Wednesday, November 22, 2023

A INTERCECÇÃO DOS MUNDOS

 As ricas histórias que saem de minha mente (vide as obras da Alma Welt e a do cordelista) eu as sinto como se realmente vividas por mim. Quem disse que temos somente uma vida para viver? É verdade que alguns indivíduos portadores de "mitomania" chegam a acreditar nas suas histórias, que são mentiras quase sempre interesseiras, com segundas intenções ou puramente delirantes. Quanto às histórias que conto, reparem, essas são realistas, interessantes e desinteressadas, de teor universal, não privilegiando um fundo moral, mas sim a "poiesis" por vezes terna, às vezes patética da natureza humana. A tragédia também está presente em muitas dessas histórias. Sim, lanço mão alternadamente das duas arquetípicas máscaras gregas, e algumas vezes as sobreponho, gerando o tragicômico. Mas advirto: nunca de caso pensado, premeditado. As histórias, ou estórias, saem de mim espontaneamente e me surpreendem. Sim, freqüentemente eu me surpreendo com elas e me pergunto: "De onde saiu isso? Nunca pensei em tais situações e pessoas, como essas! De onde elas estão vindo?" Entretanto, é também verdade que qualquer artista sente isso, pois a inspiração é apenas o dom de captação, como uma antena, de um "plano astral" onde pairam as "formas-pensamentos".

Estou convencido também que tudo aquilo que escrevo quando não experimentado mesmo por mim, na minha vida, pertence a um universo paralelo vívido, intenso, cuja intercecção com este nosso me encontrou com a pena (o teclado melhor dizendo) ou o pincel na mão.
Um exemplo, perturbador: quando encontrei nalgum lugar agora perdido da Internet, o túmulo abandonado da Alma Welt, com sua placa de bronze fundido, eu, que fora noticiado de sua morte em 2007, e das circunstâncias do encontro de seu corpo e de seu espantoso velório nu, estremeci até a base.
"Como então"- poderia alguém perguntar- "a Alma continua lhe enviando suas histórias, poemas e até pensmentos?" Eu respondo: Os mundos paralelos são múltiplos e num deles minha Musa continua viva, e em contato e sintonia com a minha anima interior, que, aliás, é ela mesma, em pemanente contato com alguns desses mundos. Sendo assim, não duvido que a encontrarei, um dia, em carne e osso, numa "intercecção", como acontece rara e eventualmente com o nosso "duplo". Nesse dia cairei aos seus pés e pedirei que me leve com ela ao seu pampa amado, à sua estância, seu vinhedo, ao jardim florido da Frida e adentrando o casarão me deixe ouvir o som do piano Steinway do Vati, na biblioteca de mil livros, sagrada, silenciosa, finalmente em paz...
(Guilherme de Faria)
20/11/2023

No comments:

Post a Comment