Quando jovem eu produzia muito, pelo menos desenhos e gravuras (litografias), mas por pura necessidade de sobrevivência. Não tendo veia comercial para vendas no varejo, eu só conseguia sobreviver pela quantidade (embora também pela qualidade), só vendendo em lotes para marchands, galeristas ou intermediários. Eu me deixava explorar alegremente já que a parte do leão era deles, mas eu me contentava em ver minhas obras se espalhando, indo para a casa das pessoas... Ingenuidade? Na verdade não. Muito pelo contrário, a minha era a suprema ambição, já que, consciente de que a verdadeira arte é sempre póstuma, eu sonhava secretamente com a eternidade, "espertamente" fazendo com que a minhas obras passassem logo para outras mãos mais pragmáticas e até mais cobiçosas, que se encarregassem de valorizá-las ainda que pelo mero amor ao lucro. Na verdade, tudo é incerto justamente porque tudo é Destino. E tentar manipulá-lo como eu fiz, agora vejo, isso sim é ingenuidade... Minha própria veia de escritor e poeta, uma vez aflorada, me faz ver isso. Posso muito bem cair no esquecimento após a minha morte, bem como ser redescoberto depois de cinquenta anos, com ocorreu com Rembrandt e Vermeer de Delft. Ou menos, em dez anos, como com Van Gogh, Gauguin e Modigliani. Mas realmente nada é certo. Entretanto acredito que se uma única obra minha, sobrevivente, daqui a cem anos for olhada com admiração por um outro ser humano, já terei cumprido o meu destino de artista.
(Entrevista com Guilherme de Faria)
No comments:
Post a Comment