(crônica e cordel de Guilherme de Faria)
Quando eu ainda era jovem, na casa dos 30, depois do fracasso do meu quarto "casamento" (eu era bonito, a mulherada dava em cima, eu cedia à tentação e pulava a cerca) fui expulso de casa pela minha mulher (mãe de três dos meus filhos) e deprimido, desalentado, fui visitar a minha mãe e acho que me queixei um pouco. Minha mãe, havia muitos anos separada de meu pai pelas mesmas razões, em vez de me consolar disse apenas:"É... filho. A vida é um Vale de Lágrimas..."
Fiquei chocado e envergonhado de minha dupla fraquesa. Nunca mais me queixaria de nada, e em 2001 tive um surto cordelístico e num dos meus cordéis sertanejos botei na boca do narrador (um jagunço acuado numa emboscada) os seguintes versos:
"Quem se queixa não merece
uma bala ou uma prece."
Então, lembrando hoje disso, aqui vai por curiosidade o mencionado cordel, dos primeiros que escrevi, eu, paulista-paulistano de 460 anos, inusitadamente tomado por um espírito sertanejo que me baixa de vez em quando:
ROMANCE DA TOCAIA
(cordel de Guilherme de Faria)
1
Eu tô aqui num funil
Faz três dias bem contado
Comendo pão seco salgado,
Bebendo do meu cantil.
2
Com o cano apoiado
Nesse toco de pau
Sem poder sair pro lado
Tô ficando meio mal.
3
E tô cansado demais
C’os inimigo esperando
Me mexer um pouco mais
Pro tiro ao alvo do bando.
4
Devem estar se revezando
Na mira, as perna esticando
Cozinham, dançam xaxado
E eu aqui, embosteado.
5
Candidato a presunto,
Se não fosse esse pedrão
Eu tava morto no chão
Como um saudável defunto.
6
Mas não me entrego jamais
Pra quem sequer fez pedido
Pois só querem morte, e mais:
Acabada e com recibo.
7
E eu não tô pra dar moleza
Pra essa vagabundagem:
Vão ter trabalho e dureza
Se querem contar vantagem.
8
Vão ter que gastar munição
Que eles sovinando estão.
Eu já fui faquir de feira
Com braseiro como esteira
9
E posso perder um terço
Sem perder a compostura
Cama de prego é berço
E tijolo é rapadura.
10
Há três dia alegre estava
No leito da Esmeraldina
Sem ver o que me esperava
Conspirando na surdina.
11
Essa vida é de veneta,
Tem coisa que se contar
Melhor pegar a caneta,
Já que tem de recontar.
12
O coronel João Badia
Queria desafogar
O ganso naquele dia,
Nesse mesmo lupanar.
13
Quem havera ter contado
Que essa mesma Esmeraldina,
Predileta, de tão fina,
Com contrato apalavrado
14
Tava mais pra concubina
De coronel safado
Do que simples messalina
Disponível no mercado!
15
E agora me vejo qual
Inocente vitimado
De um contrato comercial
Que nem sou interessado.
16
Mas uma coisa eu digo;
Só saio levando comigo
Dois ou três, ainda que torto,
Tenha que fingir de morto.
17
Esse Sertão já me deu
Muita coisa, pode crer.
Não posso nem me queixar,
Já podia até morrer.
18
Quem se queixa não merece
Uma bala ou uma prece.
Assim dizia o finado
Sogro do meu cunhado.
19
Aproveitei bem a vida
Sem ganhar dinheiro em pilha
Não gosto muito da lida,
Não caí nessa armadilha...
20
Pensado isso, agora,
Tou pronto pra ir embora.
Vou sair logo atirando
Pros lado, rindo e gritando.
21
Meu nome é João Austério
Mas ponham Austério só
Que sempre fui muito austério,
De comer pão com jiló
22
E de beber tubaína
Em festa de cavalhada.
Minha fraqueza e minha sina
Só se deve à mulherada.
FIM
No comments:
Post a Comment