Monday, July 6, 2020

VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO" (crônica de Guilherme de Faria)

Meus amigos... lendo o título emprestado desta crônica não pensem que vou fazer um ensaio ou resenha do famoso livro de Xavier de Maistres. Na verdade, somente não encontro melhor título para a minha vida privada, que teve sempre a nota de uma solidão renitente, conquanto eu tenha sido ao mesmo tempo "un homme de femmes", não propriamente um mulherengo, mas um assumido carente perpétuo da companhia feminina. A mulher, espelho da "anima", sempre me foi absolutamente necessária, primordial, essencial, no dia a dia como nas longas noites, e sem a qual eu simplesmente me desintegraria...PUFFF

Quando criança, o meu quarto era já uma paixão, tanto que embora tendo mais três irmãos, sendo duas irmãs gêmeas mais novas e um irmão dois anos mais velho, logo dei um jeito de ter um quarto só para mim, que eu enchi de livros e aeromodelos, e mantinha uma pequena bancada improvisada de marceneiro para trabalhos manuais que eram a minha paixão depois dos livros. Romances clássicos de aventuras, poesias, contos e novelas de grandes autores, povoavam minha cabeça a ponto de eu não querer mais sair do quarto e minha mãe, grande leitora e incentivadora das minhas leituras, ela mesma volta e meia me expulsar dizendo: "Vai tomar sol! Vai pra rua brincar com os moleques! Você está se tornando um rato de biblioteca! "
Fui para a rua e me apaixonei como um pequemo Werther sofredor por uma menina vizinha, linda... estória que já contei há anos atrás e voltarei um dia a contar. Meu primeiro amor...

Sim, era verdade... eu estava ficando um tanto frágil e muito branco (eu era louro,vejam só...)
Percebendo o perigo, meus pais me mandaram, aos onze ou doze anos, para uma conhecida colônia de férias, o "Paiol Grande", dos padres oblatos canadenses, dirigida por um prestigioso e distante Father Leising. Nunca sofri tanto por um interminável mês, em que nos primeiros quinze dias meu corpo doía inteiro, pelo regime de exército, por intermináveis sessões de exercícios, esportes competitivos, e excursões exaustivas a cavalo e a pé. Ao fim de um mês (férias de Julho) eu estava afinal enrijecido para o resto da vida, e tenho que reconhecer que meus pais tiveram razão. Eu escapara de ficar efeminado ou de me tornar "avant-la-lettre" o que nos tempos atuais chamamos de um "nerd".
Entretanto a necessidade da vida de quarto, que logo se transformou em ateliê de pintura e desenho, dominou meu modo de vida para sempre. Eu durmo onde trabalho, para acordar de noite e olhar o quadros em andamento no cavalete e dar pinceladas antes de voltar a dormir. Preciso viver cercado de livros acumulados de uma vida, dos quais não consigo me desapegar de nem um único, uma verdadeira biblioteca... e de meu quadros pelas paredes ou encostados a elas em pilhas que me ameaçam bloquear no escuro, como naquela peça "A Mudança", do Yonesco...
Assim, diariamente percorro a vista "à roda de meu quarto" e viajo no mesmo sonho inesgotável desde a infância, pelo mundo que construí e que para mim supera em encanto as experiências reais das poucas viagens que fiz ao estrangeiro, em que, embora com inegável proveito (sobretudo pelas visitas aos maravilhosos museus), me senti verdadeira e desconfortavelmente... um estrangeiro.
Todavia, recentemente, nesta minha viagem sem fim, por estar escrevendo sobre ela abriu-se uma nova perspectiva e ocorreu-me que alguns dos meus eventuais leitores estarão ponderando sobre um provável sentido narcísico, e portanto vicioso, desta minha projeção contínua no meu entorno, como um mero processo autofágico, e afinal, socialmente estéril...

Mas, vejam, senhores, nesse caso eu teria que ser julgado juntamente com todos os artistas do mundo, de todas as épocas! E então, absurdamente me vejo num imenso julgamento público como aqueles da Máfia italiana: todos nós numa imensa jaula, protestando, mordendo os punhos manchados de tinta...

Não! A VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO, não pode ter sido o perpétuo debruçar de Narciso sobre o lago, e as mulheres que dela participaram, ainda que dolorosamente, não foram transformadas em pedra, exaustas de ecoarem seus chamados...

O que faz o artista, afinal, senão doar-se, ainda que multiplicando espelhos?

Olho em volta, e percebo que as minhas memórias clamam por serem compartilhadas, assim como meus quadros e... não posso senão fazê-lo, sim, com o mesmo direito do artista que diariamente sobe ao palco, realiza o seu show, e espera legitimamente os aplausos da platéia.

E curva-se em agradecimentos, humildemente...vaidosamente... humildemente...


FIM

(Guilherme de Faria)




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