(crônica de Guilherme de Faria)
Como artista, como pintor, aos oitentinha estou já naquela idade em que cada nova exposição que faço de obras minhas, considero a última, prometendo a mim mesmo que não mais gastarei dinheiro e energia com esse tipo de coisa. Entretanto, é difícil recusar convite. Então, me lembro que na minha vida, desde o princípio, só fiz exposições quando e onde me convidaram, jamais me ofereci, e por isso fiz exposições em lugares inusitados, sem a lógica e o fracasso da premeditação. Sim, quero reafirmar que tudo é destino, inclusive o dessa área de atuação, isto é: a de palco e platéia. Quanto à vida, em geral, somos títeres de uma pantomima alegórica, cheia de rumor mas também de música e significados simbólicos, ao contrário do que disse Macbeth no seu famoso monólogo."Mas, Guilherme (alguém poderia dizer)... você não construiu o seu destino, não escolheu? Não comandou o seu barco? "
Ah! amigos... Deus sempre está no comando, e ao piloto cabe desviar o barco de um ou outro rochedo, somente. E já é muito. Acaso Odisseu escolheu a sua rota de volta ao lar, perdido que foi por dez anos em aventuras e desventuras? O herói tinha metas, sim, de combate, vitória e retorno. E as coisas deram certo, sim, mas nunca do exato jeito que ele planejou, e isso fez dele um aventureiro (título de honra) eternizado na História ou, pelo menos, nas estórias.
Com isso devo confessar que sempre me vi, desde criança, como o protagonista de uma odisséia particular, de uma grande aventura, da qual vou decodificando os signos durante uma trajetória errante, quero dizer: de erros certos e acertos inesperados.
Isso quer dizer que me dou muita importancia, ao contrário do que a verdadeira sabedoria recomenda? NÃO SE LEVE MUITO A SÉRIO", li numa tabuleta de uma certa confraria. Sim, isso é recomendável mas a vida é feita de paradoxos, e ao artista cabe levar muito a sério a sua missão, sob pena de desperdício de seu dom, o que eu soube que é o maior pecado que um artista pode cometer perante o seu próprio destino transcendente, ou mesmo Deus, quer creia ou não.
Guilherme, você deriva muito... Tudo isso, a respeito de uma última Exposição de suas obras? Vá receber os amigos, oferecer vinho a eles, embora não bebas mais! Que eles bebam por ti, que já não podes... A amizade e a fraternidade tem signos mais vizíveis que todas as filosofias e especulações.
Brindemos, pois, à Vida, ao Amor à Amizade! "E basta de comédias na minha alma!" (como desabafou Fernando Pessoa).
Guilherme de Faria
13/01/2023
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