Saturday, June 24, 2023

CURIOSIDADES DE BASTIDORES DA HISTÓRIA EDITORIAL DE GRANDES CLÁSSICOS DA LITERATURA

A publicação de uma obra literária é quase sempre demorada e sofrida, às raias da exasperação por parte do autor. Sabemos disso pela história de bastidores da literatura mundial, recheada, na verdade, de anedotas mais ou menos verídicas. Sabemos, por exemplo, que Marcel Proust tentou publicar o seu "A la Recherche du Temps Perdu", pela editora da qual o escritor Andrè Gide era dono, e foi rechaçado, não sabemos se por ciúmes ou despeito pelo próprio Gide, escritor já consagrado mas provavelmente ressentido. Sabemos também que Walt Whitman, desprezado pelas editoras onde foi bater, teve que pagar do seu bolso uma pequena edição de autor, das suas "Leaves of Grass, poemas que viriam a consagrá-lo como um dos maiores poetas americanos. Sabemos que os monumentais romances da maturidade de Dostoiévsky, Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, O Idiota e Os Possessos, foram publicados na Rússia, primeiramente em capítulos diários num jornal como folhetim, antes de consagrados pelos leitores serem afinal publicados em livros. Mas a mais exdrúxula saga real do destino literário de um gênio é a história da obra poetica da grande SAPHO, da cidade de Mitilene, na ilha de Lesbos, a maior poetisa lírica da antiguidade grega, apelidada "A Abelha da Piéria", e da qual o célebre Píndaro, poeta vencedor da Segunda Olímpiada dizia "querer poder escrever um único verso como ela e depois morrer". A poetisa lésbica, celebrada a ponto de ser considerada a Oitava Musa do Parnaso, teve um estranho destino póstumo. Seus delicados poemas líricos dirigidos a mulheres jovens por quem a poetisa se apaixonava, escritos em papiros originais recolhidos em mosteiros católicos da Idade Média, cairam em desgraça de um certo Papa por motivos moralistas, e ordenados que fossem queimados nas bibliotecas de todos os mosteiros onde existissem cópias. Obedecido sob pena de excomunhão, não sobrou nenhuma cópia dos maravilhosos poemas e a obra da poetisa de Lesbos foi extinta e permaneceu desconhecida por séculos, apenas evocada eventualmente em segredo e como lenda. Entretanto, pasmem, no século XIX, arqueólogos europeus escavando à procura de tesouros egípcios às margens do Nilo descobriram múmias de crocodilos sagrados e rompendo as bandagens para estudá-los (na verdade para descobrir jóias e amuletos) deram com papiros frágeis que se esfarelavam, servindo de estofo. Decifrando-os, pasmados e maravilhados, deram com os poemas originais de Safo (!!!). Poucos poemas restavam inteiros, a maioria estava já fragmentada e foram publicados como foram encontrados, uma palavra ou um verso aqui outro lá embaixo, mal formando sentido mas ainda sugerindo beleza. Uma curiosidade: um dos poucos poemas que foi preservado inteiro, milagrosamente, se intitula "Para Átis", em estilo epistolar, isto é, como uma carta dirigida pela poetisa a um amigo, evocando um amor em comum, uma jovem que se mudara para a região da Lídia, poema do qual o último verso ficou célebre e foi traduzido assim para o português: "...A NOITE DOS CABELOS COMO FLORES". Também curiosamente, no Brasil uma diretora teatral dirigiu nos anos 80 em São Paulo, uma bela peça tendo como titulo esse estupendo verso ligeiramente surrealista. Como podem imaginar, muitas são as histórias reais insólitas sobre a sobrevivência de grandes obras literárias que eu poderia contar aqui se os amigos se interessarem e solicitarem.
Poderei também, se mais de um leitor amigo desejar, numa próxima publicação transcrever a tradução completa do poema "Para Átis", da Safo. que termina com o tal famoso verso.
Por ora fico por aqui...
( Guilherme de Faria)
18/06/2023
Nota
Os três últimos versos do poema "Para Átis", de Safo, traduzidos em portugês castiço ficaram assim:
...
sabemos o que diz pois no-lo conta
alguém que tem muitos segredos:
a Noite dos cabelos como flores...

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