pesquisador de doenças do sangue) me repetiu um dito que muito mais tarde eu vim a saber ser uma máxima dos anarquistas: “O mundo será bem melhor no dia que enforcarem o último comunista nas tripas do último padre”. Ele disse isso e gargalhou. A frase impactante e cruel apesar de ser dita como piada talvez fosse corroborada por ele, que na Infância e adolescência estudara em colégio de padre e adquirira um nítido anticlericalismo (talvez fruto de ressentimento) aliado a um ateísmo cientificista quase militante, ao contrário da minha mãe, católica praticante.
Muito anos mais tarde, em 1966, na chamada época da contracultura, eu já um jovem artista plástico atuante em São Paulo, não tendo herdado por temperamento o anticlericalismo do meu pai, fui procurado e recebi no meu ateliê um padre psicólogo brasileiro, recém chegado de longa temporada nos Estados Unidos, com a missão (auto-imposta ou não) de introduzir o LSD (ácido lisérgico) no meio artístico paulistano para uma pesquisa místico-científica que ele acompanhava com vista a uma tese de doutorado em psiquiatria por uma Universidade católica americana. Ele acompanhava as “viagens” que ele dizia serem altamente criativas e reveladoras quando experimentadas por artistas plásticos, pintores.
Entretanto, justiça seja feita, o que exime o tal padre de charlatanismo, ele que por seus argumentos aliciantes me deixara tentado a me submeter à experiência que já fizera com sucesso com alguns outros artistas paulistanos (como o Wesley Duke Lee, por exemplo) foi o fato de que me recomendou que eu antes me submetesse, por segurança, a um teste de Horshardt.
Procurei um Instituto conhecido, e me submeti ao tal teste cuja análise revelou “traços esquizoides de personalidade”, que me afirmaram serem comuns em artistas, já que “viajamos” imaginativamente naqueles famosos borrões. Portanto o técnico psiquiatra me desaconselhava a experiência com LSD.

Assim graças à Providência Divina, fui salvo de uma possível “bad trip” que poderia ser definitiva, desencadeando o pesadelo esquizofrênico infernal que levou ao suicídio inúmeros jovens naquela década. Meu Anjo sempre foi muito forte e presente em minha vida...

(das Memórias de Guilherme de Faria)

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