Tuesday, June 16, 2020

Confissões do inconfessável (das Memórias de Guilherme de Faria)

Agora, no crepúsculo, me dou conta da trajetória inteira de minha vida sob uma ótica literária (como não poderia deixar de ser). Sem vanglória, mas ao contrário, com certo constrangimento, senão vergonha, enxergo nitidamente pelo menos quatro arquétipos psico-literários sob cuja égide transcorreram minhas vivências no âmbito amoroso, desde sempre: Werther, Romeu, Fausto e Casanova.
Entretanto devo confessar que tendo ao mesmo tempo a natureza de um artista fecundo, desde o início recusei para mim o aspecto trágico destes quatro signos universais (por assim dizer, escolhidos) e resvalei ao patético: fui um Werther em minha primeira paixão amorosa, mas no limite do sofrimento não me suicidei. Assim, também, como Romeu não o fiz e renunciei à minha Julieta, dei-a por perdida. Como Fausto fiz, de certo modo um pacto, mas ludibriei o Mefistófeles alcoólico no último momento, com um novo acordo, desta vez com Deus. Como um Casanova apaixonei-me todas as vezes igualmente, apesar de minha incontrolável luxúria, para tudo resultar em memórias quase picarescas, na verdade... patéticas.

E o Dom Quixote? (alguém poderia me perguntar, já que devotei minha vida à Arte, contra todas as probabilidades do momento). Não, não fui um Dom Quixote, não investi contra as “injustiças” do Mundo... Não fui regido pelo idealismo social ou político, mas por um obstinado individualismo libertário. Sim, queria somente me libertar a mim mesmo, para, como artista realizar o sonho da criação, que por si só me parecia demasiado alto, como escalar uma montanha ou arrasá-la ao nível do solo.

Hermann Hesse, no seu magnífico O Lobo da Estepe, diferenciou os artistas em duas categorias: os trágicos e o olímpicos. O Trágicos, não necessariamente malditos, são talvez os mais altos, mas se incendeiam aos primeiros embates com a sociedade e ficam iluminando para sempre. Mas os Olímpicos são os artistas que descobriram o humor como um pacto vital com a sociedade, e que é ao mesmo tempo uma enorme concessão. “O que é, aqui, o Humor?” Ele responde: "É viver no mundo como se não fosse o mundo; respeitar as leis e os costumes, embora íntima e secretamente se alce além e acima deles”. Hesse complementa dizendo : “paradoxalmente todo humor é um tanto burguês, embora o verdadeiro burguês seja incapaz de tê-lo”. A esses artistas fecundos, os que descobriram a concessão do humor, a sociedade frequentemente cobre de imensas dádivas e aplausos. São os Picassos, os Salvador Dalís , os Chaplins, os Vitor Hugos, os Voltaires, os Goethes...

Entretanto quero ajuntar às duas categorias detectadas por Hesse, uma terceira: os "Patéticos". São os que como eu, se situam numa espécie de limbo dourado: razoavelmente bem recebidos e admirados, embora fracassados social e financeiramente, mas que também pelo humor aceitam sem amargura a sua condição: nem trágicos, nem olímpicos, nem malditos nem vencedores, mas fiéis e gratos à pequena arte que lhes foi dada...

(Guilherme de Faria).

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