Thursday, October 26, 2023

Já contei aqui no face há muitos anos, que saindo de casa por orgulho, com dezenove anos, eu, vindo da classe média, sem um tostão no bolso, praticamente passando fome, desesperado, por sugestão de alguém procurei emprego na DPZ esperando ser pelo menos desenhista de publicidade, isto é, "layoutman", cargo de que me informaram o nome que eu nem conhecia. Ao entrar na redação ou sala de projetos, com uma pesada pasta de desenhos mas sem currículo nenhum, os desenhistas, curiosos, levantaram de suas mesas e me instaram a abri-la, talvez para tripudiarem, não sei... Mas o que ocorreu foi um assombro geral e uma chuva de elogios sinceros aos meus desenhos, na verdade, já maduros e muito pessoais no traço e no universo temático. Entretanto, um deles, que soube depois ser um dos donos e chamar-se Petit, um catalão, com visível inveja e até raiva, me disse na frente de todos: "Rapaz, que adianta isso tudo? Você não sabe de que depois de Picasso não há mais desenho? Ele já fez tudo! Você pode rasgar essa pasta inteira, depois de Picasso não é mais possível desenhar!"
Eu fiquei perplexo e mudo, constrangido, mas não convencido da verdade daquelas palavras de ressentimento e frustração íntima de outro artista, muito mais velho, rico e desiludido, depois eu soube. Então fui chamado à sala de outro diretor e sócio, o artista espanhol Zaragosa, e este teve uma atitude respeitosa e benevolente... disse: "Rapaz, seu desenho é muito bom, mas são obras de arte autônomas, aqui a gente tem que fazer o que o cliente pede. Se você precisa trabalhar posso empregá-lo mas você terá de começar de baixo, na sala de "pestup", colando papel em papelão. Mas diante do seu talento, se você puder evitar, evite, a publicidade é um caminho sem volta."
Diante dessas palavras de verdadeira franqueza e secreto estímulo, eu lhe estendi a mão, agradecido, e fui embora. Nunca mais procurei emprego e fui passar fome por mais alguns anos, a chamada *"fase heróica do artista", até começar lentamente a arribar...
(Guilherme de Faria)
25/10/2023
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Nota
* "fase heróica do artista" - essa expressão de nítida conotação romântica, na verdade é bastante irônica. Seria mais correto chamá-la de "fase maldita", pois quase sempre contaminada pelo excesso, pela luxúria e pelo álcool. No meu caso pessoal, por exemplo, eu somente suportei tantos anos de miséria e humilhação regando-os a álcool, isto é, amortecendo-os, anestesiando-me, essa é que é a verdade. É curioso notar que para se embebedar ninguém precisa de dinheiro próprio. Mas, atenção, não estou me queixando de nada. Meu amor à Arte, à minha própria Arte, me compensou de tudo. E me recompensou...

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