Engraçado... ocorreu-me recentemente que eu não nasci adiantado para minha época, como ocorreu com alguns artistas na História da Arte. Ao contrário, para ser sincero, se me senti deslocado não foi por me sentir incompreendido, tanto mais que desfrutei de um grande sucesso precocemente, e vendia o meu trabalho, muito elogiado, desde muito jovem, nos anos 60. Entretanto eu vivi sempre com uma secreta nostalgia do passado, como se fosse um jovem saído de um século XIX literário, que eu amava, transportado no tempo e exilado numa época e num espaço decadentes no pior sentido. Por isso, naqueles anos 60 do inicio da minha vida "profissional", eu usando cabelos e barba compridos, ouvi um comentário de um intelectual mais velho: "É estranho rapaz, você usa os cabelos e a barba assim, mas você não parece um hippie, como agora há tantos por aí. Você parece saído das páginas de um romance de Dostoiévsky, uma espécie assim de Raskolnicov, do Crime e Castigo"... e eu me reconheci nesse comentário porquê realmente eu não me identificava nada com os hippies e sua arte psicodélica, e muito menos com a POP Art que estava começando a chegar, influenciando toda a minha geração de jovens artistas em São Paulo e Rio. Como o meu desenho e pintura não acompanhavam em estilo e conteúdo a vanguarda do momento, os críticos da época reconhecendo uma força em meu desenho me encaixaram a grosso modo numa denominação mais genérica de "Nova Figuração", na verdade uma vertente já tardia do Expressionismo europeu.
Sim, eu gosto de pensar que pertenço a uma grande tradição plástica e literária européia, com direito, por formação e temperamento, saído, na verdade, da biblioteca clássica dos meus pais, muito cultos e poliglotas. Eu li a Ilíada e a Odisséia com 15 anos, e Os irmãos Karamazov, com 16. Mas me identifiquei artística e animicamente com A Vida de Michelangelo, de Romain Roland, e O Romance de Leonardo da Vinci, de Dimitri Merejkowsky. Eu jamais me sentiria à vontade no meu século mas fiz tanto esforço para me adaptar que no começo da velhice abracei a chegada dos computadores sem ter passado pela datilografia. Escrevo muito rapidamente com um dedo só e numa linguagem que poderia ser de um escritor do começo do século vinte, segundo me disse alguém... Meus textos refletem talvez um mundo que a rigor não existe mais. Mas... "está tudo bem" como repetem à exaustão os americanos nos seus piores filmes, quando na verdade o mundo se esboroa ao nosso redor...
(Guilherme de Faria)
18/11/2023
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