Friday, July 24, 2020

O ARISTOCRATA DE PORTARIA

Eu sempre tive sorte com duas categorias de profissionais: os porteiros (pelo menos os do meu prédio) e os choféres de táxi. Destes últimos deixarei para falar outra hora. Eu digo isso, porque sempre colhi boas estórias, além de simpatia, respeito e até distinção no trato desses profissionais para comigo... de modo mútuo, claro.Na portaria do condomínio em que habito há mais de quarenta anos domina um grupo de irmãos nordestinos de uma mesma família, em que estranhamente, todos, absolutamente todos são educados e prestativos, cada um no seu turno, a ponto de me saudarem e abrirem a porta do elevador e apertarem o botão do meu andar quando chego. Chega a ser estranho, não é verdade? Então dou-me conta de que é porque os trato muito bem, com simpatia autêntica e eles sentem isso. Deve ser porque vivi quatro anos em Olinda PE e a partir daquela cidade colonial fiz uma expedição pelo sertão de Pernambuco e Paraíba, que gerou, trinta anos mais tarde, a minha inusitada fase de cordelista sertanejo. De algum modo eu captei a alma sertaneja nordestina que é a raiz dessa família de porteiros servindo nesta paulistérrima Oscar Freire próxima da Augusta.
Mas agora, provando que não é apenas isso, mas sim uma estranha sorte mesmo, há um novo contratado (há uns dois meses) pela sindica para um horário noturno específico, que é um negrão bonito de 1,96 de altura, esguio, musculoso (faz musculação) e que já foi jogador de basquete e segurança. O rapaz é um gentleman e excede todos os outros em cortesia para comigo.
Graças a esses serviçais modelo, eu me sinto como um nobre decadente, mais ou menos como aquele do filme "Tristana" do Buñuel, que vivia há décadas de vender os móveis preciosos da mansão da família e estava já com a casa vazia, fazendo eco. Não é o meu caso quanto às circunstâncias, claro, mesmo porque meu ap é quase um kitinete de acumulador compulsivo, mas como tipo humano de aristocrata falido de uma belle époque imaginária, para ser sincero. Lembro que o tal aristocrata do filme dizia: "Eu vivo mal, mas pelo menos eu não trabalho"... Sim, dei-me conta de que no fundo nunca considerei a pintura um trabalho, mas um prazer, e ser tão bem servido por esses homens é um privilégio de nobres, que na verdade nem mereço...
CONTINUA

No comments:

Post a Comment