Friday, July 24, 2020

O TESTEMUNHO DO MEU VIZINHO

Ontem, na hora em que fui jogar o lixo na lixeira, topei com o meu vizinho do fim do corredor, que é uma rapaz precocemente envelhecido, com vasta cabeleira e grande barba grisalha, com oclinhos sem aro, redondos, sempre encapotado, uma figura interessante, que parece um poeta russo do século XIX. Sabendo pelos porteiros ser ele volta e meia vítima de depressão, perguntei por sua saúde, e ele, apesar da máscara obrigatória, me contou a seguinte história acontecida com ele, e que tentarei reproduzir fielmente conforme recordo suas palavras:

"Seu Guilherme, ontem estive no Hospital...* para retirar os pontos de uma operação a que me submeti há um mês. Estava um ambiente muito conturbado, com muita gente chegando em macas com sintomas do Covid ou não e, sendo atendidas por enfermeiros atarefados. Então notei um enfermeiro especialmente dedicado aos recém-chegados mais graves, e cheio de compaixão nos gestos e no semblante. Olhei-o com mais atenção e o reconheci claramente: Era Jesus, seu Guilherme! Me aproximei dele com dificuldade e o inquiri respeitosamente: "Senhor, desculpe, eu o reconheci, e vejo que está muito ocupado, mas não posso deixar de perguntar : O Senhor não poderia praticar um último milagre e fazer cessar este pandemônio... digo, esta pandemia? "
Jesus levantou os olhos, continuando a aplicar uma compressa na testa de um paciente, e respondeu:
"Cidadão, eu fui proibido desta vez, pelo Pai, de lançar mão de milagres. Estou reduzido a exercer a simples compaixão humana."
Eu, inconformado, insisti e perguntei: "Por quê, Senhor?" Mas nesse momento não o vi mais, perdido naquela confusão. Procurei longamente com os olhos naquele saguão tumultuado, mas em vão... "

Eu fiquei olhando nos olhos do meu vizinho para ver se ele estava falando a verdade, se não estava inventando uma historinha.
Mas, o que vi me surpreendeu tanto que quase esqueci das minhas mazelas físicas de velho pintor em fim de carreira.

E fiquei perplexo, olhando o meu exótico vizinho se distanciar e entrar no seu misterioso apartamento, a que nunca me convidou para entrar, e que muito menos o faria agora...

(Guilherme de Faria)

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