Nos últimos anos, quando saio na minha agora qualidade de idoso para andar um pouco pelo bairro, noto cada vez mais a falta gradativa de certas figuras familiares, algumas com quem trocava palavras e notícias, outras que eu só conhecia de vista mas com alguma familiaridade pelo número de anos desses falsos "encontros". Sim, essas figuras foram desaparecendo, e deduzo que morreram, pois pareciam bem mais velhas do que eu. Em breve já não conhecerei ninguém no meu bairro, e isto me faz lembrar do velho mestre Degas, que era visto muito velho e cego andando amparado por sua bengala pelo seu bairro (Quartier Latin?) em Paris, olhado com reverência distante por alguns vizinhos que ouviram falar de sua celebridade por seus avós... até que também sumiu como a última visão do Impressionismo, ilustre movimento do final de um século passado...
Não quero me comparar com o grande Degas... Comparado com ele sou apenas um pintor de rodapés, e pior: do Terceiro Mundo. Mas a essa visão seria pertinente do ponto de vista subjetivo, e de uma crescente solidão, se não fosse o milagre de uma segunda vida social, esta, do "mundo virtual" da nossa época, do nosso facebook...
Não posso portanto me queixar: há até um razoável número de acompanhantes fiéis de minhas "memórias", o que, confesso, funciona como carícias no meu Ego...
Entretanto, de um modo ou de outro tudo leva a crer que eu também irei desaparecendo devagar e minhas últimas notícias serão dadas pelo porteiro do meu prédio para algum morador de meia-idade:
"O senhor soube? O velho pintor do ap... *, aquele velhinho desarrumado, o seu Guilherme? Foi encontrado morto, pelo cheiro, depois de uma semana! Foi difícil entrar no apartamento de tanto quadro e tranqueira. Foi quase preciso fazer um rescaldo... Uma semana antes ele deu pra mim este quadrinho, olha... por tantos anos aqui na portaria. Estou vendendo, é bonitinho ... o senhor se interessa? "
(Guilherme de Faria)
Não quero me comparar com o grande Degas... Comparado com ele sou apenas um pintor de rodapés, e pior: do Terceiro Mundo. Mas a essa visão seria pertinente do ponto de vista subjetivo, e de uma crescente solidão, se não fosse o milagre de uma segunda vida social, esta, do "mundo virtual" da nossa época, do nosso facebook...
Não posso portanto me queixar: há até um razoável número de acompanhantes fiéis de minhas "memórias", o que, confesso, funciona como carícias no meu Ego...
Entretanto, de um modo ou de outro tudo leva a crer que eu também irei desaparecendo devagar e minhas últimas notícias serão dadas pelo porteiro do meu prédio para algum morador de meia-idade:
"O senhor soube? O velho pintor do ap... *, aquele velhinho desarrumado, o seu Guilherme? Foi encontrado morto, pelo cheiro, depois de uma semana! Foi difícil entrar no apartamento de tanto quadro e tranqueira. Foi quase preciso fazer um rescaldo... Uma semana antes ele deu pra mim este quadrinho, olha... por tantos anos aqui na portaria. Estou vendendo, é bonitinho ... o senhor se interessa? "
(Guilherme de Faria)
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