Friday, July 7, 2023

O TITANIC DE TODOS NÓS

Penso que todas as pessoas que conhecemos durante a nossa vida são nossos companheiros de viagem e tripulantes de um grande navio invisível, superlotado também pelos espectros dos personagens reais ou fictícios que acalentamos pela cultura e pela imaginação. Assim, a maior ilusão é a de que estamos sós, e quando isso nos ocorre é porque nos trancamos egoisticamente num camarote interior, incapazes de fruir nossa viagem, nosso cruzeiro pelo oceano da vida (perdoem a imagem gasta) pelo receio de sua amplidão ou da ameaça das grandes ondas ou dos icebergs. Sim, quase todos nos identificamos com a história do Titanic pois ela se funde ao inconsciente coletivo do Ocidente, como metáfora da nossa aventura humana, com o seu final ironicamente trágico diante da nossa arrogância ou da nossa frivolidade. Entretanto, confesso, que se heróis há naquela história para mim, são os músicos que continuaram tocando serenamente até o fim, até o tombadilho se inclinar, despejando-os, afinal, como a todos os outros nas águas geladas.
Eis aí a nossa missão como artistas: produzir um fundo musical ou um réquiem, um cenário pintado, um epitáfio poético ou então, melhor ainda, uma ode a nós mesmos, à nossa humanidade, afinal heroica por simplesmente continuar vivendo... diante do Grande Desconhecido.
(Guilherme de Faria)
07/07/2023

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