Tuesday, April 11, 2023

BREVE CRÔNICA SOBRE O TEMPO

O Tempo passou e não consegui detê-lo nem mesmo produzindo uma obra ou mais por dia. Não consegui capturá-lo, e o Tempo riu de mim como era de se esperar, grande sarcástico que ele é... Ah! mas confesso que sempre tive a esperança de rir por último através das obras de arte que espalhei em quantidades obcessivas, pelo menos no que se refere ao setor gráfico, de consumo mais rápido. Sim... eu sei, com o Tempo não adiantam espertezas, ele é irônico por natureza e nos ludibria na sua persona predileta: o Destino. Eu mesmo escrevi estórias sobre isso, como o meu cordel "Romance da Vidência", sobre uma cigana consultada e seu vaticínio duvidoso (tema maravilhosamente abordado pela Clarisse em seu A Hora da Estrela). A verdade é que o Tempo é tão implacável que um grande físico tentou relativizá-lo, não chegando nem perto de neutralizar a sua ironia cruel.
Entretanto, diziam já os gregos que somos filhos de Cronos, o Tempo, um pai devorador de seus filhos. Diziam também, os maravilhosos gregos, que todos nós, bons ou maus iremos descer ao Hades, o mundo das sombras. A verdade é que eles faziam uma ressalva ao destino dos heróis, que poderiam ganhar asas e subir ao Empíreo e sua "ambicionada coroa", morada dos heróis e das almas purificadas. Ah! Sempre uma oportunidade, um prêmio, afinal! Nem tudo está perdido...
Quanto a mim, vivo como Odisseu, na certeza de que o instante de aventura e coragem, mesmo que seja a da modesta ousadia de enfrentar diariamente, não os deuses, mas a simples e desafiadora superfície branca e árida do papel e da tela, já configura uma Eternidade. E rio de satisfação quando consigo domar o vazio, e transformá-lo, de maneira verossímil, num capricho qualquer da minha imaginação...
Mais que isso não nos foi concedido, essa é que é a verdade. Mas já é muito...
(Guilherme de Faria)
11/04/2023

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