(crônica de Guilherme de Faria)
Os dias amanhecem enevoados aqui nesta Oscar Freire letárgica e abúlica, embora estejamos em pleno verão, mas nitidamente sem alegria alguma. Tempos de espera... Espera de quê?"Ora, Guilherme, não projete nos outros, ou em torno, o seu melancólico estado de espirito! "Cada qual com "seus pobrema!"(diria alguém)" rrrrssss
Não. Estive pensando... não há estatísticas a esse respeito, mas eu diria que 90% de nossas vidas é feita simplesmente de "esperas". Estamos sempre esperando alguma coisa, já que somos projetados para um permanente futuro, que os filósofos alemães chamavam de "Dasein", isto é, o DEVIR, ou o VIR A SER, baseados na pulsão que emana do nosso fígado (a sede da alma para os antigos gregos) quando saudável, "a volição", isto é, o impulso para a frente, para o próximo passo, enfim... para o futuro. Lembremos que a palavra "fígado" deriva etimologicamente da palavra Psiqué ("alma" dos gregos e a "anima" dos romanos (algo que se move). Sem a "volição" acabamos na melancolia, a grande endemia do século XIX que produzia a tísica (tuberculose ) ou vice versa, que levava cedo os poetas, alguns pintores, as "demi-mondaines" e as donzelas devoradoras de romances.
Entretanto, nos dias atuais não se fala mais de "melancolia", termo caído em desuso uma vez que segundo a OMS (sempre ela) a epidemia agora é de "depressão", algo pior que a antiga melancolia que pelo menos era criativa, produzia muita poesia. Agora, a depressão não produz mais nada: é estéril e sem rosto.
Alguns estudiosos do assunto dizem que a depressão dos nossos dias é devido à falência do espírito de vocação individual, de "missão" ou "ideal" que motivava desde a infância os melhores entre nós, homens e mulheres. Vou dar um exemplo:
Na infância, em meados do século XIX, o menino alemão Heinrich Schliemann trabalhando atrás do balcão da botega de um tio, ouviu um cliente que entrou, um jovem estudante de Literatura, declamar de cór um trecho da Ilíada de Homero. O menino, fascinado com os versos e a história perguntou ao rapaz : "Tróia existiu, mesmo? " O rapaz repondeu: "Que Importa? O que interessa é o mito e o poema". Mas o menino Schliemann declarou enfaticamente: "Não! Ela existiu! Eu vou descobrir Troia!" E iria passar os próximos trinta anos dedicados a enriquecer com o comércio, pesquizar e estudar línguas, inclusive o grego antigo, com vistas ao seu ideal da infância. Estudou também o turco para autonomamente poder escavar como arqueólogo amador, contratando operários para desenterrar Tróia que ele deduziu encontrar-se nos nossos dias em território da Turquia. Sim, a antiga Tróia, a Ílios, de Príamo e Écuba, de Cassandra, Heitor e Páris, e Helena (porque não?) que só ele acreditava ter sido real, histórica mesmo, assim como sua famosa guerra, com aqueles heróis todos, Agamenon, Menelau, Ajax, Odisseu e Aquiles. E a descobriu, e desenterrou mesmo ! E digo mais, como no âmago de seu sonho típico de menino, descobriu nas escavaçoes, o "tesouro perdido do rei Príamo" (!!!) (hoje em parte num museu da Alemanha).
Vou lhes confidenciar, amigos: o mesmo sentido de missão me motivou, desde criança (nos meus modestos termos, claro) a ser pintor e escritor, pois no meu tempo e origens burguesas, nada levava crer que isso fosse possível. Minha mãe apesar de culta, com suas raizes paulistas quatrocentonas, se baseava apenas numa biografia popular romanceada de Van Gogh, que saiu naquela época, para me advertir que os pintores morrem de fome, na mais completa miséria, e que se eu "gostava de desenhar" devia estudar arquitetura, como seu pai, meu avô. "No Brasil, ninguém vive de pintura!" (ela dizia, esquecendo-se de Portinari, Di Cavalcanti, etc).
Na verdade tive que sair de casa aos 19 anos brigado com minha mãe, para ir viver na miséria no meu primeiro ateliê : um porão infecto e úmido num cortiço antigo na rua Mato Grosso, atrás do cemitério da Consolação. Foram cinco anos produtivos, de miséria negra e mais dez de extrema pobreza antes de começar a arribar. Já contei aqui no face, em capítulos anos atrás, as minhas memórias em pequenos capitulos ou episódios, minha odisseia, ou 'Eudisseia" como inventou e dizia um meu amigo dos anos 70, o grande poeta Eduardo Alves da Costa. Como andará ele, quase dez anos mais velho do que eu, com toda sua extensa obra literária publicada em livros, morando, escrevendo e pintando há muitos anos, numa praia no litoral paulista com a sua notável Antonieta, tão idosa quanto ele?
A vida é longa, é inusitada, surpreendente... E continuamos esperando... esperando...
Guilherme de Faria
14/01/2023
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