Em 1990, em pleno plano Collor, o dinheiro de todo mundo sequestrado, o mercado de arte desapareceu e a minha profissão de artista plástico (se é que é uma profissão) parecia extinta ou nunca ter existido. A antiga miséria voltou, embora eu continuasse residindo no meu apartamento quitado da rua Oscar Freire, ou seja, numa aparente pobreza dourada. Lembro de meu filho ator, o Tamayo, me visitar faminto, e abrindo a geladeira que fez eco, nada encontrando procurou algo de comer numa prateleira dos armários de cozinha e só encontrou um pote de farinha de trigo. Meteu uma colher, enfiou na boca e fez descer com grandes goles de um copo d'água. Em seguida, virou-se para mim com um sorriso irônico, e disse: "É, pai... há uma certa poesia na pobreza..."
Demos uma grande gargalhada juntos.
Naqueles dias, embora com fome, eu continuava pintando pois por sorte tinha alto meu estoque de tintas, telas e pincéis. Estava também numa fase nova na pintura, que me entusiasmava. Ah! Eu suspendera a minha produção de litografias na Glatt. Foi então que me ligou uma recente amiga de cinco anos antes, que morando em Los Angeles com os filhos estava em São Paulo visitando os pais, e queria me fazer também uma visita no ateliê. Era a Julinha Vidigal, bela moça socialite, que no ano de 1985 chegando para igual visita aos pais, vinda dos EUA onde morava casada com um americano, vira litografias minhas em toda parte: saguões de prédios, residências de amigos, consultórios, etc, e encantada com meu desenho de mulheres tivera a ideia de me procurar para comprar um lote variado de litos minhas que ela teve o palpite de que seriam bem recebidas pelos americanos, quer dizer, venderiam bem, com grande margem de lucro para ela. Naquela ocasião ficamos amigos assim que nos vimos, conversamos muito e ela escolheu, pagou e levou um grande lote de gravuras minhas e não a vi mais nem soube notícias dela por cinco anos. Agora, em 91, estava ela novamente diante de mim no ateliê e, surpresa e desolada, olhando em torno os sinais exteriores de pobreza, me dizia:
"Mas Guilherme, o que é isso? Eu vendi o estoque todo de litos suas facilmente. Os americanos são loucos pelas suas gravuras, pelo seu traço. Alguns já o conheciam, pois ao que que parece a Glatt já vinha exportando você para área de Chicago. Em Wilmette, Illinois, descobri uma Galeria que está trabalhando com as suas gravuras desde 1976, não é? Mas em Los Angeles fui eu que abri o seu mercado. Se você fosse para os Estados Unidos você estaria rico, morando numa bela casa com piscina, como eu..."
-É, Julinha... - respondi sorrindo tristemente - Mas isto é Brasil, agora não tenho dinheiro nem para o ônibus. Nem pra convidar você para um cafezinho ali no Pão de Queijo. (Olha eu sugerindo isso a ela, por sua conta... )
-Guilherme - ela disse- Vamos fazer alguma coisa para solucionar isso. Deixe-me pensar. Eu lhe telefono dentro de alguns dias...
Estávamos no mês de Dezembro e dali a dois dias chegou o meu aniversário, o interfone tocou e o porteiro me disse que haviam entregue na portaria para mim uma grande cesta que ele poria no elevador. Era uma fantástica cesta de suprimentos de luxo: caviar, paté de fois-gras, pães finos variados de tipo italiano e alemão, queijos franceses e suíços, geleias dinamarquesas, frios espanhóis, salmão, também uma garrafa de champagne Veuve Cliquot Brut, que não abri, pois não tocava mais em álcool desde 1981, e presenteei a alguém algum tempo depois. Ah! E flores com um cartão:
"Com os cumprimentos do La Baguette por seu aniversário."
Foi uma festa. O La Baguette era uma espécie sofisticadíssima de loja de conveniência que existia na Haddock Lobo pertinho do meu prédio, mas na qual eu nunca entrara pois não era "pro meu bico". Fiquei sabendo que pertencia a um jovem empresário de nome Guilherme Vidigal, irmão da Julinha. Era um presente dela para mim. Agradeci a ela por telefone e ela reiterou que continuava pensando em algo efetivo para o meu caso.
Mais um dia e ela me telefonou dizendo:
"Guilherme, meu irmão, seu xará, é um empresário, como você deve saber, e um grande namorador. Ele conheceu numa viagem aérea para a Alemanha, onde foi aprender receitas especiais de pães, um mulher germano-brasileira que ele está namorando, que mora em Hamburg e está fazendo um intercâmbio de artistas brasileiros (pintores) que ela leva com patrocínios que ela consegue, para expor individualmente em galerias naquela cidade. Eles estarão no réveillon no iate do meu irmão em Parati, e eu também. Vou aproveitar para falar de você, de sua arte, para ela. Ela é a baronesa Anneliese Von Sanson. Aguarde meu telefonema no dia 2. Beijos, meu querido."
No dia 2 de Janeiro de 1991, recebi um novo telefonema da Julinha Vidigal, que me disse:
" Guilherme, durante o réveillon no iate de meu irmão, fiquei amiga da Anneliese e falei maravilhas de sua arte. Ela me disse que já tinha ouvido falar de você e que estava muito interessada e que iria dali primeiro para o Rio de Janeiro, e depois de dez dias estaria em São Paulo e o procuraria. Fique a postos. Acho que vai dar samba."
Passados dez dias, a Julinha me ligou de manhã cedo me dizendo:
-Guilherme, a Anneliese chega hoje ás 11 horas, em Congonhas, vinda do Rio. Combinei de buscá-la no aeroporto. Vou passar aí com o carro do meu irmão com o motorista dele às 10 horas, para irmos depois direto para o seu ateliê. Fique pronto, chamo pelo interfone.
Quando tocou o interfone, desci com minha pobre melhor roupa e entrei num fabuloso Mercedes Benz com chauffer de uniforme e me sentei no banco de trás ao lado da Julinha que depois de rodado um quarteirão, me disse:
- Guilherme, devo alertá-lo de uma coisa, para você não ser pego de surpresa: Anneliese é a mulher mais bela do mundo! Ela é a cara da Rommy Schneider, só que melhorada...
Fiquei perplexo. Quando uma pessoa diz que alguém é parecida com uma tal belíssima artista de cinema, a gente dá um desconto. Mas, aquilo? Melhorada? Eu fiquei louco para conferir essa Helena de Troia, "o rosto que lançou ao mar mil navios... "
-É, Guilherme - continuou ela - Você vai ver. Quando ela entrar na área da esteira das malas, você já vai vê-la através do vidro. O aeroporto vai parar, você vai ver. Todas as pessoas se voltam para olhá-la.
Eu passei o resto da viagem de carro em expectativa, imaginando, quase sonhando... O que era aquilo? Seria verdade?
Chegando ao aeroporto de Congonhas, fomos logo para a vitrine da sala da esteira das malas, e pus-me atento. O voo esperado do Rio, acabara de chegar. E eu queria conferir se o que a Julinha dissera sobre Anneliese era mesmo verdade.
Passados alguns longos minutos, eu a vi. Eu não podia acreditar nos meus olhos. Por uma porta saiu uma moça alta, de cabelos louros flamejantes e olhos azuis celestiais, um rosto perfeito, realmente parecida com a Rommy Schneider só que muito mais bela; elegantíssima, pernas longas e perfeitas, de salto alto com um passo firme e largo, sem oscilações, como se fosse uma guerreira ou tivesse nascido com aqueles saltos. Com um porte de rainha se aproximou da esteira e apontou sua mala para um carregador solícito que a apanhou e a acompanhou, ela na frente. Olhei em volta e, sim, o aeroporto tinha parado (acreditem se quiserem). Os homens se viravam sem disfarce para olhá-la, enquanto as mulheres a olhavam obliquamente, de cabeça meio baixa, de esguelha, aquele peculiar olhar talvez invejoso, meio de baixo para cima. Sim, estávamos diante da mulher mais bonita do mundo...
Ela saiu daquela sala e veio andando à frente do carregador com sua mala, em minha direção enquanto eu permanecia paralisado na frente dela no meio do saguão. À distância de dez metros de mim, ela abriu os braços como se me reconhecesse, ou melhor, como se me conhecesse de longa data, e caminhando ainda, exclamou com voz cristalina, carinhosa e (pasmem) verdadeira:
" Meu artista!"
E me abraçou forte e carinhosamente. Estranhamente eu me senti velho como o mundo, e com uma secreta vontade de chorar. Mas estava encantado. Fascinado, seduzido...
O carregador colocou a bagagem da Anneliese no porta-mala da Mercedes Benz, recebeu uma gorjeta da rainha, e voltamos em direção aos Jardins, para a minha Oscar Freire, para ela conhecer o meu ateliê com minhas recentes telas a óleo, de nova fase. Viemos conversando, ou melhor, ela falando sobre coisas que não lembro, com uma certa sofisticação cosmopolita, sem nenhum sotaque alemão, na verdade com um acento carioca, ligeiramente grã-fino, que me surpreendeu, já que ela era um exemplo perfeito da melhor beleza germânica. Eu permanecia calado, coisa rara em mim, e não por timidez. Estava apenas... digamos, contemplativo.
Chegando no meu prédio, subimos nós três ao meu modesto ateliê apinhado, onde disparei a mostrar minhas obras tirando-as uma a uma de pilhas contra a parede, além das que estavam penduradas, discorrendo um pouco sobre elas, como um guia chato de museu. Ela olhava tudo com olhar de aprovação e afinal me disse:
"Adorei sua pintura: é linda! Vamos fazer grandes coisas. Vou conseguir patrocínio para fazermos uma exposição só sua em Hamburg. Dentro de dois dias volto à Alemanha. Comunico-me com você de lá. Agora vamos, não é, Julinha? Preciso descansar. Estou exausta."
Deu-me dois beijinhos nas faces e mais um carinhoso abraço e despediu-se. E saiu com a Julinha que permanecera muda o tempo todo.
Eu sentei e fiquei parado por muitos minutos, tentando assimilar tudo aquilo, que me parecia ser bom demais para ser verdade...
Passados mais cinco dias recebi um telefonema interurbano, internacional. Era a Anneliese, lá de Hamburg, que sem sequer se identificar e cumprimentar disse com sua voz aveludada e baixa:
- Guilherme, ouça... (fez-se por muitos segundos uma estranha mudez na ligação) - Ouviu?( ela continuou)- Está começando a nevar aqui, agora, pela primeira vez este ano. Quando começa a cair a neve faz este silêncio, diferente de tudo, nem as aves piam... Comecei a trabalhar por você, logo lhe darei notícias. Continue pintando para nós. Beijo.
Eu que nem estava pintando naquele momento, peguei os pincéis, aplicadamente, meditando sobre as surpresas da minha nova musa, e ataquei uma nova tela em branco.
Passaram-se mais alguns dias e recebi um telefonema da Julinha Vidigal, dizendo:
- Guilherme, falei de você para o meu irmão, seu xará, e ele quer conhecer você. Ele é colecionador de arte e tem muitos quadros de pintores brasileiros famosos. Pediu-me para convidá-lo a conhecer o seu apartamento. Você poderia ir visitá-lo depois da manhã para almoçar com ele ao meio-dia? Sim? Então está marcado. Ele mora na rua da Consolação abaixo da Oscar Freire, perto portanto do seu ateliê, naquele prédio Adolfo Lindemberg, ap n°... Eu não estarei lá, não posso. Mas acho que vocês se darão muito bem, ele conhece muito arte e adora artistas. Bom encontro para vocês.
Julinha desligou e eu continuei a pintar, degustando de antemão aquela futura visita, porque o que eu mais gosto é ver novas pinturas de qualidade na casa das pessoas. Eu fico olhando sem parar as paredes, de maneira nada social quando ocorre eu ser convidado pelos ricos. E nunca fui convidado duas vezes pelo mesmo anfitrião. Embora vindo de família culta, nunca tive aquilo que eles chamam de "traquejo social". Sou talvez ligeiramente "gauche", e costumo falar demasiado de mim mesmo, coisa imperdoável em sociedade...
No dia marcado, dirigi-me às 11:30 hs, a pé pela Oscar Freire para o prédio do ap do meu xará Guilherme Vidigal, irmão da Julinha. Apresentei-me na portaria que interfonou e me foi permitido pegar o elevador. Subi, e quando a porta do elevador abriu, já me vi no interior do ap num hall semicircular com alguns quadros pendurados nas paredes, já ali. Parei para olhar um desenho emoldurado suntuosamente, com vidro, que estava assinado Picasso, horrível, péssimo, inepto, nitidamente para mim uma falsificação grosseira. Fiquei chocado, até prosseguir adentrando a sala, já que não veio imediatamente ninguém me receber, e começar a olhar para quadros verdadeiramente maravilhosos de pintores brasileiros do modernismo. Detive-me diante de um Portinari soberbo, da melhor fase, que eu nunca tinha visto reproduzido em livro nenhum. Em seguida um óleo de Ismael Nery, Bonadei, outros de Tarsila, Pancetti, Cicero Dias, tudo da melhor qualidade desses artistas. Ah! E um pequeno Volpi, de um inusitado e raro nu feminino no banho de rio, expressionista, mas delicado, belíssimo, provavelmente de sua primeira fase, muito anterior à geométrica das bandeirinhas que o consagraram. Eu estava encantado.
Nesse momento, um empregado, secretário ou mordomo, saiu de uma porta de corredor e mal entrando na sala me disse:
"Fique à vontade. O senhor quer alguma coisa, uma bebida, um suco, uma água ? O senhor Guilherme saiu do banho e dentro de mais alguns minutos vai recebê-lo."
Recusei, agradeci e continuei me deliciando com a visão da daquela coleção surpreendente.
Afinal, Guilherme Vidigal entrou na sala, penteado, perfumado, ajeitando os punhos da camisa, como que acabando de se arrumar. Notei que era um belo homem, aliás, bastante bonito, charmoso, mas não muito alto, pareceu-me, com cara de família tradicional mesmo. Estendeu-me a mão que apertei, e ele logo disse:
"Então, xará, está gostando dos quadros?"
Adorei - respondi- principalmente o seu Portinari que é magnífico, de primeira linha, e o nuzinho surpreendente do Volpi. Mas permita-me lhe dizer, talvez lhe advertir: aquele desenho lá no hall não é um Picasso, é uma falsificação péssima, horrenda, nem a assinatura se parece com a dele. Picasso era um grande desenhista e aquele desenho é inepto, de alguém que nem artista é. Você devia tirar aquilo imediatamente de sua parede
.
Guilherme Vidigal sorriu com um sorriso ambíguo, não propriamente irônico e voltou a arguir:
"Então aquele desenho é falso, não é do Picasso, você tem certeza?
-Tenho, absoluta - (eu afirmei) - Um artista sabe quando está na frente de outro ou não. Aquilo é ruim demais. Você deve jogar aquilo fora, ou melhor, reclamar com quem lhe vendeu, talvez processar. Me desculpe a franqueza.
Guilherme, então, sem ficar sem jeito, com o mesmo meio sorriso me disse:
- Você está certo, artista. Aquele desenho foi psicografado na minha frente pelo Gasparetto, você sabe, o médium espírita, que disse que o estava recebendo diretamente do Picasso no além. Então é ruim mesmo... (e sorria).
Rimos juntos, e eu fiquei certo de que ele se livraria logo daquele estrupício fraudulento, que talvez nem estivesse pendurado ali antes, sendo apenas um teste que o colecionador astuto quis me fazer para pegar um outro possível fraudador com quem a sua namorada alemã e sua irmã estivessem talvez se metendo.
Fomos em seguida almoçar em sua sala de jantar, a que ostentava a joia do nu no banho, do Volpi.
Delicioso almoço, servido por empregado diligente e silencioso, e com a simpatia daquele rapaz cheio de savoir-faire cosmopolita, no alto de sua riqueza e sucesso, que ele certamente merecia...
Quando chegou Dezembro de 1991, o mês em que antes do Natal, numa certa data que não lembro, três dias antes da viagem, eu já com passaporte e licença, com passagem aérea da Lufthansa na mão (que chegara pelo Correio) recebi um estranho telefonema de uma amiga que eu não via há uns onze anos:
-Alô, Guilherme? Aqui é a Rosa... Como vai, querido amigo? Tudo bem com você? Quanto tempo, hem? Olha, você sabia que você é o pai do meu filho que está com onze anos?
Dei uma gargalhada, que ela também acompanhou e respondi:
- É, Rosa? Me conta essa história... deve ser divertida.
- Pois é, Guilherme - ela continuou- Imagine que eu, falida com esse plano horroroso do Collor que me fez fechar minha Galeria de Arte no interior onde fui viver, aconselhada por uma amiga entrei afinal na Justiça para conseguir que o pai do meu filho, que é milionário, reconheça a paternidade, e ele que nunca reconheceu o menino que eu criei sozinha, sem ajuda nenhuma, só com o meu trabalho. Ele se recusou novamente, como da primeira vez em que até me humilhou. Diante do processo que iniciei para conseguir as pensões alimentícias devidas acumuladas e despesas médicas e de educação, contratou uma advogada safada que escreveu uma carta ao Juiz, sugerindo a suspeita de que você, Guilherme, é o pai do meu filho, pois quando conheci o... eu, marchand, fechando uma venda de uma tiragem fechada de uma litografia sua para brinde aos clientes da firma do pai dele, onde ele era um diretor - a advogada dizia na carta: "a requisitante vinha de uma relação tempestuosa com o artista Guilherme de Faria, certamente o verdadeiro pai da criança." Que tal?
- Eu ri novamente e disse: Rosa, que pena... seria uma honra para mim se fosse verdade, pois eu soube que seu filho é um menino de ouro, bonito e estudioso (isso era verdade).
- Então, Guilherme, o que eu quero lhe pedir é se você podia comparecer daqui a dez dias perante o Juiz, testemunhando que eu só tive com você uma relação estritamente comercial de marchand com artista a quem encomendei e paguei uma tiragem fechada, exclusiva, de uma lito, e fui vender para aquela firma, ocasião em que conheci o jovem diretor com quem me envolvi e resultou ser o pai do meu filho, e que quando o informei e o chamei à responsabilidade, me humilhou e me expulsou.
- Ah! Rosa... - respondi - De bom grado eu iria, mas acontece que estou de partida depois de amanhã para a Alemanha, onde vou fazer uma Exposição longamente acalentada, já com data marcada para daqui a quatros dias. Já estou com a passagem na mão. Sinto muito não poder ajudá-la. Mas você sabe, já existe um tal exame de DNA, vocês têm toda a chance.
- Não tem importância, Guilherme -(ela disse)- não se preocupe. A advogada safada dele pegou no ar essa ideia vendo um exemplar da sua gravura na parede atrás da mesa dele na empresa, enquanto ele contava a ela como me conheceu. Mas eu me viro. Olhe, vou mandar pelo Correio hoje mesmo, por curiosidade, até para você se divertir, uma cópia da carta da advogada dele ao Juiz. Guilherme, lhe desejo uma boa viagem e sucesso na Exposição, que você merece. Tchau, querido.
- Obrigado, amiga. Eu também lhe desejo sorte e sucesso nesse caso. Você tem todo o direito. Você é uma guerreira, uma batalhadora. Abraço no seu filho que quero um dia conhecer. Tchau. Boa sorte para vocês.
Desliguei o telefone e no dia seguinte recebi pelo correio a tal carta da advogada que guardo desde então no meu arquivo. Não vi a Rosa por mais onze anos anos, até que um dia num Exposição importante de um artista internacional no MASP alguém me chamou e eu me virei era a Rosa, ainda bonita mas madura, com um rapaz muito alto, atlético e belo, que ela me apresentou como o seu filho, e que simpaticíssimo e educado, logo me fez grandes elogios dizendo ser fã da minha arte desde pequeno. Fiquei encantado. A Rosa tivera sorte, o rapaz era mesmo, visivelmente, um "menino de ouro". Soube depois de mais um tempo que a Rosa conseguira judicialmente o reconhecimento da paternidade de seu filho, e que gradualmente o rapaz conquistara o afeto de seu pai que agora se orgulha dele, que se formou em Faculdade e tornou um grande profissional, casou e foi morar nos Estados Unidos, se não me engano. Anos atrás entrei no perfil dele no facebook e fiquei admirado. O rapaz deu certo. Essa foi uma história que acabou bem.
Quanto à minha na Europa, estava começando, e eu ia ao encontro de uma cidade desconhecida, gelada, em pleno inverno, de uma galeria desconhecida, e da minha nova amiga de misteriosa beleza, a marchand e baronesa Anneliese Von Sanson-Himmelstjerna (logo contarei a sua incrível história, que ela me revelou).
A essa altura eu não sabia o que realmente esperar...
Chegou o dia do meu voo e fui de taxi para o aeroporto de Guarulhos. Não me lembro mais do horário nem dos detalhes, nem do longo voo em si. Lembro-me apenas de que a Anneliese estava me esperando no Aeroporto de Hamburg ainda no uniforme elegante de aeromoça da Sala VIP (o tailleur preto e blusa de seda branca da Lufthansa, um paletozinho preto para o frio, e aqueles saltos altos em que ela parecia já ter nascido neles, tal a naturalidade de seu caminhar)... e que me acolheu carinhosamente como sempre.
Era de manhã, estava muito frio, e ela no seu carrinho europeu modesto, minúsculo (nem era um Volkswagem) me levou direto para o seu apartamento, numa rua tranquila, de predinhos todos iguais, sem elevador, e depois de dois lances de escada entramos no seu apartamento bem pequeno, klean, anódino, de sala,cozinha, um quarto e banheiro, nada mais, nenhum quadro, por menor que fosse, nas paredes, nada de decoração. Na minúscula cozinha americana, aberta, o fogão era elétrico, para mim uma novidade. Ah! E aquele indefectível aquecedor tubular à água quente, no chão encostado e ligado numa parede . Pelo menos o ap era quentinho, coisa que absolutamente todos são ou seriam mortais.
Não havia um quarto para mim, nem cama. Saímos e fomos buscar ali perto um sofá-cama que ela encomendara pra mim. Eu olhava tudo com curiosidade, naquela cidade certinha, bem comportada, onde tudo e todos pareciam ser da classe média para cima, muito bem vestidos, quietos e calmos. Tudo muito comezinho, tudo pintado de creme, e uma limpeza incrível: não se via uma ponta de cigarro ou papelzinho nas ruas e calçadas perfeitas sem buracos ou remendos, que davam a impressão de que poderíamos deitar nelas e lambê-las, sem problema.
O sofá-cama posto no lugar, a Anneliese me deu algumas instruções sobre o fogão e saiu novamente para trabalhar na sala VIP do aeroporto e só voltou as dezessete horas quando já estava escuro, e perguntou como foi o o meu dia. Esquentou uma comida semi-pronta para nós naquele estranhamente eficiente fogão e depois sentou-se graciosamente com as pernas em meio-lotus, uma dobrada e outra caída, numa poltrona na frente do meu sofá com a cama já embutida, e disse imperativamente:
- Pronto. Comece a me ensinar tudo sobre arte. Quero apreender. Quero me tornar uma "marchand de tableaux", uma dona de Galeria de Arte. Não sei nada. Comece.
Eu fiquei meio surpreso, mas já suspeitava. Na verdade aquilo para mim era sopa no mel. Eu estava no meu elemento. História da Arte é comigo mesmo, e o meu didatismo me causa prazer quando alguém revela interesse nele, coisa rara, já que não sou professor e fugi da escola, sou um autodidata, não sou formado em nada.
E assim comecei um ritual de todos dias após o jantar das cinco horas, em que eu discorria diante dela toda a História cultural das maiores civilizações, todos os períodos artísticos e literários em ordem histórica cronológica, e fazia isso reparando nos seus lindos olhos azuis que se tornavam infantis, encantadoramente ingênuos e receptivos, mas sabendo que ela não poderia assimilar aquela catadupa de informações, ela, linda mulher inculta, ignorante apesar do seu impressionante savoir-faire cosmopolita mundano, de mulher viajada e experiente da vida prática, a quem nunca antes ocorrera visitar com calma e atenção um grande museu além de sua lojinha.
No dia seguinte à minha chegada e instalação fui com a Anneliese à galeria AMSA onde já estavam os meu quadros. Tinham chegado, retirados do porto e desembalados sem eu saber (a incrível eficiência germânica) e colocados junto às paredes sob a supervisão do dono da Galeria, Herr Axel, que eu nunca tinha visto antes nem em fotografia e a quem fui apresentado ali naquele momento pela Anneliese que seria a nossa intérprete, porque não falo alemão e o meu inglês falado é deficiente, não na pronúncia mas na desenvoltura.
O galerista parecia estar aprovando as obra à medida que as ia observando uma a uma, até que defrontando-se com meu grande tríptico das "Cabeças Metafísicas (vide foto) alterou-se, ficou perturbado, com movimentos de cabeça de desaprovação e gestos de repulsa, até mesmo de indignação, quase gritava: Nein, nein, nein!
Eu, surpreso, perguntei à Anneliese o que estava acontecendo, e ela falando com ele em alemão e ouvindo sua resposta :
"Herr Axel está dizendo que estes quadros não podem ser expostos, que afugentariam seus clientes, e que comprometeriam a Exposição. Que os outros, sim, mas aquele tríptico é ofensivo e de jeito nenhum ele exporia."
Nervoso, perturbado, eu pedi à Anneliese, que traduzisse minhas palavras com fidelidade. Eu disse:
"Eu estou chocado com sua reação, Herr Axel, porque considero este tríptico minha obra mais importante, ou pelo menos a cereja do bolo da Exposição. Eu pensava (diga ele exatamente com estas palavras) que estava na terra do glorioso Expressionismo Alemão: a terra de George Grosz, Otto Dix, Lovis Corinth..."
Anneliese falou para o Herr Axel, em alemão, não com a minha emoção e indignação, claro, mas num tom de voz neutro, enquanto aquele replicou no mesmo tom indignado e agora mais discursivo, que Anneliese traduziu:
" Herr Axel está dizendo que o expressionismo era uma questão estética, que nada tinha das implicações visíveis (!!!) nos meus quadros, e que ( blá, blá,bla! ).... E que, se eu insistisse, nosso trato acabaria ali, não faria a exposição."
Eu tinha vindo de tão longe, com tantos sacrifícios, tinha quarenta telas e dezenas de desenhos emoldurados para expor, obras que me orgulhavam e que me custaram anos de trabalho, os últimos dois anos sob miséria e fome. Abri os braços e com um suspiro deixei-os cair, rendido: aceitava retirar aquelas três telas da Exposição, que foram imediatamente para o depósito da Galeria.
Mas, o público não daria pela falta delas? Estavam já reproduzidas na primeira página do catálogo após o texto bilingue. Não tardei a perceber a partir da abertura da Exposição, que o público alemão de galeria, era igualzinho ao brasileiro, polido, discreto, civilizado e neutro, quase abúlico.
No "vernissage" conversam muito uns com os outros, socialmente, com as taças na mão. O artista raramente consegue saber o que aquele senhores e senhoras bem vestidos estão pensando apenas com os usuais elogios convencionas de alguns, diretos ao artista com um cumprimento de mão, enquanto a crítica especializada no dia seguinte nos jornais, cheia de pedantismo e termos técnicos nem de longe os representa...
Eu que nem estava pintando naquele momento, peguei os pincéis, aplicadamente, meditando sobre as surpresas da minha nova musa, e ataquei uma nova tela em branco.
Passaram-se mais alguns dias e recebi um telefonema da Julinha Vidigal, dizendo:
- Guilherme, falei de você para o meu irmão, seu xará, e ele quer conhecer você. Ele é colecionador de arte e tem muitos quadros de pintores brasileiros famosos. Pediu-me para convidá-lo a conhecer o seu apartamento. Você poderia ir visitá-lo depois da manhã para almoçar com ele ao meio-dia? Sim? Então está marcado. Ele mora na rua da Consolação abaixo da Oscar Freire, perto portanto do seu ateliê, naquele prédio Adolfo Lindemberg, ap n°... Eu não estarei lá, não posso. Mas acho que vocês se darão muito bem, ele conhece muito arte e adora artistas. Bom encontro para vocês.
Julinha desligou e eu continuei a pintar, degustando de antemão aquela futura visita, porque o que eu mais gosto é ver novas pinturas de qualidade na casa das pessoas. Eu fico olhando sem parar as paredes, de maneira nada social quando ocorre eu ser convidado pelos ricos. E nunca fui convidado duas vezes pelo mesmo anfitrião. Embora vindo de família culta, nunca tive aquilo que eles chamam de "traquejo social". Sou talvez ligeiramente "gauche", e costumo falar demasiado de mim mesmo, coisa imperdoável em sociedade...
No dia marcado, dirigi-me às 11:30 hs, a pé pela Oscar Freire para o prédio do ap do meu xará Guilherme Vidigal, irmão da Julinha. Apresentei-me na portaria que interfonou e me foi permitido pegar o elevador. Subi, e quando a porta do elevador abriu, já me vi no interior do ap num hall semicircular com alguns quadros pendurados nas paredes, já ali. Parei para olhar um desenho emoldurado suntuosamente, com vidro, que estava assinado Picasso, horrível, péssimo, inepto, nitidamente para mim uma falsificação grosseira. Fiquei chocado, até prosseguir adentrando a sala, já que não veio imediatamente ninguém me receber, e começar a olhar para quadros verdadeiramente maravilhosos de pintores brasileiros do modernismo. Detive-me diante de um Portinari soberbo, da melhor fase, que eu nunca tinha visto reproduzido em livro nenhum. Em seguida um óleo de Ismael Nery, Bonadei, outros de Tarsila, Pancetti, Cicero Dias, tudo da melhor qualidade desses artistas. Ah! E um pequeno Volpi, de um inusitado e raro nu feminino no banho de rio, expressionista, mas delicado, belíssimo, provavelmente de sua primeira fase, muito anterior à geométrica das bandeirinhas que o consagraram. Eu estava encantado.
Nesse momento, um empregado, secretário ou mordomo, saiu de uma porta de corredor e mal entrando na sala me disse:
"Fique à vontade. O senhor quer alguma coisa, uma bebida, um suco, uma água ? O senhor Guilherme saiu do banho e dentro de mais alguns minutos vai recebê-lo."
Recusei, agradeci e continuei me deliciando com a visão da daquela coleção surpreendente.
Afinal, Guilherme Vidigal entrou na sala, penteado, perfumado, ajeitando os punhos da camisa, como que acabando de se arrumar. Notei que era um belo homem, aliás, bastante bonito, charmoso, mas não muito alto, pareceu-me, com cara de família tradicional mesmo. Estendeu-me a mão que apertei, e ele logo disse:
"Então, xará, está gostando dos quadros?"
Adorei - respondi- principalmente o seu Portinari que é magnífico, de primeira linha, e o nuzinho surpreendente do Volpi. Mas permita-me lhe dizer, talvez lhe advertir: aquele desenho lá no hall não é um Picasso, é uma falsificação péssima, horrenda, nem a assinatura se parece com a dele. Picasso era um grande desenhista e aquele desenho é inepto, de alguém que nem artista é. Você devia tirar aquilo imediatamente de sua parede
.
Guilherme Vidigal sorriu com um sorriso ambíguo, não propriamente irônico e voltou a arguir:
"Então aquele desenho é falso, não é do Picasso, você tem certeza?
-Tenho, absoluta - (eu afirmei) - Um artista sabe quando está na frente de outro ou não. Aquilo é ruim demais. Você deve jogar aquilo fora, ou melhor, reclamar com quem lhe vendeu, talvez processar. Me desculpe a franqueza.
Guilherme, então, sem ficar sem jeito, com o mesmo meio sorriso me disse:
- Você está certo, artista. Aquele desenho foi psicografado na minha frente pelo Gasparetto, você sabe, o médium espírita, que disse que o estava recebendo diretamente do Picasso no além. Então é ruim mesmo... (e sorria).
Rimos juntos, e eu fiquei certo de que ele se livraria logo daquele estrupício fraudulento, que talvez nem estivesse pendurado ali antes, sendo apenas um teste que o colecionador astuto quis me fazer para pegar um outro possível fraudador com quem a sua namorada alemã e sua irmã estivessem talvez se metendo.
Fomos em seguida almoçar em sua sala de jantar, a que ostentava a joia do nu no banho, do Volpi.
Delicioso almoço, servido por empregado diligente e silencioso, e com a simpatia daquele rapaz cheio de savoir-faire cosmopolita, no alto de sua riqueza e sucesso, que ele certamente merecia...
Quando chegou Dezembro de 1991, o mês em que antes do Natal, numa certa data que não lembro, três dias antes da viagem, eu já com passaporte e licença, com passagem aérea da Lufthansa na mão (que chegara pelo Correio) recebi um estranho telefonema de uma amiga que eu não via há uns onze anos:
-Alô, Guilherme? Aqui é a Rosa... Como vai, querido amigo? Tudo bem com você? Quanto tempo, hem? Olha, você sabia que você é o pai do meu filho que está com onze anos?
Dei uma gargalhada, que ela também acompanhou e respondi:
- É, Rosa? Me conta essa história... deve ser divertida.
- Pois é, Guilherme - ela continuou- Imagine que eu, falida com esse plano horroroso do Collor que me fez fechar minha Galeria de Arte no interior onde fui viver, aconselhada por uma amiga entrei afinal na Justiça para conseguir que o pai do meu filho, que é milionário, reconheça a paternidade, e ele que nunca reconheceu o menino que eu criei sozinha, sem ajuda nenhuma, só com o meu trabalho. Ele se recusou novamente, como da primeira vez em que até me humilhou. Diante do processo que iniciei para conseguir as pensões alimentícias devidas acumuladas e despesas médicas e de educação, contratou uma advogada safada que escreveu uma carta ao Juiz, sugerindo a suspeita de que você, Guilherme, é o pai do meu filho, pois quando conheci o... eu, marchand, fechando uma venda de uma tiragem fechada de uma litografia sua para brinde aos clientes da firma do pai dele, onde ele era um diretor - a advogada dizia na carta: "a requisitante vinha de uma relação tempestuosa com o artista Guilherme de Faria, certamente o verdadeiro pai da criança." Que tal?
- Eu ri novamente e disse: Rosa, que pena... seria uma honra para mim se fosse verdade, pois eu soube que seu filho é um menino de ouro, bonito e estudioso (isso era verdade).
- Então, Guilherme, o que eu quero lhe pedir é se você podia comparecer daqui a dez dias perante o Juiz, testemunhando que eu só tive com você uma relação estritamente comercial de marchand com artista a quem encomendei e paguei uma tiragem fechada, exclusiva, de uma lito, e fui vender para aquela firma, ocasião em que conheci o jovem diretor com quem me envolvi e resultou ser o pai do meu filho, e que quando o informei e o chamei à responsabilidade, me humilhou e me expulsou.
- Ah! Rosa... - respondi - De bom grado eu iria, mas acontece que estou de partida depois de amanhã para a Alemanha, onde vou fazer uma Exposição longamente acalentada, já com data marcada para daqui a quatros dias. Já estou com a passagem na mão. Sinto muito não poder ajudá-la. Mas você sabe, já existe um tal exame de DNA, vocês têm toda a chance.
- Não tem importância, Guilherme -(ela disse)- não se preocupe. A advogada safada dele pegou no ar essa ideia vendo um exemplar da sua gravura na parede atrás da mesa dele na empresa, enquanto ele contava a ela como me conheceu. Mas eu me viro. Olhe, vou mandar pelo Correio hoje mesmo, por curiosidade, até para você se divertir, uma cópia da carta da advogada dele ao Juiz. Guilherme, lhe desejo uma boa viagem e sucesso na Exposição, que você merece. Tchau, querido.
- Obrigado, amiga. Eu também lhe desejo sorte e sucesso nesse caso. Você tem todo o direito. Você é uma guerreira, uma batalhadora. Abraço no seu filho que quero um dia conhecer. Tchau. Boa sorte para vocês.
Desliguei o telefone e no dia seguinte recebi pelo correio a tal carta da advogada que guardo desde então no meu arquivo. Não vi a Rosa por mais onze anos anos, até que um dia num Exposição importante de um artista internacional no MASP alguém me chamou e eu me virei era a Rosa, ainda bonita mas madura, com um rapaz muito alto, atlético e belo, que ela me apresentou como o seu filho, e que simpaticíssimo e educado, logo me fez grandes elogios dizendo ser fã da minha arte desde pequeno. Fiquei encantado. A Rosa tivera sorte, o rapaz era mesmo, visivelmente, um "menino de ouro". Soube depois de mais um tempo que a Rosa conseguira judicialmente o reconhecimento da paternidade de seu filho, e que gradualmente o rapaz conquistara o afeto de seu pai que agora se orgulha dele, que se formou em Faculdade e tornou um grande profissional, casou e foi morar nos Estados Unidos, se não me engano. Anos atrás entrei no perfil dele no facebook e fiquei admirado. O rapaz deu certo. Essa foi uma história que acabou bem.
Quanto à minha na Europa, estava começando, e eu ia ao encontro de uma cidade desconhecida, gelada, em pleno inverno, de uma galeria desconhecida, e da minha nova amiga de misteriosa beleza, a marchand e baronesa Anneliese Von Sanson-Himmelstjerna (logo contarei a sua incrível história, que ela me revelou).
A essa altura eu não sabia o que realmente esperar...
Chegou o dia do meu voo e fui de taxi para o aeroporto de Guarulhos. Não me lembro mais do horário nem dos detalhes, nem do longo voo em si. Lembro-me apenas de que a Anneliese estava me esperando no Aeroporto de Hamburg ainda no uniforme elegante de aeromoça da Sala VIP (o tailleur preto e blusa de seda branca da Lufthansa, um paletozinho preto para o frio, e aqueles saltos altos em que ela parecia já ter nascido neles, tal a naturalidade de seu caminhar)... e que me acolheu carinhosamente como sempre.
Era de manhã, estava muito frio, e ela no seu carrinho europeu modesto, minúsculo (nem era um Volkswagem) me levou direto para o seu apartamento, numa rua tranquila, de predinhos todos iguais, sem elevador, e depois de dois lances de escada entramos no seu apartamento bem pequeno, klean, anódino, de sala,cozinha, um quarto e banheiro, nada mais, nenhum quadro, por menor que fosse, nas paredes, nada de decoração. Na minúscula cozinha americana, aberta, o fogão era elétrico, para mim uma novidade. Ah! E aquele indefectível aquecedor tubular à água quente, no chão encostado e ligado numa parede . Pelo menos o ap era quentinho, coisa que absolutamente todos são ou seriam mortais.
Não havia um quarto para mim, nem cama. Saímos e fomos buscar ali perto um sofá-cama que ela encomendara pra mim. Eu olhava tudo com curiosidade, naquela cidade certinha, bem comportada, onde tudo e todos pareciam ser da classe média para cima, muito bem vestidos, quietos e calmos. Tudo muito comezinho, tudo pintado de creme, e uma limpeza incrível: não se via uma ponta de cigarro ou papelzinho nas ruas e calçadas perfeitas sem buracos ou remendos, que davam a impressão de que poderíamos deitar nelas e lambê-las, sem problema.
O sofá-cama posto no lugar, a Anneliese me deu algumas instruções sobre o fogão e saiu novamente para trabalhar na sala VIP do aeroporto e só voltou as dezessete horas quando já estava escuro, e perguntou como foi o o meu dia. Esquentou uma comida semi-pronta para nós naquele estranhamente eficiente fogão e depois sentou-se graciosamente com as pernas em meio-lotus, uma dobrada e outra caída, numa poltrona na frente do meu sofá com a cama já embutida, e disse imperativamente:
- Pronto. Comece a me ensinar tudo sobre arte. Quero apreender. Quero me tornar uma "marchand de tableaux", uma dona de Galeria de Arte. Não sei nada. Comece.
Eu fiquei meio surpreso, mas já suspeitava. Na verdade aquilo para mim era sopa no mel. Eu estava no meu elemento. História da Arte é comigo mesmo, e o meu didatismo me causa prazer quando alguém revela interesse nele, coisa rara, já que não sou professor e fugi da escola, sou um autodidata, não sou formado em nada.
E assim comecei um ritual de todos dias após o jantar das cinco horas, em que eu discorria diante dela toda a História cultural das maiores civilizações, todos os períodos artísticos e literários em ordem histórica cronológica, e fazia isso reparando nos seus lindos olhos azuis que se tornavam infantis, encantadoramente ingênuos e receptivos, mas sabendo que ela não poderia assimilar aquela catadupa de informações, ela, linda mulher inculta, ignorante apesar do seu impressionante savoir-faire cosmopolita mundano, de mulher viajada e experiente da vida prática, a quem nunca antes ocorrera visitar com calma e atenção um grande museu além de sua lojinha.
No dia seguinte à minha chegada e instalação fui com a Anneliese à galeria AMSA onde já estavam os meu quadros. Tinham chegado, retirados do porto e desembalados sem eu saber (a incrível eficiência germânica) e colocados junto às paredes sob a supervisão do dono da Galeria, Herr Axel, que eu nunca tinha visto antes nem em fotografia e a quem fui apresentado ali naquele momento pela Anneliese que seria a nossa intérprete, porque não falo alemão e o meu inglês falado é deficiente, não na pronúncia mas na desenvoltura.
O galerista parecia estar aprovando as obra à medida que as ia observando uma a uma, até que defrontando-se com meu grande tríptico das "Cabeças Metafísicas (vide foto) alterou-se, ficou perturbado, com movimentos de cabeça de desaprovação e gestos de repulsa, até mesmo de indignação, quase gritava: Nein, nein, nein!
Eu, surpreso, perguntei à Anneliese o que estava acontecendo, e ela falando com ele em alemão e ouvindo sua resposta :
"Herr Axel está dizendo que estes quadros não podem ser expostos, que afugentariam seus clientes, e que comprometeriam a Exposição. Que os outros, sim, mas aquele tríptico é ofensivo e de jeito nenhum ele exporia."
Nervoso, perturbado, eu pedi à Anneliese, que traduzisse minhas palavras com fidelidade. Eu disse:
"Eu estou chocado com sua reação, Herr Axel, porque considero este tríptico minha obra mais importante, ou pelo menos a cereja do bolo da Exposição. Eu pensava (diga ele exatamente com estas palavras) que estava na terra do glorioso Expressionismo Alemão: a terra de George Grosz, Otto Dix, Lovis Corinth..."
Anneliese falou para o Herr Axel, em alemão, não com a minha emoção e indignação, claro, mas num tom de voz neutro, enquanto aquele replicou no mesmo tom indignado e agora mais discursivo, que Anneliese traduziu:
" Herr Axel está dizendo que o expressionismo era uma questão estética, que nada tinha das implicações visíveis (!!!) nos meus quadros, e que ( blá, blá,bla! ).... E que, se eu insistisse, nosso trato acabaria ali, não faria a exposição."
Eu tinha vindo de tão longe, com tantos sacrifícios, tinha quarenta telas e dezenas de desenhos emoldurados para expor, obras que me orgulhavam e que me custaram anos de trabalho, os últimos dois anos sob miséria e fome. Abri os braços e com um suspiro deixei-os cair, rendido: aceitava retirar aquelas três telas da Exposição, que foram imediatamente para o depósito da Galeria.
Mas, o público não daria pela falta delas? Estavam já reproduzidas na primeira página do catálogo após o texto bilingue. Não tardei a perceber a partir da abertura da Exposição, que o público alemão de galeria, era igualzinho ao brasileiro, polido, discreto, civilizado e neutro, quase abúlico.
No "vernissage" conversam muito uns com os outros, socialmente, com as taças na mão. O artista raramente consegue saber o que aquele senhores e senhoras bem vestidos estão pensando apenas com os usuais elogios convencionas de alguns, diretos ao artista com um cumprimento de mão, enquanto a crítica especializada no dia seguinte nos jornais, cheia de pedantismo e termos técnicos nem de longe os representa...
Já apaziguados, começamos a pendurar as obras, Anneliese visivelmente aliviada por eu ter me rendido... ela, que por momentos, como eu, quase viu a viola em cacos...
A propósito, o nome do dono da AMSA-Galerie era Axel Michael Sallowsky. Agora passadas quase três décadas vendo o nome completo dele no catálogo, me dei conta, pelo sobrenome, de que o Axel deve ser judeu. Isso explica muita coisa... Foi um grande mal entendido. Ele deve ter interpretado as minhas Cabeças Metafísicas como sendo cabeças decapitadas de judeus dos campos de concentração, quando, juro, eu nem pensei nisso, ou foi inconsciente e por pura empatia trágica. Mas aquelas imagens causaram horror a ele, e certamente causariam também ao público da galeria mesmo que este fosse na maioria "ariano". Devo ter despertado a antipatia daquele homem, que pode ter-me confundido com antissemita, ainda mais chegando lá com uma beldade tipicamente germânica e meus quadros de mulheres apresentarem os olhos sempre azuis. Agora com grande atraso, as coisas estão ficando claras para mim... Que grande "imbroglio!!..
Quanto ao tríptico da Cabeças Metafisicas, essa obra continuou a sua saga, que aproveito para contar agora, como um parênteses interrompendo um pouco a minha história da Mulher Mais Bela do Mundo.
Como achei que nenhum particular teria coragem de comprá-las e botá-las na parede, em 1992 depois de expô-las numa coletiva importante na FAAP eu as ofereci ao Museu de Arte Brasileira daquela instituição em troca das mensalidades dos dois últimos anos da faculdade da minha filha Rhena que cursava Artes Cênicas naquela Faculdade. Uma comissão julgou e aprovou a minha proposta, que faria essa minha obra pertencer ao acervo permanente daquele museu que já possuía dez litografias minhas desde 1974. Então, tendo eu dado para a Jomara, uma ex (que estava casada já havia muitos anos com o meu amigo Flavio Pacheco) um catálogo da exposição da Alemanha onde estão reproduzidas, um cliente dela, o fotógrafo profissional Fernando Carriere, viu meu catálogo e perguntou:
"Estes aqui estão venda? Eu quero eles."
A Jomara me telefonou imediatamente, comunicando que havia um colecionador, cliente dela, que queria adquirir o tríptico e me perguntou o preço para comunicar a ele (acrescentando uma comissão para ela, que intermediaria a venda). Eu respondi que já tinha doado o tríptico para a FAAP, que a diretoria tinha aceito e que as obras já estavam lá guardadas no depósito do acervo deles, desde a exposição coletiva da qual elas participaram.
Jomara então perguntou se não dava para desfazer a proposta e retirar as obras para a gente fazer o negócio. Era uma quantia bem alta, salvadora. Eu telefonei para a diretoria do Museu da FAAP e contei o que estava acontecendo, e o Diretor, então o poeta e crítico Alberto Beuttenmuller, simpaticíssimo e compreensivo, respondeu:
-"Pode sim, nós sabemos como é difícil a vida dos artista. Se você tem um comprador pode vir retirar a sua obra. Depois você nos doa outra, se você quiser..."
Imediatamente fui buscar as três telas com uma caminhonete de frete e deixei na casa da Jomara. Ela vendeu, pegou a comissão dela e me deu o dinheiro, salvando o meu ano. O Fernando Carriere, depois dessa compra veio ao meu ateliê muitas vezes e passou a ser meu colecionador, tendo eu vendido para ele doze telas, quase todas de grande formato. Até que ele deu um tempo, sumiu por muitos meses, e um dia tocaram o interfone da portaria e era ele que queria subir ",pela primeira vez sem ter agendado. Eu disse ao porteiro que podia deixar subir, e já deixei a porta aberta.
Ele entrou no ateliê acompanhado de uma senhora distinta, com jeito de ricaça italiana, que era a sua mãe, Olhei o Fernando e... era uma caveira ambulante!!! Com um boné cobrindo a cabeça totalmente calva, o olhos encovados e brilhantes, as faces cerosas cavadas, os ossos do crânio visíveis, e os dentes salientes como se não tivesse lábios. Ele, que era um rapaz bonito, agora pele e osso mexendo-se de modo sincopado como um caveira, só faltava estar escrita em sua testa o nome daquela doença macabra.
A senhora mantinha-se muda, com os olhos baixos, constrangidíssima, enquanto ele, meio delirante, me fazia uma encomenda de um desenho alegórico absurdo que queria que eu fizesse para ele. Tomei nota dos dados, e ele, avistando uma grande tela que eu estava pintando, disse:
"Esta também é minha. Quanto quer por ela. Ah! Tudo isso? Pago a metade, já sou seu colecionador, já lhe comprei muitos quadros. Quando estiver pronta, me avise que mando buscá-la".
E saiu com sua mãe que permanecia de olhos baixos, destroçada mater dolorosa...
Depois de uma semana liguei para ele dizendo que a grande tela estava pronta e também o desenho alegórico encomendado, que esqueci de fotografar. Ele enviou dois empregados que trouxeram o cheque num envelope e depois de embrulharem a grande tela em plástico bolha, a levaram. Não vi mais o Fernando por um ano. Então, me lembrando da última impressão, e desconfiando daquele sumiço, num impulso tardio resolvi ligar para ele. Quem atendeu foi sua mãe que disse:
Ah! Senhor Guilherme, meu filho morreu faz seis meses. Foi bom que o senhor ligou porque estamos esvaziando sua casa do sítio onde ele morava porque vamos vender a casa. Encontramos muitas obras suas, e o meu outro filho quer ficar com apenas algumas para ele, que já escolheu. As outras estão num depósito de um prédio da família no bairro de Santa Cecília. Nós queremos vendê-las, não temos mais paredes. O senhor não poderia nos indicar quem pudesse se interessar em comprá-las? Vou lhe passar o telefone do meu filho para o senhor se entender com ele.
Liguei falei com o irmão do Fernando, um empresário muito simpático (que elogiou as obras que ele escolheu e estavam nas suas paredes) e propus a ele eu mesmo recomprar à vista cinco das minhas obras de grande formato por R$ 1.000,00 cada uma, num total de R$ 5.000,00 (eu ainda saía no lucro). Ele disse que as obras foram herdadas pela mãe dele e sugeriu que eu fizesse a proposta a ela. Foi o que fiz, voltei a telefonar para a digna senhora que aceitou prontamente a oferta. Depositei o dinheiro na conta dela e fui buscar com um caminhãozinho de frete no tal predinho da família minhas cinco obras que já estavam liberadas através de telefonema dela a uma funcionaria da família, que morava e cuidava do prédio.
Foi assim que o conturbado tríptico voltou para minha coleção e está até hoje comigo.
Desculpem-me o excesso de detalhes, mas não saberia como contar isso de maneira coerente e verossímil. Sei que tenho a tendência a ser prolixo, e por isso me afastei há anos, como um pequeno Frankenstein, de toda sociedade, muito antes desta estranha quarentena...
Depois da abertura da minha exposição na AMSA Galerie, quando o galerista ou a Anneliese não agendavam a visita de algum jornalista ou crítico para me entrevistar com a musa loura como intérprete, eu ficava livre para conhecer a cidade e seus museus, sobretudo o Hamburger Kunsthalle que eu visitava por horas todos os dias porque, como já revelei a vocês nalgum lugar, os museus e catedrais são as únicas coisas que me interessam quando viajo ao exterior. Me lembro de ficar muito tempo diante da maior (em tamanho) obra em tela daquele museu, talvez do mundo: o espantoso "A entrada do kaiser Carlos V em Antuérpia de Hans Makart (1840-1884) que mede 520x952cm, com uma centena de figuras detalhadas em perfeita composição monumental de grande qualidade de fatura pictórica em cada centímetro.
Mas eu voltava sempre às 17:30hs no máximo para estar presente quando a Anneliese voltava do trabalho para jantarmos e eu dar aquela aula de História da Arte, que me divertia. Às vezes saíamos à noite porque ela queria me mostrar um pouco da vida noturna da cidade, que eu não apreciava, pois já não bebia desde 1981 e não gosto de danceterias, nem de mundanismos. Além disso, nas ruas fazia um frio do "caramba'', úmido, desagradável, ventoso, com aquele vapor saindo de todas as bocas.
Quando nos recolhíamos para dormir, ela no seu quarto com a porta fechada e eu no sofá-cama armado, eu estranhava o silencio noturno absoluto daquela cidade ou daquele bairro.
Uma noite eu já adormecido acordei subitamente aterrorizado com o silêncio na escuridão, pois era sepulcral: nenhum galo cantando ou latido de cão ao longe, nenhum ruido de grilo ou pio de coruja. Nada. O silencio absoluto, aquele que deve haver na morte... me acordara!
No dia seguinte eu perguntei à Anneliese se ela não achava aquela cidade muito triste, escura demais mesmo nas poucas horas do dia muito curto, com aquele frio, o teto cinzento muito baixo de um céu de chumbo, e com um trânsito lento, de carros silenciosos e bondes deslizando sobre trilhos tão perfeitos, sem o menor ruído. Ela respondeu com desconcertante naturalidade:
-Ah! Sim... Muita gente se suicida nesta cidade no inverno, principalmente os velhos...
De madrugada, eu no meu sofá-cama, às cinco da manhã ela saía pontualmente do seu quarto, e eu acordado fingia dormir e olhava com o rabo do olho e via na penumbra o seu vulto passar naquele seu incrível passo deslizante com os olhos semicerrados, com um mão num gesto natural elegantíssimo enrolar o cabelo da nuca enquanto andava, e entrar no banheiro, de onde eu ouvia o barulhinho do xixi e às vezes da ducha quente num banho rápido. Ela voltava e entrava no quarto novamente de onde saia logo, perfeitamente arrumada e penteada no seu uniforme de aeromoça. Sempre sem rumor algum ela saía fechando a porta silenciosamente. E eu me admirava de sua disciplina laboriosa e de sua força de vontade espartana, sem queixas... tão germânica, na verdade.
Eu a amava, sim, mas não me declararia pois não sentia clima para isso da parte dela, e eu não queria pôr tudo a perder. Na verdade éramos dois perdidos numa noite... ou melhor, numa cidade fria, ela com seu sonho ambicioso de ser marchand e galerista, sem capital, sem verdadeira cultura, competência ou vocação, e eu, que perto dela me sentia o artista meio velho e pobre, já sem grande futuro em vida, embora não destituído de talento, que na verdade eu era...
Naqueles dias, no seu apartamento, Anneliese começou a me contar aos poucos, um pouco de sua vida. Me falou de seu primeiro casamento com um rapaz muito rico, de tradicional família mineira de fazendeiros, ela muito jovem e bela, mas vinda de família alemã de classe média, do bairro paulistano de Santo Amaro e aluna do Colégio Porto Seguro. O rapaz, seu marido, que ela conhecera jogando tênis, revelou-se logo depois do casamento nababesco, um jogador compulsivo, mas de cartas, viciado no jogo de poker. Me impressionou a descrição que ela fez de sua lua de mel, a bordo de um navio de luxo, em direção à Europa, em que ele assim que pôs os pés no navio, sentou numa mesa de poker e não levantou mais... e ela, linda, quase adolescente, abandonada de biquini a viagem inteira à beira da piscina do navio, tomando sol e lendo Lolita de Nabokov, entediada, cercada de gaviões sequiosos babando por todos os lados.
Gravei na imaginação visual uma descrição cinematográfica que ela fez de si mesma dirigindo uma Ferrari vermelha, conversível, com os cabelos louros ao vento e grandes óculos escuros, linda, chorando de solidão e abandono, ao volante, por estradas tortuosas da Côte D'Azur... E eu sabia que era verdade, porque bastava olhar para ela naquela sua beleza mítica, que parava a pessoas nas ruas, que viravam para trás par olhá-la, ainda agora, com quarenta anos, parecendo vinte.
Depois me contou, que divorciada, arruinada (o marido perdeu toda a sua fortuna no jogo) casou-se com um aristocrata alemão falido de uma nobre família antiga prussiana de cuja estirpe ela herdou aquele sobrenome Von Sanson-Himmelstjerna. Ao que parece o rapaz era gay e se separaram logo, muito amigos a ponto de deixá-la ficar definitivamente com o sobrenome de sua família, dizendo que ela o carregava mais dignamente que ele mesmo e seus parentes. Ela seria, para todos os efeitos a aventurosa baronesa alemã Anneliese Von Sanson-Himmelstjerna, saída ninguém sabia de onde, mas satisfazendo a vista como uma princesa de verdade.
Eu viajava em suas histórias ligeiramente patéticas mas fascinantes em seu mundanismo internacional, cosmopolita, que tinham um fundo oco de Vanity Fair, mas tão diferente do meu mundo de arte real (se posso dizer assim), que por isso mesmo me fascinavam como um filme de Hollywood, da Era Dourada, ligeiramente kitsch...
Eu gostaria de abraçá-la e beijá-la, mas ela era fria e distante (essa é que era a verdade) e duramente focada (não gosto desta palavra) no seu objetivo profissional, a meu secreto ver, inatingível, pelas dolorosas razões que descreverei adiante...
Minha hospedeira também me contou que tinha uma filha do primeiro casamento que estudava arte dramática no famoso Actor's Studio de Nova York, o que continuava corroborando o universo fabuloso de exterioridades de minha amiga. Pois quem estudara naquela célebre e quase mítica escola de atores senão Marlon Brando, James Dean, Karl Marlden, Rod Steigger, Montgomey Clift, etc?Mas as coisas se revelaram mais sombrias, quando ela me confessou que tinha um amante riquíssimo, muito velho, casado, com filhos e netos, armador em Hamburg, que tinha uma imensa fazenda (latifúndio) de gado, no Brasil, onde os empregados brasileiros o chamavam de "Cacique", e que ela esperava dele, que lhe desse uma Galeria de Arte de presente (!!!).
Logo ela receberia o velho cacique, que era parecido com o George Soros atual, com aquele rosto macerado de grandes bolsas em babados sob os olhos. Ele entrou com ela, que me encontrando na salinha me apresentou com naturalidade mundana. Ele me olhou, mediu e me apertou ligeiramente a mão, e entraram no quarto, enquanto eu saía para a rua, ligeiramente enojado.
Mas nunca fui moralista, e estava apenas gradativamente decepcionado e triste a cada dia que passava ali, naquela cidade gelada. Lembro-me que naquele dia, que estava no crepúsculo, já naquela penumbra lúgubre enevoada de inverno, fui andando, soltando aquelas baforadas de vapor, às margens do grande lago da cidade, mal avistando no meio dele, em silhueta, um remador num caiaque, remando, remando, visão de uma solidão absoluta, pontilhada como um chuvisco de estática de televisor mal sintonizado, me pareceu... para onde, meu Deus, para onde?
Então me lembrei que eu e tinha comigo, na minha carteira o telefone em Londres da irmã de um conhecido meu, que o rapaz (que não chegava a ser um amigo) gentilmente me dera, ao saber que eu iria à Alemanha fazer uma exposição. Sua irmã fora casada com um jovem médico que fizera seu doutorado em Oxford, e agora, separada, com dois filhos continuava morando numa boa casa em Londres e poderia me hospedar se eu quisesse visitar aquela cidade, já que Hamburg era bem perto, apenas 45 minutos sobre o canal da Mancha. Agradeci e guardei o telefone.
"Estes aqui estão venda? Eu quero eles."
A Jomara me telefonou imediatamente, comunicando que havia um colecionador, cliente dela, que queria adquirir o tríptico e me perguntou o preço para comunicar a ele (acrescentando uma comissão para ela, que intermediaria a venda). Eu respondi que já tinha doado o tríptico para a FAAP, que a diretoria tinha aceito e que as obras já estavam lá guardadas no depósito do acervo deles, desde a exposição coletiva da qual elas participaram.
Jomara então perguntou se não dava para desfazer a proposta e retirar as obras para a gente fazer o negócio. Era uma quantia bem alta, salvadora. Eu telefonei para a diretoria do Museu da FAAP e contei o que estava acontecendo, e o Diretor, então o poeta e crítico Alberto Beuttenmuller, simpaticíssimo e compreensivo, respondeu:
-"Pode sim, nós sabemos como é difícil a vida dos artista. Se você tem um comprador pode vir retirar a sua obra. Depois você nos doa outra, se você quiser..."
Imediatamente fui buscar as três telas com uma caminhonete de frete e deixei na casa da Jomara. Ela vendeu, pegou a comissão dela e me deu o dinheiro, salvando o meu ano. O Fernando Carriere, depois dessa compra veio ao meu ateliê muitas vezes e passou a ser meu colecionador, tendo eu vendido para ele doze telas, quase todas de grande formato. Até que ele deu um tempo, sumiu por muitos meses, e um dia tocaram o interfone da portaria e era ele que queria subir ",pela primeira vez sem ter agendado. Eu disse ao porteiro que podia deixar subir, e já deixei a porta aberta.
Ele entrou no ateliê acompanhado de uma senhora distinta, com jeito de ricaça italiana, que era a sua mãe, Olhei o Fernando e... era uma caveira ambulante!!! Com um boné cobrindo a cabeça totalmente calva, o olhos encovados e brilhantes, as faces cerosas cavadas, os ossos do crânio visíveis, e os dentes salientes como se não tivesse lábios. Ele, que era um rapaz bonito, agora pele e osso mexendo-se de modo sincopado como um caveira, só faltava estar escrita em sua testa o nome daquela doença macabra.
A senhora mantinha-se muda, com os olhos baixos, constrangidíssima, enquanto ele, meio delirante, me fazia uma encomenda de um desenho alegórico absurdo que queria que eu fizesse para ele. Tomei nota dos dados, e ele, avistando uma grande tela que eu estava pintando, disse:
"Esta também é minha. Quanto quer por ela. Ah! Tudo isso? Pago a metade, já sou seu colecionador, já lhe comprei muitos quadros. Quando estiver pronta, me avise que mando buscá-la".
E saiu com sua mãe que permanecia de olhos baixos, destroçada mater dolorosa...
Depois de uma semana liguei para ele dizendo que a grande tela estava pronta e também o desenho alegórico encomendado, que esqueci de fotografar. Ele enviou dois empregados que trouxeram o cheque num envelope e depois de embrulharem a grande tela em plástico bolha, a levaram. Não vi mais o Fernando por um ano. Então, me lembrando da última impressão, e desconfiando daquele sumiço, num impulso tardio resolvi ligar para ele. Quem atendeu foi sua mãe que disse:
Ah! Senhor Guilherme, meu filho morreu faz seis meses. Foi bom que o senhor ligou porque estamos esvaziando sua casa do sítio onde ele morava porque vamos vender a casa. Encontramos muitas obras suas, e o meu outro filho quer ficar com apenas algumas para ele, que já escolheu. As outras estão num depósito de um prédio da família no bairro de Santa Cecília. Nós queremos vendê-las, não temos mais paredes. O senhor não poderia nos indicar quem pudesse se interessar em comprá-las? Vou lhe passar o telefone do meu filho para o senhor se entender com ele.
Liguei falei com o irmão do Fernando, um empresário muito simpático (que elogiou as obras que ele escolheu e estavam nas suas paredes) e propus a ele eu mesmo recomprar à vista cinco das minhas obras de grande formato por R$ 1.000,00 cada uma, num total de R$ 5.000,00 (eu ainda saía no lucro). Ele disse que as obras foram herdadas pela mãe dele e sugeriu que eu fizesse a proposta a ela. Foi o que fiz, voltei a telefonar para a digna senhora que aceitou prontamente a oferta. Depositei o dinheiro na conta dela e fui buscar com um caminhãozinho de frete no tal predinho da família minhas cinco obras que já estavam liberadas através de telefonema dela a uma funcionaria da família, que morava e cuidava do prédio.
Foi assim que o conturbado tríptico voltou para minha coleção e está até hoje comigo.
Desculpem-me o excesso de detalhes, mas não saberia como contar isso de maneira coerente e verossímil. Sei que tenho a tendência a ser prolixo, e por isso me afastei há anos, como um pequeno Frankenstein, de toda sociedade, muito antes desta estranha quarentena...
Depois da abertura da minha exposição na AMSA Galerie, quando o galerista ou a Anneliese não agendavam a visita de algum jornalista ou crítico para me entrevistar com a musa loura como intérprete, eu ficava livre para conhecer a cidade e seus museus, sobretudo o Hamburger Kunsthalle que eu visitava por horas todos os dias porque, como já revelei a vocês nalgum lugar, os museus e catedrais são as únicas coisas que me interessam quando viajo ao exterior. Me lembro de ficar muito tempo diante da maior (em tamanho) obra em tela daquele museu, talvez do mundo: o espantoso "A entrada do kaiser Carlos V em Antuérpia de Hans Makart (1840-1884) que mede 520x952cm, com uma centena de figuras detalhadas em perfeita composição monumental de grande qualidade de fatura pictórica em cada centímetro.
Mas eu voltava sempre às 17:30hs no máximo para estar presente quando a Anneliese voltava do trabalho para jantarmos e eu dar aquela aula de História da Arte, que me divertia. Às vezes saíamos à noite porque ela queria me mostrar um pouco da vida noturna da cidade, que eu não apreciava, pois já não bebia desde 1981 e não gosto de danceterias, nem de mundanismos. Além disso, nas ruas fazia um frio do "caramba'', úmido, desagradável, ventoso, com aquele vapor saindo de todas as bocas.
Quando nos recolhíamos para dormir, ela no seu quarto com a porta fechada e eu no sofá-cama armado, eu estranhava o silencio noturno absoluto daquela cidade ou daquele bairro.
Uma noite eu já adormecido acordei subitamente aterrorizado com o silêncio na escuridão, pois era sepulcral: nenhum galo cantando ou latido de cão ao longe, nenhum ruido de grilo ou pio de coruja. Nada. O silencio absoluto, aquele que deve haver na morte... me acordara!
No dia seguinte eu perguntei à Anneliese se ela não achava aquela cidade muito triste, escura demais mesmo nas poucas horas do dia muito curto, com aquele frio, o teto cinzento muito baixo de um céu de chumbo, e com um trânsito lento, de carros silenciosos e bondes deslizando sobre trilhos tão perfeitos, sem o menor ruído. Ela respondeu com desconcertante naturalidade:
-Ah! Sim... Muita gente se suicida nesta cidade no inverno, principalmente os velhos...
De madrugada, eu no meu sofá-cama, às cinco da manhã ela saía pontualmente do seu quarto, e eu acordado fingia dormir e olhava com o rabo do olho e via na penumbra o seu vulto passar naquele seu incrível passo deslizante com os olhos semicerrados, com um mão num gesto natural elegantíssimo enrolar o cabelo da nuca enquanto andava, e entrar no banheiro, de onde eu ouvia o barulhinho do xixi e às vezes da ducha quente num banho rápido. Ela voltava e entrava no quarto novamente de onde saia logo, perfeitamente arrumada e penteada no seu uniforme de aeromoça. Sempre sem rumor algum ela saía fechando a porta silenciosamente. E eu me admirava de sua disciplina laboriosa e de sua força de vontade espartana, sem queixas... tão germânica, na verdade.
Eu a amava, sim, mas não me declararia pois não sentia clima para isso da parte dela, e eu não queria pôr tudo a perder. Na verdade éramos dois perdidos numa noite... ou melhor, numa cidade fria, ela com seu sonho ambicioso de ser marchand e galerista, sem capital, sem verdadeira cultura, competência ou vocação, e eu, que perto dela me sentia o artista meio velho e pobre, já sem grande futuro em vida, embora não destituído de talento, que na verdade eu era...
Naqueles dias, no seu apartamento, Anneliese começou a me contar aos poucos, um pouco de sua vida. Me falou de seu primeiro casamento com um rapaz muito rico, de tradicional família mineira de fazendeiros, ela muito jovem e bela, mas vinda de família alemã de classe média, do bairro paulistano de Santo Amaro e aluna do Colégio Porto Seguro. O rapaz, seu marido, que ela conhecera jogando tênis, revelou-se logo depois do casamento nababesco, um jogador compulsivo, mas de cartas, viciado no jogo de poker. Me impressionou a descrição que ela fez de sua lua de mel, a bordo de um navio de luxo, em direção à Europa, em que ele assim que pôs os pés no navio, sentou numa mesa de poker e não levantou mais... e ela, linda, quase adolescente, abandonada de biquini a viagem inteira à beira da piscina do navio, tomando sol e lendo Lolita de Nabokov, entediada, cercada de gaviões sequiosos babando por todos os lados.
Gravei na imaginação visual uma descrição cinematográfica que ela fez de si mesma dirigindo uma Ferrari vermelha, conversível, com os cabelos louros ao vento e grandes óculos escuros, linda, chorando de solidão e abandono, ao volante, por estradas tortuosas da Côte D'Azur... E eu sabia que era verdade, porque bastava olhar para ela naquela sua beleza mítica, que parava a pessoas nas ruas, que viravam para trás par olhá-la, ainda agora, com quarenta anos, parecendo vinte.
Depois me contou, que divorciada, arruinada (o marido perdeu toda a sua fortuna no jogo) casou-se com um aristocrata alemão falido de uma nobre família antiga prussiana de cuja estirpe ela herdou aquele sobrenome Von Sanson-Himmelstjerna. Ao que parece o rapaz era gay e se separaram logo, muito amigos a ponto de deixá-la ficar definitivamente com o sobrenome de sua família, dizendo que ela o carregava mais dignamente que ele mesmo e seus parentes. Ela seria, para todos os efeitos a aventurosa baronesa alemã Anneliese Von Sanson-Himmelstjerna, saída ninguém sabia de onde, mas satisfazendo a vista como uma princesa de verdade.
Eu viajava em suas histórias ligeiramente patéticas mas fascinantes em seu mundanismo internacional, cosmopolita, que tinham um fundo oco de Vanity Fair, mas tão diferente do meu mundo de arte real (se posso dizer assim), que por isso mesmo me fascinavam como um filme de Hollywood, da Era Dourada, ligeiramente kitsch...
Eu gostaria de abraçá-la e beijá-la, mas ela era fria e distante (essa é que era a verdade) e duramente focada (não gosto desta palavra) no seu objetivo profissional, a meu secreto ver, inatingível, pelas dolorosas razões que descreverei adiante...
Minha hospedeira também me contou que tinha uma filha do primeiro casamento que estudava arte dramática no famoso Actor's Studio de Nova York, o que continuava corroborando o universo fabuloso de exterioridades de minha amiga. Pois quem estudara naquela célebre e quase mítica escola de atores senão Marlon Brando, James Dean, Karl Marlden, Rod Steigger, Montgomey Clift, etc?Mas as coisas se revelaram mais sombrias, quando ela me confessou que tinha um amante riquíssimo, muito velho, casado, com filhos e netos, armador em Hamburg, que tinha uma imensa fazenda (latifúndio) de gado, no Brasil, onde os empregados brasileiros o chamavam de "Cacique", e que ela esperava dele, que lhe desse uma Galeria de Arte de presente (!!!).
Logo ela receberia o velho cacique, que era parecido com o George Soros atual, com aquele rosto macerado de grandes bolsas em babados sob os olhos. Ele entrou com ela, que me encontrando na salinha me apresentou com naturalidade mundana. Ele me olhou, mediu e me apertou ligeiramente a mão, e entraram no quarto, enquanto eu saía para a rua, ligeiramente enojado.
Mas nunca fui moralista, e estava apenas gradativamente decepcionado e triste a cada dia que passava ali, naquela cidade gelada. Lembro-me que naquele dia, que estava no crepúsculo, já naquela penumbra lúgubre enevoada de inverno, fui andando, soltando aquelas baforadas de vapor, às margens do grande lago da cidade, mal avistando no meio dele, em silhueta, um remador num caiaque, remando, remando, visão de uma solidão absoluta, pontilhada como um chuvisco de estática de televisor mal sintonizado, me pareceu... para onde, meu Deus, para onde?
Então me lembrei que eu e tinha comigo, na minha carteira o telefone em Londres da irmã de um conhecido meu, que o rapaz (que não chegava a ser um amigo) gentilmente me dera, ao saber que eu iria à Alemanha fazer uma exposição. Sua irmã fora casada com um jovem médico que fizera seu doutorado em Oxford, e agora, separada, com dois filhos continuava morando numa boa casa em Londres e poderia me hospedar se eu quisesse visitar aquela cidade, já que Hamburg era bem perto, apenas 45 minutos sobre o canal da Mancha. Agradeci e guardei o telefone.
Assim, eu estaria dando um tempo da dolorosa companhia da minha musa de mão única, a bela baronesa que sem saber tripudiava o meu coração com aquela sua relação espúria com o armador alemão, dublê de cacique latifundiário e aproveitador. Era doloroso demais, e um tanto absurdo...
Como vocês podiam imaginar minha Exposição apesar de elogiada, não vendeu nada, nenhuma tela, somente um exemplar do meu álbum de litografias monocromáticas da série REFLEXOS, que salvou minha breve temporada em Hamburg, porque eu já planejava cair fora daquele barco, que me parecia ligeiramente furado, pois era evidente, pelo menos para mim, que aquele velho cacique estava enrolando minha amiga, e nunca daria a ela a Galeria prometida, que possivelmente o comprometeria perante a sua família. Coisas da alta hipocrisia, digo, burguesia...
Assim, resolvi ir a Londres, que era um pulinho dali, 45 minutos de voo sobre o canal da Mancha. Eu tinha o endereço da irmã de um conhecido meu de São Paulo, que morava em Londres há muito anos. Ele quando soube que eu ia expor na Alemanha, me deu o endereço dela me sugerindo que a procurasse. Munido daquele endereço auspicioso, despedi-me provisoriamente da Anneliese, que me levou ao aeroporto e me instalou na sala VIP, e eu prometendo que a chamaria se fosse bem recebido pela outra brasileira, para ciceroneá-la por alguns dias pelos maravilhosos museus londrinos. Eu queria ver ao vivo, na Tate Gallery, o grande Turner, e também os pré-rafaelitas ingleses, que eu amo. Queria também ver A Virgem dos Rochedos de Da Vinci na National Gallery e a pedra de Roseta, a chave desvendada por François Champollion, dos hieróglifos egípcios.
Munido, além do meu passaporte turístico, do meu belo catálogo bilingue da minha Exposição alemã, e de uma pasta com cem litografias minhas cheguei no aeroporto de Heathrow, carregando uma sacola de roupas e aquela pasta grande, negra, pesadíssima, que me extenuava...
Quando percorria penosamente com aquela pasta os corredores do aeroporto inglês, rumo ao guichê da aduana ouvi gritos altíssimos, lancinantes do mais puro desespero humano. Eu olhava para todos os lados procurando ver de onde eles partiam, tanto mais que somente eu parecia ouvi-los. Os ingleses andavam com olhar bovino, sem movimentarem os olhos ou a cabeça, como se nada ouvissem nem vissem nada de estranho. Até que passaram por mim dois policiais londrinos imensos, gigantescos, que carregavam pelos braços um de cada lado um negro pequeno, retinto, magrinho, mal vestido, adulto, resistindo somente pelos gritos, ombro a ombro, com os pés no ar, pois carregado não alcançava o solo. E seus gritos eram também de dor. Entraram com o negrinho por uma porta lateral e os gritos sumiram imediatamente.
Fiquei paralisado, horrorizado, o coração batendo forte, tentando desvendar aquele enigma. Por que só eu, aparentemente, presenciara, entre todos no aeroporto, aquela cena chocante? Mas logo reduzi aquilo em mim a uma simples má impressão. Eu estava disposto a aproveitar o que pudesse daquele país tão importante na formação da minha cultura, eu que amava desde a infância aqueles soberbos escritores, William Shakespeare, Charles Dykens, John Donne, Rudyard Kipling, Virginia Woolf, HG Wells, George Bernard Shaw, Conan Doyle, George Orwell, Thomas Hardy, as irmãs Bronte, Oscar Wilde, Henry James, Lord Byron, Percy e Mary Shelley, William Blake, e tantos outros...
Cheguei finalmente no guichê da aduana carregando aquela pasta enorme, que certamente pareceria suspeita no minimo de contrabando. E apresentei ao mesmo tempo meu passaporte brasileiro, que agora já ostentava o carimbo de Hamburg, junto com meu belo catálogo de muitas reproduções todas a cores, com o texto de apresentação bilingue inglês-alemão, elogiosíssimo. O funcionário inglês me olhou bem nos olhos e perguntou o que eu vinha fazer em Londres. Enquanto ele abria o meu catálogo e o folheava voltando as páginas para ler a primeiras linhas do texto, eu respondi com segurança e num inglês fluente que a mim mesmo surpreendeu :
-Vim visitar os grandes museus de sua terra: a Tate Gallery, a National Gallery, o Vitória & Albert, a Royal Academy, a Leighton House...
O funcionário fechou o meu catálogo, devolveu meus documentos e fazendo um gesto gentil com as duas mãos para o lado apontando a entrada, me autorizou a entrar no seu país, sem nem mesmo querer olhar o conteúdo daquela minha pesadíssima pasta. Percebi que aquele país respeitava a Cultura e que ali artistas eram bem vindos. Eram inícios auspiciosos, e como o título aquele livro de Charles Dykens, eu estava vivendo um "conto de duas cidades"...
Mas por qual outra razão estava eu a indo a Londres além da minha vontade real de ver as obras de Turner, John William Watherhouse, John Everett Millais, Dante Gabriel Rossetti, William Blake e pelo menos um Da Vinci? Eu explico:
No início do ano 1991 eu recebera um telefonema de um rapaz brasileiro de nome Cassio, que morava em Londres e que numa vinda a São Paulo, um ano antes, já havia adquirido um lote grande de litos minhas para vender para galerias londrinas, Ele pedia um novo lote, dizendo que as minha litos foram muito bem recebidas pelos ingleses que as adoraram. Eu lhe respondi ao telefone que no final daquele ano eu iria fazer uma exposição em Hamburg e daria um pulo até Londres levando uma pasta com cem litografias e faríamos o negócio pessoalmente. Que ele aguardasse. Ele pareceu desolado porque se passariam nove meses até ele poder ter as gravuras para negociar.
Poucos dias depois recebi um outro telefonema de Londres desta vez de um funcionário de uma galeria inglêsa me pedindo gravuras pois o fornecedor brasileiro deles tinha sumido, eles não conseguiam contatá-lo e eles precisavam mais gravuras minhas pois a clientela deles estava entusiasmada com minha litos. Então tinham descoberto meu telefone e queriam encomendar lotes pessoalmente. Eu respondi àquele funcionário a mesma coisa que dissera ao Cássio. Entretanto, por lealdade comercial ao meu conterrâneo, visto que ele é que abrira meu mercado em Londres, resolvi não "atravessar" e continuar com a sua intermediação.
Agora eu estava ali com aquela pasta, e peguei um táxi, daqueles pretos típicos de Londres e dei ao motorista o endereço do rapaz anotado num papel. O motorista partiu e fomos atravessando Londres, demoradamente, passando por bairros e bairros, cada vez mais feios, cada vez mais decadentes, até eu começar a ver pelas janelas gente cada vez mais estranha: punks com cabelo moicano, skinheads tatuados, meninas góticas, darks, cafetões e prostitutas, até chegarmos com grande dificuldade num bairro realmente sinistro, daqueles de filme de terror, sem nenhuma árvore, aparentemente deserto, nenhuma pessoa à vista, todo de blocos de apartamentos de concreto, semi destruídos, todos pichados de cima a baixo, e paramos diante de um blocos, o pior de todos. O dia cinzento e nublado, gelado mas sem neve, o céu de chumbo, agravava o aspecto de desolação ameaçadora.
O motorista gentil com quem eu viera conversando na viagem, e a quem eu explicara que estava levando aquela pasta de minhas gravuras, para o meu "marchand", para ele vender, me disse então:
"Senhor, o seu marchand não deve ser muito bom, visto que mora neste bairro. Olhe, eu vou ficar aqui esperando o senhor com o motor ligado, porque é muito perigoso. O senhor se arrisca a entrar aí?"
Eu hesitei olhando aquele bunker lúgubre, parecendo algo que sobrara de um apocalipse zumbi ou guerra atômica, mas desci e fui até a entrada sem portaria, apenas um vão escuro e olhei olhei lá pra dentro, sem coragem de adentrar aquela escuridão sinistra, verdadeira armadilha. Recuei e voltei apressadamente para o táxi, e partimos, o motorista aliviado me dizendo:
- O senhor fez bem em desistir. O senhor me parece um homem fino... isto aqui não é para você. Onde quer que eu o deixe agora?
Eu disse: Leve-me por favor para um hotel pequeno, modesto, numa zona boa. O senhor me recomendaria algum?
-Sim, claro -respondeu o bom homem- conheço um, muito bom nessas condições, onde sempre levo alguns turistas, pois conheço até o gerente. Deixe comigo.
E voltamos num verdadeiro "rewind" por panoramas urbanos gradativamente mais amenos, até chegarmos a uma rua toda de casinhas iguais, um hotelzinho minúsculo, zero estrelas, em frente ao qual descemos do táxi, ele, um homenzarrão irlandês carregando minha pesada pasta negra como se fosse uma pluma e chegando no balcão trocou umas palavras cordiais com o gerente, seu amigo, me recomendando aos seus cuidados.
Eu estava extremamente grato à aquele homem, a quem muito agradeci, quis dar uma boa gorjeta, que ele não aceitou, pôs a mão no boné à maneira irlandesa, e despedindo-se deu-me um cartão com seu telefone, caso eu precisasse de novas corridas.
Aliviado, fiz o chek in, como se estivesse em porto seguro, após uma aventura de horrores...
No hotelzinho, o único quarto que estava vago e que me deram era no subsolo, abaixo da rua mas com uma janelinha dando para um minúsculo pátio cercado por uma gradezinha, para a ventilação. Entretanto, embora claustrofóbico, era limpinho, fui imediatamente dormir e tive uma ótima noite de sono, exausto que estava.
No dia seguinte acordei bem cedo e resolvi levar a pasta das minhas gravuras à tal Galeria que me telefonara e que já trabalhava há tempos com elas. Eu tinha esperança de fazer uma boa venda e salvar a minha viagem toda.
Tomei banho, me vesti, subi e fui tomar o café da manhã no pequeno refeitório. Em seguida na portaria telefonei para aquele taxista que depois de quinze minutos veio me buscar para eu ir à tal galeria de que eu tinha o endereço anotado, levando o estrupício daquela pesadíssima pasta da qual eu esperava me livrar.
Chegando na galeria, que era também pequena, uma casinha vitoriana adaptada, toquei uma sineta que tinha ao lado da porta e fui entrando curvado para um lado, fora de prumo, com o peso daquela monstruosa pasta, e me anunciando em voz alta, em inglês, claro:
-Guilherme de Faria, do Brasil, chegando com a encomenda de vocês!
Os funcionários me olharam espantadíssimos, e imediatamente, consternado, um deles, talvez o dono, me disse:
Mas... Senhor Guilherme, isso foi no começo do ano! Fui eu que lhe telefonei mas o senhor demorou nove meses para chegar! De lá pra cá a economia do país entrou em depressão e não se vende e não se compra mais nada... Sinto muito.
Eu, que sou fatalista, apenas respondi como se fosse normal, mas com um suspiro:
- Well... Bad luck... - e fui me virando para me retirar.
Imediatamente, o funcionário ou dono (nunca soube), que era muito gentil e educado disse:
-Senhor Guilherme, espere, nós vendemos muitas gravuras suas, os clientes as apreciam, mas temos em estoque nas gavetas muitos exemplares de poucas imagens. O senhor tem novidades aí nessa pasta, novas imagens?
Sim, - eu respondi, com um lampejo de esperança - tenho mais de cinquenta imagens novas, que vocês certamente não têm.
-Então - disse ele- Nós não podemos comprar nada, mas você não poderia trocar essas cinquenta imagens por exemplares repetidos das que temos em estoque, para termos variedade para mostrar para os clientes que apreciam suas obras?
Claro- eu disse- por que não? E voltei para o meio da sala e colocando a enorme pasta no chão a abri e começamos o trabalho de trocar os exemplares repetidos por cinquenta imagens novas, que eles não tinham. Demoramos uma hora nessa função, sem nem um único penny para mim.
Terminada a troca, o gerente ou dono disse com um ar muito contente e até admirado:
-Agora nós temos uma bela coleção. Podemos fazer uma exposição individual sua... Sabe, o príncipe Philip já esteve aqui na galeria e deixou umas aquarelas dele que vendemos logo. Vamos fazer uma bela exposição com suas litos e convidaremos o príncipe para conhecê-las.
Já me virando para sair, eu disse, com um sorriso forçado:
-Façam isso...
E me retirei com aquela pasta que me parecia mais pesada ainda...
Na rua peguei um novo táxi e voltei ao hotel para descansar e pensar no que faria dali por diante. Então resolvi telefonar para a irmã do meu conhecido, aquele telefone que ele me havia dado e que estrategicamente conservei anotado. Uma voz agradável de mulher atendeu e eu me apresentei como amigo de seu irmão, e contei um pouco da minha situação, sem me queixar, claro, dizendo que estava em Londres pela primeira vez, e num hotelzinho, dando uma pausa em minha presença na minha exposição individual em Hamburg. Ela se chamava B.K., e como boa brasileira ficou imediatamente minha amiga ao telefone e disse:
-Saia desse hotel, feche a conta e venha para cá! Você vai ficar aqui na minha casa!
Eu fiquei maravilhado e aliviado, pois se permanecesse no hotel consumiria muito rapidamente as minhas parcas economias. Mas disse a ela que já tinha passado do meio dia,
estava correndo uma diária e eu estava muito cansado por causa de uma pasta pesadíssima que estava sendo a minha via crucis, e que então descansaria até o dia seguinte, e de manhã fecharia a conta e iria para a sua casa.
No dia seguinte fiz o check out, paguei uma diária, chamei aquele motorista irlandês, quase já um amigo e segui para a casa da BK no endereço que ela me deu pelo telefone no dia anterior. Cheguei num bairro bom, de casinhas iguais vitorianas com quintais ao fundo de grama muito verde, aquele verde brilhante dos prados ingleses, que contrastam com o céu opaco do inverno deles...
Toquei a campainha, BK, uma moça de uns quarenta anos, quase bonita, de aparência simpática, com um casal de filhos lindos adolescentes, abriu a porta e imediatamente me abraçou carinhosamente e fomos direto para a sua cozinha onde conversamos durante uma hora, conferimos praticamente nossas vidas inteiras e ficamos "amigos de infância"...
Eu contei a ela a minha atual aventura da "Mulher mais Bela do Mundo". Ela, impressionada e curiosa, imediatamente disse :
-"Quero conhecer a Anneliese. Telefone para ela e diga que eu a estou convidando para ficar aqui, quero hospedá-la."
Realmente, como os brasileiros, no campo da abertura humana, não há povo igual no mundo...
Ela me instalou muito bem num quarto, e eu estava pronto para visitar com calma os maravilhosos museus ingleses, com essas duas mulheres tão diferentes. Ou sozinho. Logo eu veria...
Agora, em Londres, confortavelmente hospedado na casa da BK, ela saía para trabalhar, e eu ia sozinho pegar o Subway, (Metrô) o mais antigo e extenso da Europa, para visitar os museus, começando pela Tate Gallery. Logo no primeiro dia no meu trajeto, eu vi um belo rapaz louro, de olhos azuis, que no Brasil pareceria de classe média alta, sentado no chão encostado numa parede à saída do Subway, muito triste, de olhar fixo no vazio, sem estender a mão, mas com uma tigela de metal ao lado e com uma cartazete pendurado no pescoço, onde estava escrito:
HOMELESS AND HUNGRY
Fiquei muito impressionado, joguei uma moeda naquela tigela, e quando voltei do Museu, já de noite, comentei aquilo com a BK que me explicou que a cidade estava cheia de pessoas de todas idades, muitas jovens como aquele, desempregadas e na miséria, esmolando pelas ruas, e a quem o governo proibia de pedir oralmente ou estendendo a mão, para não incomodar os passantes mas permitia que o fizessem calados e sem gestos, com aqueles pequenos cartazes pendurados no pescoço. De noite, até famosos parques como o Hyde Park, onde eu visitaria a linda estátua de bronze do Peter Pan, ficavam cheias de barracas de desabrigados, que as desmontavam de dia. A miséria humana dos livros de Charles Dykens, me pareceu estar presente naquela Londres dos anos 90 do século XX, e eu me senti triste mas privilegiado ao mesmo tempo. A minha própria miséria intermitente como artista no Brasil, nunca fora comparável àquilo, e sempre se podia filar uma bóia com um amigo, ou mesmo beber de graça no país tropical, abençoado por Deus...
Eu passava muitas horas por dia visitando os museus, primeiramente a Tate Gallery, na qual ficava horas percorrendo aquela ala especial das obras do Turner, e também as obras dos pre-rafaelitas ingleses, principalmente aquela joia da Ofelia afogada do Millais (que passei algumas horas diárias examinando de pertinho para distinguir as pinceladas acuradíssimas, miniaturescas) e a imensa tela da Lady of Shallot, do John William Watherhouse; e a National Gallery, com com aquela maravilhosa Alegoria do Agnolo Bronzino, e A Virgem dos Rochedos de Leonardo Da Vinci, que a gente podia ver também de pertinho, sem nenhum vidro de proteção, embora sob o olhar realmente vigilante dos vigias, visivelmente prontos para dar um bote. Ah! Vi também uma deslumbrante retrospectiva completa na Royal Academy, das gravuras e desenhos do Hokusai, inclusive com a célebre A Onda, e com seus preciosos pequenos álbuns de esboços dispostos abertos em vitrines horizontais.
Numa das minhas viagens pelo Subway, observei uma moça muito jovem, tagarelando entre seus amigos, que era uma verdadeira figura vitoriana saída das telas do pré-rafaelita Dante Gabriel Rossetti, ruiva de vasta cabeleira luminosa frisadinha, de pele muito alva como alabastro, perfeita, sem nem uma manchinha, os lábios naturalmente vermelhos, e os olhos azuis celestes claríssimos. Uma verdadeira visão de beleza pictórica viva, a meu ver, dentro de um prosaico vagão de metrô, e que eu admirei deslumbrado e incrédulo, disfarçando o olhar para não incorrer em assédio visual, intolerável naquele país.
A Anneliese telefonou afinal, contando que tirara uma licença de uma semana da Lufthansa e que aceitando o convite, que ela ouvira da boca da própria BK quando lhe passei o fone para ela sentir firmeza, viria para ficar hospedada com a nossa amável conterrânea, e me acompanhar na ida aos museus para continuar o seu aprendizado de História da Arte sob minha orientação dos nomes, biografias e escolas pictóricas, dos quais ela nada sabia.
Afinal, eu e a BK fomos uma manhã esperar a Anneliese no aeroporto de Heatrow, eu saboreando de antemão a surpresa que minha hospedeira teria com a visão da Mulher Mais Bela do Mundo, da qual ela deveria estar no fundo duvidando, por desconto de uma possível paixão delirante de seu hóspede pintor, amante exaltado da beleza feminina...
Anneliese afinal chegou. BK e eu a estávamos esperando no aeroporto. À sua aparição no saguão, BK, ao meu lado a mirou e sem virar-se para mim, murmurou baixinho para que eu ouvisse:
"Realmente..."
As duas mulheres se abraçaram, por segundos a mais como se já se conhecessem. Era bem da Anneliese, esse carinho social, que na verdade não passava disso. Peguei a sua mala e fomos para o carrinho da BK, de volta, direto para sua casa. Não vou me deter muito sobre esse dia, do qual não me lembro muito, somente que as mulheres se entenderam bem, e de um momento em que a BH olhando para mim, exclamou baixinho, murmurando comprido : "Guilheeerme !!!..."
Recomeçamos a rotina de Anneliese e eu visitarmos os museus, eu como seu guia depondo sobre os meus quadros preferidos, e eventualmente alguns dela.
Lembro-me um dia que, num táxi, conversando atrás em nossa língua, o motorista se virou, curioso e perguntou: "De onde vocês são?"
"Do Brasil,"- eu respondi- "Estamos falando o português do Brasil..." - eu disse, lembrando de um episódio muito anterior, de 1970, em que estando com a Elizabeth Benz num bistrô em Zurique, bebendo vinho tinto (eu ainda bebia) um casal suíço jovem, lindos como deuses nórdicos, numa mesa ao lado, ambos altos e louros de olhos azuis, o rapaz de barba e cabelo dourado encaracolado, parecendo um viking, com uma cesta primorosa pousada no chão limpo ao lado deles, com um bebê esplendoroso dentro, aconchegado, dormindo plácido, branquinho, perfeito, louro, coradinho como uma maçã, o rapaz que juntamente com sua mulher estava calado começando a beber um café e não parava de nos olhar com curiosidade, ali de sua mesa ao lado, de repente levantou a voz e perguntou para nós, simpaticamente, em alemão:
"Que língua vocês estão falando?!
-Português, do Brasil, - a Beth respondeu em alemão.
O rapaz suíço disse algo, fazendo um gesto bonito circular em torno às suas orelhas.
"O que ele disse?", perguntei eu à Beth. E ela traduziu: "Ele disse que é belíssimo, parece um música!...
Eu, que naqueles dias estava me sentindo tão por baixo, surpreso, sorri para ele com um gesto de cabeça agradecendo a amabilidade do rapaz...
Agora, ali, em Londres uma pergunta similar me fez pensar que ouviria o mesmo comentário como tréplica, pois o português brasileiro, quando bem falado, com as palavras claras, escandidas (não como o português chiado e rápido de Portugal) é mesmo considerado uma das mais belas e sonoras línguas do mundo, que aos europeus soa um pouco como o idioma russo, quem diria!...
Mas não. O taxista inglês, perguntou: "De onde vocês são?"
Anneliese respondeu apenas:
-Do Brasil...
O taxista, talvez perplexo com a lourice da Anneliese, treplicou então:
"Mas vocês são brancos!... no Brasil não são todos negros?"
Eu respondi, por alguma razão, sem paciência de explicar:
- São sim, todos... Eu e ela somos exceções...
O taxista, satisfeito, seguiu sem falar mais nada.
A Anneliese telefonou afinal, contando que tirara uma licença de uma semana da Lufthansa e que aceitando o convite, que ela ouvira da boca da própria BK quando lhe passei o fone para ela sentir firmeza, viria para ficar hospedada com a nossa amável conterrânea, e me acompanhar na ida aos museus para continuar o seu aprendizado de História da Arte sob minha orientação dos nomes, biografias e escolas pictóricas, dos quais ela nada sabia.
Afinal, eu e a BK fomos uma manhã esperar a Anneliese no aeroporto de Heatrow, eu saboreando de antemão a surpresa que minha hospedeira teria com a visão da Mulher Mais Bela do Mundo, da qual ela deveria estar no fundo duvidando, por desconto de uma possível paixão delirante de seu hóspede pintor, amante exaltado da beleza feminina...
Anneliese afinal chegou. BK e eu a estávamos esperando no aeroporto. À sua aparição no saguão, BK, ao meu lado a mirou e sem virar-se para mim, murmurou baixinho para que eu ouvisse:
"Realmente..."
As duas mulheres se abraçaram, por segundos a mais como se já se conhecessem. Era bem da Anneliese, esse carinho social, que na verdade não passava disso. Peguei a sua mala e fomos para o carrinho da BK, de volta, direto para sua casa. Não vou me deter muito sobre esse dia, do qual não me lembro muito, somente que as mulheres se entenderam bem, e de um momento em que a BH olhando para mim, exclamou baixinho, murmurando comprido : "Guilheeerme !!!..."
Recomeçamos a rotina de Anneliese e eu visitarmos os museus, eu como seu guia depondo sobre os meus quadros preferidos, e eventualmente alguns dela.
Lembro-me um dia que, num táxi, conversando atrás em nossa língua, o motorista se virou, curioso e perguntou: "De onde vocês são?"
"Do Brasil,"- eu respondi- "Estamos falando o português do Brasil..." - eu disse, lembrando de um episódio muito anterior, de 1970, em que estando com a Elizabeth Benz num bistrô em Zurique, bebendo vinho tinto (eu ainda bebia) um casal suíço jovem, lindos como deuses nórdicos, numa mesa ao lado, ambos altos e louros de olhos azuis, o rapaz de barba e cabelo dourado encaracolado, parecendo um viking, com uma cesta primorosa pousada no chão limpo ao lado deles, com um bebê esplendoroso dentro, aconchegado, dormindo plácido, branquinho, perfeito, louro, coradinho como uma maçã, o rapaz que juntamente com sua mulher estava calado começando a beber um café e não parava de nos olhar com curiosidade, ali de sua mesa ao lado, de repente levantou a voz e perguntou para nós, simpaticamente, em alemão:
"Que língua vocês estão falando?!
-Português, do Brasil, - a Beth respondeu em alemão.
O rapaz suíço disse algo, fazendo um gesto bonito circular em torno às suas orelhas.
"O que ele disse?", perguntei eu à Beth. E ela traduziu: "Ele disse que é belíssimo, parece um música!...
Eu, que naqueles dias estava me sentindo tão por baixo, surpreso, sorri para ele com um gesto de cabeça agradecendo a amabilidade do rapaz...
Agora, ali, em Londres uma pergunta similar me fez pensar que ouviria o mesmo comentário como tréplica, pois o português brasileiro, quando bem falado, com as palavras claras, escandidas (não como o português chiado e rápido de Portugal) é mesmo considerado uma das mais belas e sonoras línguas do mundo, que aos europeus soa um pouco como o idioma russo, quem diria!...
Mas não. O taxista inglês, perguntou: "De onde vocês são?"
Anneliese respondeu apenas:
-Do Brasil...
O taxista, talvez perplexo com a lourice da Anneliese, treplicou então:
"Mas vocês são brancos!... no Brasil não são todos negros?"
Eu respondi, por alguma razão, sem paciência de explicar:
- São sim, todos... Eu e ela somos exceções...
O taxista, satisfeito, seguiu sem falar mais nada.
Durante aqueles dias, visitando os museus de Londres junto com a Anneliese, eu sentia claramente a distância que havia entre nós, uma espécie de abismo intransponível, que era tanto de natureza cultural, como social e de temperamento. Durante a primeira visita dela comigo na Ala do Turner na Tate Gallery, ao primeiro contato visual com as obras dele daquela explosão de luz e cores da maturidade, ela exclamou "Mas ele é kitsch!" Fiquei chocado. Tive que explicar porque Turner não era kitsch, mas maravilhoso, o que não foi fácil.
Fui me distanciando...
Eu tinha mais afinidades com BK, mas não atração física. Além disso a BK tinha um namorado que a visitava, um americano gordo, do qual apenas me lembro dele dizendo: "Os ingleses são snobs"...(o que apontava a diferença e birra básicas entre os americanos e seus antigos colonizadores). Eu, que estava ficando um tanto frustrado com tudo aquilo, talvez porque me estivesse pesando uma solidão crescente, um dia eu disse a ele:
" Uma coisa que não entendo em vocês, americanos, é a obsessão e a idolatria que vocês têm por esse tipo de funcionário público que se chama "inspetor de polícia", que nos filmes vive apontando revólveres com os braços esticados, olhando para todos lado por minutos a fio, depois tiroteios de dois milhões de cartuchos de pólvora seca, ou em correrias de carros de infindáveis minutos de trombadas e explosões. Noventa por cento dos filmes de Hollywood e também da televisão americana são sobre isso. Não entendo qual o interesse disso... Por quê se deter tanto sobre um tipo social humanamente medíocre e oco?"
Não... o tom, que eu tentei, de falso ingênuo não enganava, era covardia... eu estava sendo irônico, maldoso, injusto, e pior: inverídico, e ofendendo profundamente aquele pobre americano gordo, que não sendo intelectualizado, mas mais verdadeiro, com um ar ressentido argumentou:
" Mas... é mais do que isso!... Se trata da luta do Bem contra o Mal!..."
Com aquela sua simples frase eu sabia que ele estava com a razão, e me dei de conta de que eu tinha esgotado as minhas energias e possibilidades íntimas por aquela temporada na Europa; estava solitário, frustrado e pronto para largar aquilo tudo, as obras primas dos museus e aquelas duas maravilhosas mulheres inacessíveis... e voltar para o meu ateliê da Oscar Freire, de onde olhava o mundo por um periscópio, antes de esvaziar o lastro, fechar as escotilhas, e afundar...
Finalmente depois de um mês de carinhosa hospedagem, com os dez dias da Anneliese conosco em London também, despedimo-nos comovidamente da BK no aeroporto de Heathrow. E retornamos, Anneliese e eu, a Hamburg para desmontar a minha exposição da AMSA Gallerie. Devo revelar que presenteei a minha querida BK com aquela pasta infernal, com duzentas gravuras, não só por gratidão por sua carinhosa hospedagem mas confesso que também para me ver livre daquele peso inútil. Nunca fiquei sabendo se ela conseguiu vender alguma daquelas litos. Também nunca mais veria a BK, nem me corresponderia com ela por carta ou telefone, não por ingratidão, mas por simples inércia ou talvez fechamento de uma história.
Antes de voltar ao Brasil, Anneliese ainda organizou uma mostra de meus desenhos num belo hotel em Bremen, a cidade dos animais cantores do conto dos irmãos Grimm. No hotel de luxo nada vendeu, mas fiquei hospedado por dois dias por honra da casa, curtindo a lareira, no belo refeitório fazendo deliciosas refeições, e fruindo a vista em torno, pois dava para uma linda floresta gelada, coberta de neve, que eu via pela primeira vez. Também antes de voltar Anneliese organizou outra mostra de meus desenhos, na cidade de Solothurn, na Suíça, na sede da Global Harmony Foundation, uma fundação internacional beneficente, cujo presidente de honra era o vetusto e gordo ator inglês veterano Sir PETER USTINOV, que discursou na Abertura agradecendo a minha "doação". Ustinov era aquele grande ator shakespeariano que fez magnificamente nos anos 50, o papel do imperador Nero na super produção hollywodiana da adaptação cinematográfica do belo romance QUO VADIS, best seller do escritor polonês Henryk Sienkiewicz.
Afinal chegou o dia de eu retornar ao Brasil. Deixei por conta da Anneliese, com seus patrocínios, enviar de volta todas as minhas obras que sobraram (a maioria), de navio para o meu endereço em São Paulo. No aeroporto de Hamburg antes de entrar na Sala VIP de espera, que ela me proporcionava com a gentileza da Lufthhansa, que foi uma das minhas patrocinadoras, a Mulher mais Bela do Mundo abraçou-me carinhosamente em despedida, quando aproveitei para dizer baixinho ao seu ouvido, mas com naturalidade... que a amava. Ela pareceu surpresa e ficou me olhando enigmaticamente, calada, enquanto eu me afastava...
Eu só a veria novamente em São Paulo, dali a cinco anos num encontro casual num café da Alameda Lorena, eu acompanhado de minha doce e bela mulher, Eliana, que eu conhecera em 1994. Anneliese ainda estava linda, mas com o cabelo todo branco, numa mesa junto com sua filha, aquela que estudava no Actor's Studio em Nova York.
Elas nos convidaram à sua mesa, e a menina, excitadíssima, num entusiamo louco, depois de me perguntar : "Você é o Guilherme? Sou fã das sua obras!" (ela vira o catálogo e eu dera um belo desenho colorido de nu para a Anneliese) a menina derramou-se sem parar em elogios tão exagerados e febris, falando muito rápido, que olhei para a Anneliese, enquanto ela, muda, fixava com os olhos seriamente a sua filha, como se a estivesse vigiando, tentando hipnotizar, ou conter. Também como se estivesse dizendo: "Menos... menos..."
Eu viria a saber tempos depois o drama que minha bela amiga, como mãe, estava enfrentando...
Pouco tempo depois desse estranho reencontro na cafeteria, fiquei sabendo por uma amiga comum que a Anneliese abandonara seus projetos e seus sonhos de ser marchand e galerista quando soube que sua filha lá em Nova York manifestara os primeiros sintomas de um doença grave: um tumor no cérebro, que produzia terríveis sintomas, a começar por convulsões e delírios depois de momentos de enorme excitação entusiástica crescente. Anneliese correra até Nova York para buscar a filha e a trouxe para ser tratada no Brasil, por motivos que desconheço, talvez financeiros. Seus lindos cabelos louros naturais ficaram brancos da noite para o dia, e foi assim que as encontramos, ela e a filha, naquele Café.
Não as vimos mais. Nunca mais encontrei com Anneliese e não mais soube dela e de sua pobre filha, ambas ao que parece com os sonhos destruídos pelo destino imponderável, pela vida, afinal, que de um modo ou de outro frustra mesmo nossos sonhos. É preciso estarmos acima deles, esses mesmos sonhos, para conseguimos viver de maneira filosófica escapando ao timbre trágico da vida. Eis o segredo: não nos levarmos muito a sério e como disse o poeta inglês vitoriano Rudyard Kipling no seu famoso e popular poema IF : "Se encontrando o sucesso e o fracasso, tratares do mesmo modo esses dois impostores..."
Termino assim este episódio do crepúsculo da minha juventude, nada devendo, nada lamentando, acrescido em minha Arte em experiência e gratidão ao Destino pelo passado, e sem grandes ilusões quanto ao futuro. Quê pode um artista querer mais que realizar sua arte, captada, antenada do espaço de Deus, arte essa que está em toda parte à nossa disposição, embora de empréstimo? Eu os saúdo amigos leitores, fiéis, assíduos, e convido a que brindem com um bom vinho a dádiva aventurosa da vida. Mas peço-lhes que bebam por mim, que já não posso... uma conclusão, afinal comum, quase corriqueira:
Sim, "fui com muita sede ao pote" e "bebi muito depressa minha cota". Em compensação me foi dado, não corrigir, mas contar com algum engenho e arte, essa minha meio patética, meio gloriosa, trajetória de artista e poeta "par la grace de Dieu"...
FIM
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