Houve uma época, já antiga, no cinema de Hollywood, em que os filmes de cowboy (westerns) celebravam a figura do pistoleiro solitário, tipo Clint Eastwood, ou no cinema japonês o samurai "ronin" (errante sem emprego) tipo Toshiro Mifune. A gente, criança, assistia a esses filmes com admiração e perplexidade, pois achávamos (sem conceituar conscientemente) os justiceiros solitários o topo da humanidade. Mas nossa admiração era sobretudo porque aqueles heróis não conheciam o medo, o medo que, secretamente ou não, nos assombrava diuturnamente. Como tínhamos medo! Eu pelo menos tinha... Medo dos adultos, medo do desconhecido, medo da morte, medo da vida. Mas disfarçávamos tanto e tão bem, que hoje em dia me parece, paradoxalmente, uma espécie de heroísmo infantil.
Como é difícil crescer! Eu saí de casa aos 20 anos, sem tostão, contra a vontade de minha mãe, casado por honra (mas apavorado) com uma garota de 16 anos, grávida. Hoje em dia seria acusado de pedofilia. Tive que crescer na marra para não morrer de fome. Mas não consegui sustentar família e perdi mulher e filha para um rapaz mais apoiado. Mas eu tinha a minha arte, na qual sempre acreditei. Mas devo confessar: a dor era tanta que eu me anestesiava com o álcool com aparente tolerância, que nesse caso é sempre um pacto faustiano, que mais tarde, naturalmente, me seria cobrado...
(Das Memórias de Guilherme de Faria)
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