Wednesday, November 22, 2023
Duas Teorias Complementares
A excelente qualidade das reproduções fotográficas das obras de arte que o mundo moderno atingiu com sua tecnologia a partir do século XX, atingindo o seu ápice com a HD (Alta Definição) digital, popularizou até as obras clássicas num verdadeira democratização da fruição de imagens, assim como divulga os pintores contemporâneos que ainda não têm acesso a um verdadeiro Mercado (coisa difícil desde sempre). Entretanto, no universo das Artes Plásticas bem como no da Literatura, a luta por um lugar ao sol é a mesma desde a Antiguidade. Nada mais dificil para um artista do que ser reconhecido e consumido ao ponto de prover sua sobrevivência material com os frutos de sua arte. Essa situação é quase a mesma desde Van Gogh e de Gauguin, pelo menos, exemplos trágicos dessa dificuldade em seu tempo. Todavia é preciso notar que certos pintores e escritores ainda jovens conseguiram em todas as épocas viver de sua arte desde muito cedo, com enorme sucesso, precocemente, com notável e até misteriosa facilidade. O quê explicaria isso? É neste momento que eu lanço mão de duas teorias complementares e convergentes, uma, do grande escritor Hermam Hesse, que no seu magnífico livro O Lobo da Estepe, classifica os artistas em duas categorias: os "trágicos" e os "olímpicos". Em sua visão, ele denomina de trágicos aqueles artistas que não fazem nenhuma concessão à sua época e ao público, se incendeiam no primeiro embate e ficam iluminando para a eternidade. Alguns deles também são chamados de "malditos". Hesse cita somente Mozart (na música), e eu citaria como exemplos: Caravaggio, Van Goh, Gauguin, Modigliani (na pintura); François Villon, Edgar Allan Poe, Isidore Ducasse (Lautrèamont) e Arthur Rimbaud, Oscar Wilde, na literatura. Artistas a quem bastou falecerem para começar a sua escalada para o sucesso, isto é, para a glória póstuma e duradoura. Quanto aos "olimpicos" assim denominados por Hesse, estão aqueles artistas fecundos, que segundo ele descobriraram o "humor". Hesse define o humor, assim, de modo paradoxal: "A mais genial criação da humanidade, o humor é sempre um tanto burguês, embora o verdadeiro burguês seja incapaz de tê-lo". O humor, para Hesse, consiste, ao meu ver , numa espécie de cínica concessão: "Viver no mundo como se não fosse o mundo; respeitar a lei e os costumes, todavia se alçando intimamente acima e além deles". Os artistas que descobrem o humor são imediatamente acolhidos pela sociedade e recebem grantes tributos e recompensas (como disse Salvador Dalí a respeito de si mesmo): "...de repente uma chuva de papéis verdes caiu sobre mim". Entre esses artistas estãos os que conseguiram grande sucesso, realização, e até riqueza material em vida. E são inúmeros. Eu poderia citar, como exemplos de sucesso em vida: Ticiano, Michelângelo, Rafael (Leonardo está mais para um trágico), Bernini, Rubens, Turner, Millais, Alma-Tadema, Bouguereau, Corot, Manet, Monet, Sargent, Boldini, Degas, Renoir, etc... No século XX: Picasso, Braque, Matisse, Chagall, Dalí, Bacon, Lucien Freud, Balthus, Portinari, Di Cavalcanti. Brecheret, etc. Na literatura: Voltaire, Goethe, Jules Verne, Victor Hugo, Charles Dykens, Wells, Lewis Carroll, Bernard Shaw, Mark Twain, Jack London, Hemingway, Steinbeck Fitzgerald, Tenesse Williams, Salinger... No Brasil : Machado de Assis, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Cecília Meirelles,... não tem fim o número de artistas que atingiram enorme sucesso em vida, e se contam aos milhares em todas as artes. Mas eu gostaria de citar, complementarmente, a espantosa explicação do psicanalista Carl Jung desse fenômeno do sucesso material e existencial, ou do fracasso, com uma decorréncia de um fator na sua "Teoria dos Arquétipos". Todos nós, humanos, temos pelo menos cinco arquétipos no nosso inconsciente profundo: a anima, o animus, o velho sábio, a criança e a sombra (estranhamente Jung os denomina assim, em minúsculas). Mas, no que concerne ao sucesso ou ao fracasso material nas Artes, os arquétipos responsáveis são a anima e o animus. Da anima derivam as qualidades feminimas: o amor, o erotismo, a maternalidade, a devoção, a pazes de prover o seu sustento pelo rebaixamento das qualidades do animus, morrem literalmsensibilidade, a criação artística, etc. Do animus derivam o pai, o provedor, o guerreiro, o aventureiro, o explorador , o navegante, o construtor, o comerciante, etc. Portanto o equilíbrio da personalidade consiste na harmonia interna profunda entre anima e animus na alma do ser humano. Muitos artistas, fecundos e criativos, se concentram tanto no âmbito da anima, que ficam (como dizia Jung) "anima possuídos", sofrendo um rebaixamento do animus. Tais artistas, conquanto geniais, ficam impossibilitados de" vender o seu peixe", isto é, a sua arte. Incaente de fome, na miséria no meio de seus tesouros. É o caso dos chamados "trágicos", de Hesse.
Assim vejo as coisas, eu, que como artista me debato entre a anima e o animus, contemplado que fui pela descoberta de minha anima viva, a poetisa e prosadora Alma Welt, que desde 2001 derrama sobre mim a sua prolífica e profícua obra literária, seu rico universo feminino, culto, pleno, encantador, universal... que não me rende um centavo, e ao qual me devoto, surpreso, gratificado, e finalmente... feliz.
(Guilherme de Faria)
21/11/2023
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