Sunday, January 17, 2021

Imaturidade Emocional (das Memórias de Guilherme de Faria)

Quando eu já estava na minha meia-idade, começo tardio, na verdade, do meu amadurecimento emocional comecei a prestar atenção a este tópico, assunto que a meu ver devia ser da alçada da melhor psicologia. Notei então, que, de um modo geral, muitas pessoas, homens e mulheres permanecem imaturos emocionalmente, quero dizer, crianças ou adolescentes no plano emocional, muitos até o fim da vida. Isto é, na verdade, patético, e frequentemente até motivo de tragédias (muitos assassinatos são nitidamente causados pelos efeitos diretos ou secundários da imaturidade emocional). Essa síndrome, por assim dizer, associada a uma evolução natural da inteligência enquanto vivência ou experiência (frequentemente até de uma cultura avançada adquirida) produz um desequilíbrio na personalidade do individuo, causador de graves neuroses, ou mesmo tendência à depressão, e sendo certamente característica comum a todos os alcoólatras. Uma pessoa pode ser muito inteligente e até culta e ter uma vida emocional defasada, com reações emocionais adolescentes ou mesmo infantis.
Sempre reparei nessa característica em quase todas as mulheres atraentes que conheci na vida, e em todas as com que convivi casado por diferentes períodos íntimos. As mulheres amadurecidas emocionalmente, na nossa sociedade machista tendem a ser identificadas com certas profissões intimidantes, como diretoras de empresas ou de escolas, as madres superioras, as gerentes de Bancos, as juízas e advogadas, políticas, as médicas, as psicanalistas... as autoridades em geral. A propósito, me lembrei de quando numa época eu estava lendo o Rimbaud, impressionado com a inteligência e talento do poeta adolescente de 17 anos, em conversa com minha mãe num almoço em casa dela, citei dele uma frase, ao que parece incomodamente famosa: "Aimer des femmes intelligentes c'est un affaire de péderaste." ("Gostar de mulheres inteligentes é coisa de pederasta") boutade controversa com pequenas variações atribuída também a Charles Baudelaire e até ao irlandês-britânico Oscar Wilde (nesse caso por quê seria tipicamente francesa?) Minha mãe, feminista ferrenha da segunda onda, leitora de Simone de Beauvoir no original, se arrepiou toda e exclamou "Iiiii!! Que fase mais machissssta!!!" Eu fiquei perplexo, mudo, por minha vez chocado, porque pensei que ela acharia graça, que captaria o humor da frase, insuspeita vinda de um poeta, ele mesmo um homossexual, suspeito isto sim, de tê-lo sido à maneira grega clássica, somente na transição da adolescência para a vida adulta (depois dos vinte anos Rimbaud foi ser traficantes de armas na África, tentando vender fuzis para o Ras Ménelik, da Etiópia, pelo qual foi roubado, e voltou de mãos abanando (aventureirismo imaturo?).
Mas voltando ao encanto infantil das mulheres , principalmente nas bonitas e "sexy", como dizem os americanos, no cinema de Hollywood personificadas em Marilyn Monroe, e na Europa em Brigitte Bardot como o "triunfo da femme enfant" (título de um quadro de Salvador Dalí), eu confesso que sempre me atraí sexualmente apenas pelas mulheres inteligentes e imaturas, consequentemente algumas delas com tendência à adicção.
Poderíamos então dizer que a atração masculina pela mulher emocionalmente imatura denuncia um instinto pedófilo oculto na maioria dos homens? Desconfio que sim, embora a pedofilia seja um tabu na nossa sociedade, tão grave quanto o incesto....

A relação pai e filha já foi apontada pela psicanálise como de fundo incestuoso ainda que remoto. Tal conceito pode chocar as boas famílias, mas é um fato muitas vezes observável a olho nu. Por outro lado, nos EUA a imaturidade dos adolescentes, com sua permissão para dirigir com dezesseis anos e a facilidade de comprar armas pelo correio, o acesso fácil ao álcool dos pais, malgrado a proibição de beber álcool até a maioridade, é uma fórmula conhecida de muitos crimes acontecidos por lá, inclusive de assassinato dos próprios pais, muito comum naquele país, coisa que no Brasil, chocou a população como grande novidade com o caso Susana Richsthofen. Em muitas vezes estão relacionados com uma distorção do caso de Romeu e Julieta. Bem... como sabemos, os EUA são um país superlativo: lá existe de tudo em grande quantidade.
Ainda a propósito da imaturidade emocional persistente, a presença da menina em mulheres maduras e até velhas, devo contar um episódio que diz respeito outra vez à minha mãe:
Quando em 1993, eu com 51 anos, portanto em plena Idade do Lobo, estava morando no meu pequeno apartamento-ateliê com Vania, uma garota de 33 anos, no seu auge, muito trabalhadora, excelente profissional das artes gráficas aplicadas, muito chegada ao álcool nos fins de semana (eu abandonara o álcool em 1981), muito independente, que saíra da casa paterna grávida aos 16 anos e nunca mais voltara. Apaixonado, eu convidei minha mãe, dona Helena (uma senhora sábia e aparentemente amadurecida de 80 anos) para conhecê-la. Qual não foi a minha surpresa, quando minha mãe, chegando, teve pela Vania uma atração imediata, até uma sintonia inesperada, e de repente as vi encantadas uma com a outra, sentadas na beira da minha cama-sumiê do ateliê conversando coisas femininas comezinhas, como duas garotinhas, um tempão, coisas que nada tinham a ver comigo ou com a nossa relação. Elas tinham se identificado instantaneamente, à primeira vista, uma com a outra de uma maneira profunda, inusitada para mim. Não interferi, claro, e perplexo fiquei observando. Eu via nitidamente duas pré-adolescentes falando de encantadas ninharias, algo insuspeitado que eu nunca percebera antes em minha mãe, que passava por ser uma pessoa muito culta, sábia e madura, até uma filósofa, adepta da Yoga, que estudava e praticava em sua casa. Essa era imagem que todos, filhos, família e amigos tínhamos dela: de grande matriarca. Ao dar por terminada a visita e Dona Helena se despedir da minha namorada com abraços e beijos e sair contente, com aparência de total aprovação mútua, Vania me disse séria, até um pouco agressiva, como uma menininha brava: "Adorei a sua mãe. Ela devia ser minha mãe e não sua!" (!!!)
CONTINUA




No comments:

Post a Comment