Minha riqueza (crônica de Guilherme de Faria)
Quis o meu destino que estes tempos politicamente conturbados e incertos, tão contraditórios e desconcertantes, ao mesmo tempo de paroxismo tecnológico convivendo ou mesmo produzindo uma decadência intelectual, estética e cultural... sim, quis o destino que minha velhice fosse o período mais sereno e livre da minha vida. Devo esclarecer que a minha juventude é que foi conturbada, confusa, atormentada. Eu me sentia, se bem me lembro, metafórica ou simbolicamente como quem se debatesse, como um afogado crônico, cuja sobrevivência exigia um esforço desordenado e anárquico, de braçadas inseguras em águas profundas e escuras. Exagero? Bem... por ser então jovem, bonito, talentoso e produtivo, embora dado ao álcool e à luxúria, eu disfarçava magistralmente o meu afogamento, e passava por estar com o pé no fundo, que na verdade, como todo fundo de poço, estava ainda mais em baixo.
Somente nos últimos vinte e nove anos vivo em paz, sóbrio, retirado e tranquilo como se bom fosse o mundo, e até me dando ao luxo de pintar flores imaginárias, porque nem preciso delas ao vivo, que nem sequer vasos tenho, de qualquer espécie, já que até meus pincéis coloco em latas de leite vazias, das quais apenas tiro o rótulo de papel.
Assim, suponho que se alguém que me visita para comprar uma pintura, sair com relativa boa impressão do meu exíguo e entulhado ateliê, será por um fator subjetivo, porque as pinturas e a catadupa de minhas estórias e memórias o distraíram do pó por toda parte, e da imensa quantidade de livros que agora mais acumulam poeira do que são relidos ou consultados, pois, para mim agora é tempo de escrever, mais do que de ler... e enquanto o esquecimento ou desapego não vêm, de lembrar e repassar meu rico acervo de memórias, única riqueza que acumulei na vida...
Guilherme de Faria
01/03/2022
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