Friday, October 27, 2023

ELUCIDAÇÃO SOBRE MEUS HETERÔNIMOS LITERÁRIOS (por Guilherme de Faria)

Se alguém porventura me perguntasse (na verdade ninguém nunca me pergunta nada) de onde vêm minhas "personas" literárias, tão prolíficas, a do cordelista sertanejo e a da poetisa do Pampa, a Alma Welt, eu tentaria resumir assim: O cordelista surgiu como cristalização de uma experiência verdadeira de uma expedição de que participei, em 1973, de sete dias, a partir de Olinda, PE, numa caravana de violeiros cantadores repentistas, numa perua fretada, pelos sertões de Pernambuco e Paraíba rumo a um "Congresso" desses maravilhosos artistas populares de todo o Nordeste, em Campina Grande, na Paraiba. Quase trinta anos depois, em Julho de 2001, essa experiência, condensada e cristalizada, emergiu em mim, numa subita e inusitada enxurrada de 110 cordéis de cunho sertanejo, originais, estranhamente autênticos e inspirados, de que me orgulho, eu, um paulista paulistano de 400 anos, nascido no bairro de Perdizes e crescido, criado e morador quase a vida inteira nos Jardins, à beira da rua Augusta, esse "rio inglório"... rrrrrrrssss. Essa experiência eu poria na boca da minha outra persona, meu heterônimo, a poetisa e prosadora gaúcha, também estranhamente autêntica, ALMA WELT (meu heterônimo feminino de prolífica obra em prosa e verso) num conto dela intitulado "Na Trilha dos Menestréis , que conta essa expedição (em busca do Pavão Misterioso) de que realmente participei.

A propósito, o "surgimento" da Alma Welt, foi assim: Em 2001 , depois de anos de retorno à pintura a óleo sobre tela. por ter se esgotado o mercado de litografias do qual eu vivera 20 anos (de 1974 a 1995), tendo voltado à miséria, eu, não tendo mais nada a perder, me senti aliviado e livre para me dedicar finalmente a uma vocação literária que eu sabia que tinha desde a infância, e que postergara tantos anos pela necessidade de ganhar a vida e sustentar família com as artes plásticas, produto palpável e vendável. Ao sentar-me finalmente para escrever a sério, baixou em mim (por assim dizer) um velho sertanejo narrador e começaram a aparecer de maneira fluente sem emendas nem correções, cordéis com estórias existenciais do povo do sertão, extremamente inspiradas e poéticas, estórias que vocês jamais encontrarão em nenhum livro. Encantado com o fenômeno, e talvez por vaidade, precipitei-me e os assinei com meu próprio nome, Guilherme de Faria, que depois de transformados em folhetos ilustrados de maneira primitiva, passariam por ser de "um homônimo sertanejo", autêntico, pois vendidos em caixinhas de madeira com fecho rústico de cordéis de couro, jamais o público, como o da Livraria da Vila (onde vendi alguns) poderia associar ao Guilherme de Faria de traço expressionista já bem conhecido há décadas do "mercado".
Então, após o surgimento de quatro cordéis seguidos, sendo o primeiro o "Romance da Vidência", depois considerado pelos público a minha obra-prima do gênero, e a única que declamo de cór, embora declame todos sempre performaticamente, com peculiar sotaque sertanejo, sim, de repente, inusitadamente, entrou algo que não era cordel: uma narrativa em prosa, no formato de conto, passado num condomínio residêncial nos Jardins, em São Paulo, narrado por uma moça que logo depreendi que não era paulista mas que eu ainda não sabia de onde provinha: "Alma", seu nome apareceu na boca de uma interlocutora no primeiro parágrafo, mas eu também ainda não saberia seu sobrenome nesse primeiro conto que a introduziu como a personagem e narradora que me encantou pela sua delicadeza, graça e deliciosa feminilidade autêntica, e seu dom de narradora, fluente e agradável. Esse conto tragi-cômico se intitularia "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel. Deslumbrado, me perguntei : " Será que ela me aparecerá de novo?" Então entrou um segundo e terceiro contos, notáveis, que me revelaram sua origem gaúcho germanica, de sobrenome alemão, "Welt ( Mundo), por parte dos avós paternos, e Morgado pelos avós maternos açorianos. Sim, Alma do Mundo, Anima Mundi, uma pessoa real e arquetípica ao mesmo tempo, significando a feminilidade ideal que perpassa o Mundo.
Devo dizer que depois de muitos contos e poemas da Musa teuto gaúcha, eu descobriria que ela era, na verdade, a minha "anima" no sentido junguiano (de Carl Jung) do termo, que já aparecia desde 1965 em milhares de meus desenhos e gravuras, como minha modelo de ateliê, que eu pensava "imaginária", ruiva, linda, nua ou vestida, e que ao ver-me afinal escrevendo, insinuou-se, interrompeu o fluxo dos meus cordéis e revelou-se além da modelo, como escritora dotada, confessional, inesgotável, de imensa obra em prosa e verso (só de sonetos já são 5.000) quatro romances, poemas de verso livre, HaiKais, pensamentos e correspondência, centenas de contos e crônicas, e que depois de publicar tudo isso em 60 blogs para caber tão imensa obra, comecei a publicá-la em livros de papel desde 2004 (um livro dos contos da fase de seu auto-exilio paulistano, Contos da Alma, de Alma Welt) e depois dum grande intervalo, seu romance autobiogáfico A HERANÇA: O Sangue da Terra, também escrito em 2004 , afinal publicado em livro de papel e lançado em Agosto de 2022 na Livraria da Vila, em São Paulo. Este ano também em Agosto, lancei na mesma Livraria, uma antologia intitulada CONTOS E CRÔNICAS DE ALMA WELT.
Para concluir este resumo, devo dizer que a divina Poetisa do Pampa morreu de forma trágica e misteriosa em Janeiro de 2007, e também misteriosamente continua me enviando, desde então, textos inéditos que eu psicografo e publico nos seus blogs da Internet, e aqui no nosso facebook desde 2008. Sim, pasmem: eu psicografo minha própria anima, pois ela vive dentro de mim desde sempre.
Estou aberto a peguntas, se é que as suscito. Pois a minha experîencia até agora é de que nunca ninguèm me perguntou nada sobre tudo isso. Apenas ouvem num silêncio que não sei interpretar: Meditativo? Descrente? Perplexo? Reverente? Sim, e é tudo muito misterioso, devo concluir, desde que descobri na Internet a foto do túmulo abandonado de Alma M. (Morgado) Welt, com a placa de bonze fundido com duas datas meio apagadas, mas que se pode perceber: 1972- 2007. Alma pode ter vivido e morrido numa dimensão ou universo paralelo...
Tirem suas próprias conclusões.
Abraço a todos os que lerem este artigo...
Guilherme de Faria
27/10/2023

No comments:

Post a Comment