Wednesday, February 7, 2024

MEMENTO MORI (crônica de Guilherme de Faria)

Com o avanço da idade, já há algum tempo me ponho a lembrar de meu pai, durante a minha infância, coisa que eu não costumava fazer com ele em vida. Eu passei a minha juventude e até a minha"maturidade" sem me importar com ele, e mesmo me sentia seguro de o ter superado tão naturalmente dentro de mim, como se não tivesse sequer resquícios daquele (assim chamado) "superego" da teoria freudiana. Agora, já idoso, que estou, começo a reconhecer como estou parecido com ele e como algumas de suas piadas ou citações casuais permaneceram dentro de mim, e possivelmente tiveram alguma influência, se não no meu caráter, nas minhas opiniões mais enraizadas. Recentemente me veio à memória, uma espécie de 'boutade" de fundo politico, que expressava, na verdade, sua opinião. Ele, um dia, me disse: "Alguém uma vez afirmou que "o mundo só será melhor quando o último comunista for enforcado nas tripas do último padre". E deu uma risada, típica dele, que era o primeitro a rir das piadas que ele escolhia, em geral colhidas nos seu círculo médico, eu suponho. Quanto a mim, menino, se me lembro, fiquei de olho parado, perplexo, talvez mesmo chocado com aquela frase com seu teor de crueza e violência latente. Mas seu riso, acompanhado da repetição da frase e mais riso, afastaram aquela impressão como sendo afinal uma simples piada cruel criada provavelmente por um anarquista espanhol (eu pensei anos mais tarde). Entretanto ele não costumava contar coisas chocantes e tinha, como bom médico, um caráter compassivo, e como homem cultivado em letras além de ciências, era um humanista. Quando eu, já adolescente, estava lendo com prazer as memórias do Salvador Dalí (Diário de um Gênio), impressionei-me com uma frase chocante, esta tipicamente surreal e delirante, do pintor: "Eu amo a Bomba Atômica, essa fantástica fábrica de Anjos." Citei-a para o meu pai, numa oportunidade, e ele reagiu com um riso curto e sarcástico, exclamando: "Ah! Esse sujeito nunca me enganou!"

Quando menino, meu pai, de família carioca católica, estudara em internato, num colégio de padres, e isso esplicaria, talvez, ter sido anticlerical toda a sua vida.
Entretanto, nestes anos de minha já avançada idade, me vem, recorrente, a cena de sua morte, que eu não assisti, contada a mim pelo meu irmão mais velho. Meu pai totalmente paralizado de todos os seus movimentos e até de sua fala, pela grave doença muscular progressiva que o acometeu nos seus derradeiros anos, no seu leito de morte tinha um olhar de verdadeiro terror. Então, meu irmão, católico fervoroso e praticante a vida toda, perguntou a ele se deixaria que ele trouxesse um padre seu amigo para orar ali junto dele e dar-lhe a "extrema unção". Meu pai, segundo ele, surpreendentemente assentiu com os olhos, e o padre vindo, paramentou-se, leu os ritos, orou e deu-lhe a extrema unção, que o apaziguou... E pôde finalmente morrer.
Não posso deixar de pensar no imenso mistério da Morte que tanto apavora os vivos, e também na necessidade da Fé, para aliviar a carga desse medo primal. Quanto a mim, só posso dizer que não sei como me comportarei, eu, que não sei sequer se creio, se tenho alguma Fé, eu, que tenho tanta simpatia literária por ela, que, na sua candura, me parece no mínimo bem mais poética que o ateísmo, salvo a sua conversão, mesmo que por medo... no momento final.
(Guilherme de Faria)
06/02/2024

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