Nestes dias de quarentena eu começo a me lembrar cada vez mais de pequenos episódios vivenciados em diversas épocas da minha vida, que nunca mencionei antes por considerar irrelevantes. Entretanto sua persistência em minha memória desmentem esse juízo precipitado e começo a enxergar algum sentido nesses "pequenos lances", à primeira vista comezinhos.
Ontem, de máscara, andando uns quarteirões até o Supermercado, lembrei-me do encontro casual que tive uma vez numa esquina, no exato lugar em que agora passava, com o velho pintor concretista geométrico Hércules Barsotti que eu via sempre passeando pela Oscar Freire e transversais olhando vitrines e comentando-as com o seu companheiro de uma vida, Willis de Castro. Eram duas figuras conhecidas no bairro. Nesse dia, que agora lembro, ele estava acompanhado de um outro pintor conhecido, bem mais jovem, que era um seu fiel amigo, e sabendo eu do falecimento do seu companheiro Willis de Castro, achei por bem comentar, dizendo "eu soube, sinto muito"... dando-lhe os "meus pêsames" de maneira um tanto convencional.
Hércules, duramente, eu diria até rispidamente, atalhou-me com estas exatas palavras: "Não sinta!. Por quê dizer isso? Nós todos somos para a Morte."
Fiquei desconcertado... e mesmo envergonhado da minha possível falsidade ou hipocrisia, de que não me havia dado conta. Eu não conhecia bem o velho pintor, e as poucas vezes que trocamos palavras ele sempre me pareceu bastante antipático, mas de um jeito que me fazia crer que ele tinha muita personalidade e caráter, embora eu não apreciasse a sua prestigiosa arte fria e racional, que não me dizia nada. Justamente por isso eu não deveria ter lhe dado os pêsames que na verdade não sentia. Eu acabara de levar uma lição. Nunca mais daria pêsames a ninguém: "Somos todos para a Morte"... o velho tinha razão.
(Guilherme de Faria)
(Guilherme de Faria)
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