Sempre fui um solitário, mas com muitos conhecidos e uns poucos amigos, sem contar os virtuais, queridos, do nosso facebook. Os "reais", de minha geração, nos últimos tempos tenho visto se irem, um a um, sem que eu possa dizer que me deixam saudades, pois já não os via há décadas. Sim, não sou de ter saudades daquilo e daqueles que já incorporei na memória, e, talvez, no coração. Bem... são parte da minha autobiografia, alguns, e nem sequer necessariamente do coração. Sou sentimental somente com a beleza, que para mim está sempre de algum modo relacionada com a arte, mesmo a beleza de uma mulher inesquecível. Somente a Beleza e a Grande Arte conseguem me arrancar lágrimas, e por isso mesmo elas me venham com frequência. Amiúde, como dizem os lusos.
Detesto declarar "meus pêsames" aos familiares do defunto. Nunca me esqueço de um episódio da intimidade do Picasso contado pela sua ex mulher Françoise Gillot:
Braque, que tinha sido amigo íntimo do Picasso (com o qual dividiu um ateliê, na época da criação conjunta do Cubismo) quando morreu, há muitas décadas não se viam, mas perante o mundo a amizade e colaboração dos dois era já mítica. Então, assim que Braque faleceu, e Picasso nem se deu conta ou simplesmente não apareceu no velório, a viúva foi procurar Picasso na sua mansão-ateliê, e recebida apenas pelo secretário do mestre, o quase sinistro catalão Sabartés, disse a este dramaticamente: "Vim ver Pablo, porque Braque está morto".
Sabartés, impenetrável, então a mandou esperar numa ante sala enquanto ia ao ateliê comunicar o recado ao seu patrão. Dali a pouco voltou até a viúva dizendo: "Picasso manda dizer que não tem nada a dizer, visto que Braque está morto."
Assim sou eu também... O que dizer a uma viúva, inconsolável ou não? Na verdade, talvez não possa evitar um arrepio no fundo, e dizer para o meu próprio coração, como o Bicho Manjaléu, da antiga história infantil popular, que tendo sequestrado a donzela e proposto o enigma de sua vida aos que a queriam resgatar matando-o, dizia agoniado aos que estavam se aproximando da arca no fundo do mar, que continha o ovo dentro do qual estava a vela acesa de sua vida que pretendiam apagar com um sopro:
"Estão se aproximando da minha vida! Estão se aproximando da minha vida!"...
Guilherme de Faria
15/01/2023
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