Desde criança, na minha relação com a vida e o entorno eu me pautei por uma espécie de culto da beleza. Nascido numa classe média conservadora culta mas empobrecida financeiramente ao nível de classe média baixa, minha família morava em casas alugadas e não havia nelas belas coisas, nem quadros de qualidade nas paredes. Em compensação havia boas estantes de livros, quase uma biblioteca clássica. Tendo como referência (por parte dos meus pais) as obras dos grandes mestres da literatura, os discos de música clássica na vitrola e na Rádio Cultura (programa diário A Música dos Mestres) e as reproduções em livros de quadros dos museus (na Biblioteca do Clube Paulistano) eu saciava assim a minha fome de beleza, que me era inata e estranhamente nostálgica. Mas devo dizer que como referencial vivo eu tinha somente a beleza natural das meninas da vizinhança, do meu quarteirão, das quais eu observava os movimentos harmônicos e naturalmente elegantes nas suas brincadeira singelas, tradicionais, as cantigas de roda nas festas de aniversário (coisa que infelizmente não existe mais). Nasceu ali o meu culto da mulher, de sua beleza pura, agora quase perdida, que é a base da minha obra gráfica, plástica e literária, como vocês já sabem: com a revelação fecunda da minha "anima" artista, a ALMA WELT, arquétipo da Mulher em sua beleza exterior e interior, sua criatividade e universalidade...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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