Tuesday, May 24, 2022

Breve digressão sobre o envelhecer (crônica de Guilherme de Faria)

Um dos flagrantes visuais captados, quase num olhar fortuito, de esquelha, de que me lembro, foi o andar de meu pai se afastando pela calçada, rumo ao seu carro estacionado na minha Oscar Freire, após uma rara e última visita sua ao meu ateliê. Choquei-me ao perceber um andar muito lento e hesitante, inseguro, de um velho alquebrado. Meu pai, médico, àquela altura já aposentado havia muitos anos, antes sempre me parecera vigoroso e energético, um tanto obssesivo na maneira de falar, traindo uma neurose que o acompanhara a vida inteira, mesmo no humor auto-ridente, mas agora amansado pela idade, quase normal, e finalmente agradável, até um pouco sábio. 

A visão daquele andar inesquecível, emblemático de uma velhice já sem saúde, ou de qualquer uma muito profunda, me volta agora, no meu próprio andar, na minha própria velhice física, que não confere com a minha mente, esta de alguma resistência à custa da pintura de cavalete e textos como este mesmo, que, espero, traiam algum vigor, embora melancólicos por essência...
A autoconsciência do envelhecer é tolerável se nos for acompanhada de uma espécie de cinismo, e não de puro conformismo. Tal cinismo implica numa certa dose de humor, que pode nos salvar da melancolia patética da velhice. Sim, eu e Eliana, minha doce companheira, envelhecemos rindo muito, conferindo nossas lembranças de infância e juventude, um tanto pátéticas e até um pouco ridículas, como são as lembranças vistas sob esse ângulo, na verdade o mais saudável...
Percebo, entretanto, que estou um tanto prolixo e até pedante formalmente nesta minha digressão sobre o envelhecimento... Sinal de que ele começa a alcançar a minha mente? Mas... por outro lado, se percebo, é sinal de que ainda estou a salvo... e penso: agarra-te na juventude eterna da tua anima, ó velho! Tens dentro de ti, uma poetisa (pasmem!) a bela Alma Welt, eternamente jovem porque morreu para permanecer imortal na tua alma, embora seja difícil algumas pessoas entenderem tal fenômeno, na verdade, no fundo, comum a todo e qualquer artista verdadeiro...
Guilherme de Faria
24/05/2022

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