Saturday, June 17, 2023

Uma vez, ainda quando era jovem, um amigo pintor mais velho, hospedado em minha casa, vendo que eu adorava o cinema, que era cinéfilo e gastava muito do meu tempo vendo filmes nos cinemas, na televisão e na Cinemateca de São Paulo, me advertiu dizendo que assistir filmes era péssimo para os pintores, que a pintura era o contrário da imagem móvel das telas, e prejudicava o olho eternisante da imobilidade ou do próprio instantâneo de um movimento. Mas ele tinha razão por outro motivo: o simples tempo gasto longe do cavalete. Entretanto eu compensava esse tempo, me recusando a ter um carro e a aprender a dirigir, pois eu observava que o também simples fato de ter um carro faz com que seu possuidor, de um jeito ou de outro passe muito tempo de sua vida no meio do trânsito, portanto, no caso do artista, fora do ateliê. Eu andei a minha vida inteira de adulto só andando de táxi, abandonando-os sem dó nos congestionamentos e saindo a pé. Além disso sai muito mais barato que sustentar um carro com seus gastos de conserto e manutenção, seu combustível, suas licenças, impostos, multas, perigos de assalto e dificuldade de estacionamento, dores de cabeça e até a tragédia, não de morrer mas de matar alguém... Bem, reconheço que é um raciocínio muito particular, que pode ser contestado. Um vez, um certo indivíduo, quando em público externei este meu pensamento, me respondeu irritado e até com desprezo, que "quem não dirige carro é infantil, não tem controle sobre a sua própria vida". Bem... crente que sou em Destino e fatalidade, acho que tal controle é de modo geral, muito relativo. Mas estou falando só de mim mesmo, não recomendo nada a ninguém, como o fez aquele amigo pintor a respeito dos filmes, segundo ele, inimigos da pintura.
Cada pintor tem, na verdadade, sua trajetória vocacional distinta, inigualável, inimitável... no fundo trágica como a de todo ser humano, nem mais nem menos. Apenas mais visível quando bafejado pela fama...
(Entrevista com Guilherme de Faria)

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