Saturday, January 14, 2023

A PROPÓSITO DE UMA ÚLTIMA EXPOSIÇÃO

 (crônica de Guilherme de Faria)

Como artista, como pintor, aos oitentinha estou já naquela idade em que cada nova exposição que faço de obras minhas, considero a última, prometendo a mim mesmo que não mais gastarei dinheiro e energia com esse tipo de coisa. Entretanto, é difícil recusar convite. Então, me lembro que na minha vida, desde o princípio, só fiz exposições quando e onde me convidaram, jamais me ofereci, e por isso fiz exposições em lugares inusitados, sem a lógica e o fracasso da premeditação. Sim, quero reafirmar que tudo é destino, inclusive o dessa área de atuação, isto é: a de palco e platéia. Quanto à vida, em geral, somos títeres de uma pantomima alegórica, cheia de rumor mas também de música e significados simbólicos, ao contrário do que disse Macbeth no seu famoso monólogo.
"Mas, Guilherme (alguém poderia dizer)... você não construiu o seu destino, não escolheu? Não comandou o seu barco? "
Ah! amigos... Deus sempre está no comando, e ao piloto cabe desviar o barco de um ou outro rochedo, somente. E já é muito. Acaso Odisseu escolheu a sua rota de volta ao lar, perdido que foi por dez anos em aventuras e desventuras? O herói tinha metas, sim, de combate, vitória e retorno. E as coisas deram certo, sim, mas nunca do exato jeito que ele planejou, e isso fez dele um aventureiro (título de honra) eternizado na História ou, pelo menos, nas estórias.
Com isso devo confessar que sempre me vi, desde criança, como o protagonista de uma odisséia particular, de uma grande aventura, da qual vou decodificando os signos durante uma trajetória errante, quero dizer: de erros certos e acertos inesperados.
Isso quer dizer que me dou muita importancia, ao contrário do que a verdadeira sabedoria recomenda? NÃO SE LEVE MUITO A SÉRIO", li numa tabuleta de uma certa confraria. Sim, isso é recomendável mas a vida é feita de paradoxos, e ao artista cabe levar muito a sério a sua missão, sob pena de desperdício de seu dom, o que eu soube que é o maior pecado que um artista pode cometer perante o seu próprio destino transcendente, ou mesmo Deus, quer creia ou não.
Guilherme, você deriva muito... Tudo isso, a respeito de uma última Exposição de suas obras? Vá receber os amigos, oferecer vinho a eles, embora não bebas mais! Que eles bebam por ti, que já não podes... A amizade e a fraternidade tem signos mais vizíveis que todas as filosofias e especulações.
Brindemos, pois, à Vida, ao Amor à Amizade! "E basta de comédias na minha alma!" (como desabafou Fernando Pessoa).
Guilherme de Faria
13/01/2023


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