Tuesday, December 22, 2020

O menino de rua com a maquininha débito-crédito (mini-crônica de Guilherme de Faria)

Ontem um menino de rua, pretinho e bonito e até bem vestidinho, com uma camisa polo e bermudas, apesar do chinelo de dedo, me ofereceu uns cartões de Natal, com Papai Noel que acende e toca o Jingle Bells (cafoninhas, claro, mas isto não vem ao caso). Eu disse que não tinha dinheiro vivo na carteira e ele me mostrou a maquininha de cartões de débito ou crédito. Admirei-me, passei o cartão débito e comprei os cinco cartões todos iguais que ele tinha, meio caros, para, por minha vez, dar aos porteiros e demais funcionários do meu prédio (depois da doação, claro, do bônus de Natal (não obrigatório, mas por gratidão) do condomínio (os funcionários são maravilhosos no meu prédio, gentis, educados e prestativos há décadas, tive muita sorte).
Mas voltando ao menino de rua, enxerguei nele, com a maquininha, um futuro empreendedor, que digitou habilmente a quantia correta sem hesitar e de primeira. Espero que os meninos de rua, enquanto existirem, se transformem em trabalhadores autônomos, e se possível empreendedores, porque corajosos e desabridos eles sempre foram. Nunca vi uma verdadeira tristeza em seus rostos, mesmo porque, as crianças, graças a Deus, têm uma maior resistência à tristeza, ou talvez uma maior coragem natural, quando nascem pobres. Reparei no rosto do menino dos cartões. Ele era sério mas não triste, e eu de alguma forma fiquei sob esse sutil sortilégio, a ponto de estar escrevendo isto agora, depois de uma noite de sono...
( Guilherme de Faria)

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